O escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ganhou novos capítulos com a revelação de pagamentos milionários a figuras influentes da política, do Judiciário e da mídia.
De contratos com o ex-presidente Michel Temer a repasses ligados a pessoas próximas ao ministro Alexandre de Moraes, o caso expõe uma rede de relações que levanta questionamentos sobre ética e influência nos bastidores do poder.
Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025 após tentar fugir do País. Na ocasião, o Banco Central havia decretado, horas antes, a liquidação extrajudicial da instituição.
De Léo Dias a Temer: quem recebeu e quanto
As investigações indicam que o Banco Master realizou repasses milionários entre 2023 e 2025 para escritórios, empresas e intermediários ligados a nomes de peso no cenário nacional.
Entre os valores já identificados:
- O escritório ligado ao ex-presidente Michel Temer recebeu cerca de R$ 10 milhões em 2025;
- Uma empresa do jornalista Leo Dias, que publica notícias e fofocas sobre famosos, recebeu ao menos R$ 9,9 milhões;
- Empresas do apresentador Ratinho receberam cerca de R$ 24 milhões;
- Empresas associadas ao ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles teriam recebido R$ 18,5 milhões;
- Portal Metrópoles e Luiz Estevão: site recebeu do Banco Master R$ 27,2 milhões entre 2024 e 2025;
- Globo e Luciano Huck: Will Bank, braço digital do banco Master, foi patrocinador master do quadro batizado de “Willimpíadas”, em 2025, que dava prêmio semanal de R$ 1 milhão;
- O ex-ministro Guido Mantega aparece com cerca de R$ 14 milhões em repasses.
Além disso, documentos analisados por investigações apontam que o volume total de pagamentos pode chegar a R$ 65 milhões, destinados a empresas e escritórios ligados a figuras públicas.
Caso Moraes e contrato milionário elevam tensão
Um dos episódios mais sensíveis envolve a esposa do ministro Alexandre de Moraes. O escritório da advogada Viviane Barci de Moraes recebeu cerca de R$ 80 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025, segundo documentos enviados à CPI.
Há ainda registros de um contrato que poderia chegar a R$ 129 milhões, com pagamentos mensais de cerca de R$ 3,6 milhões.
Escritório de Viviane Barci de Moraes representava Banco Master na Justiça. Foto: Marcelo Camargo/Agência BrasilApesar dos valores elevados, os serviços foram formalmente registrados como prestação jurídica, o que, em tese, não configura ilegalidade. Ainda assim, o caso gerou forte repercussão política e questionamentos sobre conflito de interesses.
O ministro nega irregularidades e também contestou reportagens sobre encontros com Vorcaro, classificando algumas delas como falsas.
O que dizem os envolvidos sobre os pagamentos
Após a repercussão dos repasses ligados ao Banco Master, nomes citados nas investigações vieram a público apresentar suas versões e justificar os valores recebidos.
O ex-presidente Michel Temer contestou o montante divulgado. Em nota ao jornal O Globo, ele afirmou que não recebeu R$ 10 milhões, mas sim R$ 5 milhões, além de R$ 2,5 milhões, por meio de seu escritório, contratado para atuar em atividades jurídicas de mediação.
Já o jornalista Léo Dias declarou, em nota enviada ao Estadão, que os valores recebidos estão relacionados a um contrato publicitário com o Will Bank, braço digital do Banco Master, posteriormente liquidado pelo Banco Central.
Luiz Estevão afirmou ao UOL que os valores recebidos pelo portal Metrópoles dizem respeito à publicidade do Will Bank. Foto: Reprodução/SBTNo caso do apresentador Ratinho, a assessoria do Grupo Massa informou à Folha de S.Paulo que os ganhos são provenientes de campanhas publicitárias e parcerias comerciais, com rendimentos devidamente declarados à Receita Federal, seguindo práticas reconhecidas pelo mercado.
Por fim, o empresário Luiz Estevão afirmou ao UOL que os valores recebidos pelo portal Metrópoles dizem respeito à publicidade do Will Bank, incluindo ações como a compra de naming rights da Série D do Campeonato Brasileiro e inserções publicitárias em plataformas digitais.
Apesar das justificativas, os pagamentos seguem sob análise, principalmente pelo volume e pela concentração em figuras influentes, o que mantém o caso no centro do debate público.
Pagamentos legais, mas sob suspeita
Até o momento, grande parte dos pagamentos identificados foi registrada formalmente, o que afasta, em tese, a existência de caixa dois. No entanto, especialistas apontam que o volume, a frequência e os destinatários levantam dúvidas sobre a finalidade real desses contratos.
O caso segue em investigação e pode ganhar novos capítulos com a possível delação de Vorcaro, que promete revelar detalhes sobre os bastidores das relações entre o sistema financeiro, a política e o Judiciário no Brasil.
