O mercado de trabalho caminha a passos lentos nos primeiros meses do ano, mas isso não quer dizer que a busca por uma vaga deve começar só depois do Carnaval. Construir uma marca de valor sobre a sua imagem profissional requer tempo, estratégia e conhecimento de algoritmos.
Cerca de 5,6 milhões de pessoas estão sem emprego no País, essa é a menor taxa de desemprego da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), iniciada em 2012. Os dados foram divulgados na última terça-feira (30/12).
Para aqueles que fazem parte dessa parcela de profissionais e querem começar o ano de 2026 empregados, a Gazeta ouviu dois especialistas em mercado de trabalho para guiar essas pessoas até a oportunidade dos sonhos.
Trabalhar a vitrine
“Produto que não é visto, não é comprado”, explica Andrea Deis, doutora em Administração (Mackenzie) e Gestora Empresarial (FGV). Ela recomenda construir uma proposta de valor durante alguns meses para chegar aonde deseja.
O ideal é saber onde está, para onde quer ir e o que aproxima e distância daquele cargo. Quanto maior for a proposta de valor, maior o fit (alinhamento do perfil do candidato e cultura da empresa). Não adianta atirar para todos os lados. Quem quer tudo, não quer nada.
Por isso usar o seu tempo com estratégia é importante, mas qual? Colocar no currículo áreas de atuação e não o cargo é uma delas. O contratante pode estar buscando alguém de uma atuação e pode adequar em outros cargos.
As corporações querem pessoas não só com um perfil profissional, mas também que se aproxime dos valores, éticos, morais, sociais, culturais da empresa. Isso evita um bore-out — síndrome do tédio —, um dos motivos que levam a pessoa a sair da empresa.
“Existe uma coisa que a gente chama de alinhamento cultural. Mesmo com experiência, muitas vezes, o candidato não é escolhido porque existe um desalinhamento cultural”, explica Deis, que também faz mentoria de carreiras.
Dessa forma, a formação identitária nas redes sociais como LinkedIn é de fundamental importância. Não só por meio das postagens, mas também ao se conectar com as pessoas daquele ambiente e entender a cultura dele.
“O mercado não compra o que você é, compra o que ele percebe que você é”, conclui.
O algoritmo do LinkedIn utiliza palavras-chave para encontrar o candidato ideal/Hunters Race/PexelsAlgoritmos a seu favor
É indispensável usar as redes sociais para crescer na carreira profissional. O algoritmo do LinkedIn, por exemplo, trabalha com alinhamento de dados, ou seja, o título e a descrição da vaga precisam ter compatibilidade com o seu currículo digital.
Mas essa combinação também se dá de outra forma, através dos perfis conectados. Com cautela, gentileza e humildade, vale mandar uma mensagem para uma conexão para entender os valores daquela empresa ou até mesmo solicitar uma indicação.
“Por isso que hoje a chave do mundo é networking. Você não precisa ter um milhão de amigos, mas vale a pena ter 100 mil contatos. Que sejam 100 ou 200 contatos produtivos, mas é importante”, alerta Deis.
Para a diretora de RH da Holding SM, Thaís Carvalho, o contato direto com o recrutador e alterar o currículo conforme a vaga são duas ótimas estratégias. Somente a experiência não garante vantagem no processo seletivo.
“Entre os principais fatores de eliminação estão a má estruturação do currículo, a falta de preparo sobre a empresa, a dificuldade em explicar conquistas e impactos gerados ao longo da carreira, além dos aspectos comportamentais que não estejam alinhados ao perfil da vaga ou expectativa salarial desalinhada com a realidade do mercado”, esclarece.
Para quem busca o primeiro emprego a estratégia pode ser um pouco diferente. O recomendado é focar nos trabalhos voluntários e softs skills e não ter mais do que uma página de currículo.
Só depois do Carnaval?
Tradicionalmente, o mercado começa a ganhar mais ritmo a partir da segunda quinzena de fevereiro, especialmente após o Carnaval. É quando as empresas retomam a rotina completa, com decisões mais claras sobre orçamento e prioridades.
“Em janeiro e fevereiro, muitas empresas ainda estão estipulando o orçamento anual, metas e estrutura das equipes. Além disso, o período de férias de lideranças e decisores impacta diretamente nas contratações”, esclarece Carvalho.
Esse processo faz parte da realidade cultural brasileira. Deis explica que setores que dependem de licitações públicas, vão estar mais retraídos até março, assim como indústrias que fizeram grandes paradas de manutenção de férias coletivas.
“O processo se repete porque o ciclo fiscal brasileiro é muito atrelado a um calendário civil, gerando demandas retraídas que, na verdade, só vão evoluir depois do carnaval”, comenta.
Isso não quer dizer que a busca por emprego precisa começar depois das folias, a construção dos valores profissionais tanto dentro quanto fora das redes precisa iniciar logo no início do ano.
O profissional deve entender para onde que ir e se posicionar com estratégia, seja para quem busca se realocar no mercado de trabalho ou para quem está atrás do primeiro emprego.
