Planejada por Brasil, China e Peru, a chamada ferrovia bioceânica entrou em uma fase mais concreta de discussão técnica, mas ainda está longe de sair do papel.
Com cerca de 4.500 quilômetros de extensão, o projeto pretende ligar ferrovias brasileiras já existentes a um porto no litoral do Peru, no oceano Pacífico, encurtando o caminho de exportações brasileiras até a Ásia.
Uma nova estrada também promete alterar o trajeto que conecta o Brasil ao norte do Chile por meio de uma estrada de mais de 2.400 quilômetros até 2026.
Em 2025, os três países passaram a alinhar estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental, após a assinatura de memorandos de entendimento entre o governo brasileiro, instituições chinesas especializadas em planejamento ferroviário e representantes peruanos.
Até o momento, no entanto, não há obras iniciadas nem canteiros abertos no Brasil.
O traçado em análise parte da região de Ilhéus, no sul da Bahia, onde a Fiol se conecta a um futuro porto em águas profundas no Atlântico.
De lá, a ferrovia seguiria pelo oeste baiano, cruzaria o Cerrado em Goiás, se integraria à Ferrovia Norte-Sul e avançaria em direção ao Mato Grosso, principal polo produtor de grãos do país. Na sequência, o corredor passaria por Rondônia e Acre até alcançar o território peruano, atravessando a Cordilheira dos Andes rumo ao porto de Chancay, construído com capital chinês no Pacífico.
A principal motivação do projeto é logística. Atualmente, a maior parte das exportações brasileiras de soja, milho e minério sai por portos do Atlântico, enfrentando rotas longas até a Ásia. A ligação ferroviária com o Pacífico poderia reduzir o tempo de transporte, diminuir custos e aumentar a competitividade do agronegócio e da mineração no mercado internacional.
Pela dimensão, a ferrovia bioceânica estaria entre os maiores projetos de infraestrutura da América do Sul. A extensão prevista equivale a quase três vezes o tamanho da Fiol e supera projetos como a Ferrogrão. A complexidade técnica também é elevada, especialmente nos trechos que atravessam a Amazônia e a Cordilheira dos Andes, onde seriam necessários túneis, viadutos e obras de contenção em áreas de relevo acidentado.
Além dos desafios de engenharia, o projeto enfrenta entraves ambientais e sociais. O traçado cruza biomas sensíveis e áreas ocupadas por comunidades tradicionais e povos indígenas, o que exige um processo de licenciamento complexo e sujeito a revisões e judicializações.
O custo estimado é de dezenas de bilhões de reais, o que torna a viabilidade econômica um ponto central das análises em curso. Para avançar, o projeto dependerá de garantias jurídicas, definição clara do modelo de concessão e comprovação de demanda suficiente para sustentar a operação no longo prazo.
Por enquanto, a ferrovia bioceânica segue no campo dos estudos e negociações. O próximo passo será transformar as análises técnicas em projetos executivos e, posteriormente, em editais capazes de atrair investidores dispostos a assumir um empreendimento de alto custo, alto risco e grande impacto econômico e ambiental.
