Em discussão no Brasil, câmera corporal já é usada por policiais de ao menos 25 países

Pesquisas apontam para uma grande variação na eficácia da tecnologia para coibir casos de violência

Na Europa, o equipamento é utilizado há quase 20 anos, mas o objetivo principal não é reduzir a letalidade policial

Na Europa, o equipamento é utilizado há quase 20 anos, mas o objetivo principal não é reduzir a letalidade policial | Rovena Rosa/Agência Brasil

As polícias de ao menos 25 países utilizam câmeras corporais que registram suas ações em serviço. Ao redor do mundo, a discussão sobre o uso do equipamento tem variado entre o otimismo e a incerteza em relação aos resultados.

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Pesquisas apontam para uma grande variação na eficácia da tecnologia para coibir casos de violência –praticada por e contra agentes de segurança–, aumentar a produtividade no atendimento a ocorrências e gerar confiança na polícia. O motivo está na diferença das regras para o uso dos equipamentos, como a autonomia do policial para acionar a gravação, o acesso do público às imagens e como elas devem ser manejadas durante uma investigação.

Enquanto no Brasil há estados em que o acionamento da câmera é automático, caso de Santa Catarina, em países como Reino Unido, Estados Unidos e França o uso é diferente: na maior parte dos departamentos, os policiais acionam a gravação manualmente.

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Na Europa, o equipamento é utilizado há quase 20 anos, mas o objetivo principal não é reduzir a letalidade policial. O foco é melhorar o serviço prestado pelos agentes de segurança à população. Em 2014, a polícia de Londres adotou as câmeras para todos os policiais que trabalham em contato com o público.

Além de proteger os policiais e servir como evidência, a introdução das câmeras corporais na Alemanha teve uma justificativa extra. Como aumentou o número de cidadãos que começaram a filmar as ações policiais com o celular, o equipamento da corporação passou a servir como um contraponto à possíveis edições maliciosas do conteúdo.

Na Ásia, a violência contra policiais durante protestos serviu de pretexto para dar início ao uso de câmeras pela polícia, mas há receio de que o equipamento possa servir para cercear manifestações políticas.

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Em Hong Kong, onde os testes começaram em 2013, as câmeras foram implantadas amplamente a partir de 2017. Uma das justificativas eram episódios de violência em eventos públicos, com as câmeras servindo para, por exemplo, comprovar ataques a policiais. Mas organizações acusaram policiais de romper suas próprias normas ao usar as câmeras em protestos políticos no final do ano, gravando indivíduos, não a multidão.

A implementação está iniciando em Portugal neste ano, e os primeiros equipamentos já foram entregues à Polícia Marítima. No Japão, a previsão é que policiais passem a usar o equipamento ao longo de 2024.

“Análises sugerem que restringir a discricionariedade [autonomia] dos agentes para ligar e desligar câmeras corporais pode reduzir o uso da força pela polícia, mas é necessário mais avaliações”, diz o texto de uma das pesquisas mais abrangentes sobre o tema, feita em 2020 na Universidade George Mason, dos EUA, que revisou 30 estudos sobre câmeras corporais em vários países. Esse ponto é citado em diversos outros estudos que avaliaram o uso da tecnologia, em departamentos de polícia americanos e em outros países.

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Essa hipótese tem sido reforçada por análises mais recentes. “Uma revisão abrangente de 70 estudos sobre o uso de câmeras corporais constatou que a maior parte das pesquisas sobre câmeras corporais não demonstrou efeitos consistentes ou estatisticamente significativos”, afirma o Instituto Nacional de Justiça dos EUA, braço do Departamento de Justiça americano voltado para estudos e avaliação de políticas públicas.

Segundo o órgão, mais estudos são necessários para permitir uma análise do impacto do uso das câmeras
No Brasil, levantamento da FGV (Fundação Getulio Vargas) apontou redução de redução de 57% nas mortes por intervenção policial nos batalhões da PM de São Paulo entre 2021 e 2022, em comparação com as unidades que não usavam o equipamento. Já em Santa Catarina, pesquisa feita por universidades do Reino Unido e pela PUC-Rio apontou queda de até 61% no uso de força pelos agentes de segurança.

Em lugares onde o uso excessivo da força é central no debate público, há maior preocupação com brechas nas regras e com o risco de que as câmeras não sejam usadas da maneira como mandam os protocolos.

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É o que pode ter ocorrido em 30 de julho do ano passado em Guarujá, no litoral paulista. Imagens de uma câmera corporal mostram que, às 7h45 daquele dia, o sargento da PM Eduardo de Freitas Araújo apontava um fuzil em direção à porta de um barraco.

