Ferrovia de 4.500 km pode ligar o Brasil a Ásia e encurtar exportações

Projeto pretende ligar ferrovias brasileiras já existentes a um porto no litoral do Peru, no oceano Pacífico

traçado em análise parte da região de Ilhéus, no sul da Bahia (foto meramente ilustrativa)

traçado em análise parte da região de Ilhéus, no sul da Bahia (foto meramente ilustrativa) | Jay Wennington/Unsplash

Planejada por Brasil, China e Peru, a chamada ferrovia bioceânica entrou em uma fase mais concreta de discussão técnica, mas ainda está longe de sair do papel.

Com cerca de 4.500 quilômetros de extensão, o projeto pretende ligar ferrovias brasileiras já existentes a um porto no litoral do Peru, no oceano Pacífico, encurtando o caminho de exportações brasileiras até a Ásia.

Uma nova estrada também promete alterar o trajeto que conecta o Brasil ao norte do Chile por meio de uma estrada de mais de 2.400 quilômetros até 2026.

Em 2025, os três países passaram a alinhar estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental, após a assinatura de memorandos de entendimento entre o governo brasileiro, instituições chinesas especializadas em planejamento ferroviário e representantes peruanos.

Até o momento, no entanto, não há obras iniciadas nem canteiros abertos no Brasil.

O traçado em análise parte da região de Ilhéus, no sul da Bahia, onde a Fiol se conecta a um futuro porto em águas profundas no Atlântico.

De lá, a ferrovia seguiria pelo oeste baiano, cruzaria o Cerrado em Goiás, se integraria à Ferrovia Norte-Sul e avançaria em direção ao Mato Grosso, principal polo produtor de grãos do país. Na sequência, o corredor passaria por Rondônia e Acre até alcançar o território peruano, atravessando a Cordilheira dos Andes rumo ao porto de Chancay, construído com capital chinês no Pacífico.

A principal motivação do projeto é logística. Atualmente, a maior parte das exportações brasileiras de soja, milho e minério sai por portos do Atlântico, enfrentando rotas longas até a Ásia. A ligação ferroviária com o Pacífico poderia reduzir o tempo de transporte, diminuir custos e aumentar a competitividade do agronegócio e da mineração no mercado internacional.

Pela dimensão, a ferrovia bioceânica estaria entre os maiores projetos de infraestrutura da América do Sul. A extensão prevista equivale a quase três vezes o tamanho da Fiol e supera projetos como a Ferrogrão. A complexidade técnica também é elevada, especialmente nos trechos que atravessam a Amazônia e a Cordilheira dos Andes, onde seriam necessários túneis, viadutos e obras de contenção em áreas de relevo acidentado.

Além dos desafios de engenharia, o projeto enfrenta entraves ambientais e sociais. O traçado cruza biomas sensíveis e áreas ocupadas por comunidades tradicionais e povos indígenas, o que exige um processo de licenciamento complexo e sujeito a revisões e judicializações.

O custo estimado é de dezenas de bilhões de reais, o que torna a viabilidade econômica um ponto central das análises em curso. Para avançar, o projeto dependerá de garantias jurídicas, definição clara do modelo de concessão e comprovação de demanda suficiente para sustentar a operação no longo prazo.

Por enquanto, a ferrovia bioceânica segue no campo dos estudos e negociações. O próximo passo será transformar as análises técnicas em projetos executivos e, posteriormente, em editais capazes de atrair investidores dispostos a assumir um empreendimento de alto custo, alto risco e grande impacto econômico e ambiental.