À primeira vista, parecem personagens que ganharam forma no meio de um sonho. Mas são esculturas feitas de cerâmicas, e algumas parecem estar a um passo de começar a conversar com quem olha.
O responsável por essas figuras é o artista Calvin Wong, de Portland, nos Estados Unidos. Seu trabalho mistura formas criadas no torno com construção manual, dando às peças uma aparência propositalmente irregular.
A ideia fica ainda mais interessante quando se descobre que essas esculturas nasceram justamente de uma mudança na maneira de criar.
Quando a cerâmica deixa de ser certinha
Antes de mergulhar na cerâmica, Wong trabalhou com técnicas como litografia, gravura e pintura. Eram disciplinas mais rígidas e calculadas.
Ao passar para a cerâmica, o artista encontrou um processo mais livre e intuitivo.
Em vez de buscar reproduzir fielmente alguma coisa que existe no mundo real, ele passou a construir formas escultóricas baseadas na imaginação e no subconsciente.
O resultado são figuras que parecem familiares, mas difíceis de definir.
Peças que parecem estar sentindo alguma coisa
Na exposição Thinking Throwing It All Away, apresentada pela One Grand Gallery, Wong trabalhou justamente com essa tensão entre aquilo que é planejado e o que aparece durante o processo de criação.
As formas começam no torno e depois têm sua função original desmontada. A partir daí, Wong combina as bases com uma construção manual mais intuitiva.
O resultado inclui figuras combinadas e grandes cabeças escultóricas, que funcionam como registros de diferentes estados da mente.
Segundo a galeria, as obras passam por uma variedade de experiências humanas, indo de momentos de alegria silenciosa até sentimentos mais profundos de vulnerabilidade e ansiedade.
O ‘imperfeito’ faz parte da graça
Se algumas peças parecem inacabadas ou até um pouco tortas, isso não acontece por acaso.
Wong valoriza uma estética de imperfeição proposital, com superfícies e formas mais ásperas. A própria galeria descreve esse aspecto como uma escolha que faz as obras parecerem, ao mesmo tempo, acessíveis e frágeis.
É justamente essa aparência que aproxima o espectador das esculturas. Em vez de objetos perfeitamente polidos e distantes, elas parecem carregar marcas, irregularidades e uma espécie de personalidade própria.
Da infância à vida adulta
Por trás das figuras existe ainda outro contraste.
O trabalho de Wong explora a tensão entre a inocência juvenil e as complexidades da mente adulta.
É como se aquelas formas conseguissem juntar duas coisas que normalmente parecem distantes: a espontaneidade de uma criação quase infantil e sentimentos mais difíceis de explicar.
Na exposição, essa relação aparece nas próprias formas, que podem parecer divertidas em um primeiro olhar e, ao mesmo tempo, carregar uma sensação de fragilidade.
Uma escultura que nasce do improviso
As peças começam com uma estrutura criada no torno, mas essa forma inicial não permanece intacta.
Wong desmonta e transforma partes do trabalho antes de reconstruí-las manualmente, deixando que o processo mais intuitivo participe do resultado final.
É desse encontro entre a estrutura inicial e a transformação manual que surgem as figuras que marcam o trabalho do artista.