Na ação, um homem que estava dentro do imóvel foi morto. Ele não aparece na imagem no momento do tiro –apenas o fuzil do policial e a porta. O sargento e outros três PMs disseram em depoimento que o policial gritou “larga a arma” ao suspeito.

A cena, porém, não tem som. A defesa dos policiais afirmou que as câmeras “estavam em ‘modo recall’, ou seja, por descuido, não foram acionadas para o ‘modo evidência'”. O “recall” é um tipo de gravação armazenada em qualidade mais baixa e sem som, destinado a situações corriqueiras que não envolvem perigo.

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Para passar do “recall” para o “evidência”, é preciso que o próprio PM aperte um botão. As diretrizes da PM exigem que isso seja feito em qualquer ação policial ou abordagem, para que a ocorrência seja gravada com qualidade total.

O caso gerou a primeira denúncia criminal contra policiais da Operação Escudo, ação mais letal da PM paulista desde o massacre do Carandiru, com 28 mortos. A operação tem sido citada por especialistas brasileiros como um exemplo de que a câmera, sozinha, não resolve o problema da violência policial.

Neste caso, porém, o vídeo serviu como o principal elemento de acusação. A defesa dos policiais afirma que a acusação parte “de análise equivocada dos fatos, não havendo razões jurídicas para que as acusações prosperem”.

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No Brasil, ao menos oito estados têm PMs que usam câmeras na farda: São Paulo, Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Roraima, Rondônia e Santa Catarina. O Paraná deve iniciar seu programa a partir de fevereiro. E o Ministério da Justiça elaborou um projeto de lei que busca institucionalizar o uso das câmeras pelas forças de segurança do país.

Em São Paulo, porém, há dúvidas sobre a continuidade do uso das câmeras pela PM. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) declarou em dezembro que os equipamentos não têm nenhuma efetividade para a segurança dos cidadãos e renovou o contrato do programa apenas até junho. O orçamento foi reduzido e um estudo que havia mostrado o impacto das câmeras foi descontinuado.

“Não é um problema de desenho do programa, e sim de supervisão da tropa”, diz a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, que estudou o programa de câmeras corporais da PM paulista.

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As câmeras da PM paulista têm uma particularidade: elas são programadas para filmar durante todo o turno, enquanto na maior parte do mundo é o próprio policial quem decide quando gravar.

Esse é considerado um dos maiores problemas no uso das câmeras no mundo todo, quando a questão é controle policial. “Os estudos mostram que os policiais acionam a câmera, em média, em só um terço das ocorrências, em várias polícias nos Estados Unidos, no mundo todo”, diz Samira.

Em Santa Catarina, primeiro estado brasileiro a adotar a tecnologia, a gravação se inicia automaticamente após policiais comunicarem ocorrências ao centro de controle da PM. Houve resistência da categoria a esse sistema, mas o Tribunal de Justiça do estado confirmou que essa deve ser a regra.

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A gravação apenas após acionamento do botão manual, por decisão do policial, é a regra no mundo. Há outros modelos: em Louisville, no estado americano de Kentucky, por exemplo, isso ocorre quando a arma do policial é retirada do coldre.

O custo do programa é diretamente afetado pelo método de acionamento da câmera. Quanto mais gravações, mais espaço de armazenamento nos bancos de dados será necessário. Em São Paulo, o custo total foi de R$ 7 milhões por mês no ano passado, considerando todo o valor destinado ao programa no orçamento.

O acesso às imagens por policiais sob suspeita é outro aspecto citado como crítico por especialistas. Esse acesso, em São Paulo e Santa Catarina, é permitido. Os PMs podem ver as imagens das próprias câmeras por meio de um aplicativo de celular.

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“Essas tecnologias vieram para ficar, elas ajudam muito no processo de planejamento de segurança pública”, diz o professor Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP. Ele foi um dos coordenadores de um estudo que mostrou uma queda nas mortes de policiais e de suspeitos em São Paulo nos batalhões que usam a tecnologia, além de um aumento de produtividade. Outras pesquisas feitas com a PM de São Paulo chegaram a conclusões semelhantes.

“Em outros países, não se discute abandonar esse recurso. Na Europa e nos Estados Unidos, estão investindo muito pesadamente nisso porque em todo o espectro de tecnologia, e principalmente tecnologia de imagem, o custo disso era absurdo e, a cada ano, diminui”, diz o professor.