Os médicos estimaram que José Luis e José Armando Cevallos Herrera viveriam apenas dez anos. Os irmãos siameses, porém, superaram a previsão, chegaram aos 27 anos, ingressaram na universidade e viajaram para outro país em busca de um sonho de infância. Os dois morreram na quinta-feira (15), na Colômbia, onde realizavam um tratamento para conseguir caminhar.
Naturais de Milagro, no Equador, os jovens nasceram unidos pelo abdômen e pela região pélvica. Compartilhavam órgãos internos, incluindo o fígado e parte do intestino, além de um único par de pernas. Apesar disso, cada um possuía o próprio coração e desenvolveu seus interesses ao longo da vida.
Desde pequenos, os irmãos utilizavam uma plataforma adaptada com rodas para se locomover. Com o equipamento, conseguiam sair de casa, frequentar a escola e participar de atividades cotidianas. Anos depois, ganharam reconhecimento internacional ao compartilhar vídeos da rotina nas redes sociais, onde também falavam sobre acessibilidade e inclusão.
Previsão médica preocupou família desde o nascimento
José Luis e José Armando nasceram em 8 de setembro de 1999, na província equatoriana de Guayas. A condição dos irmãos exigiu acompanhamento médico desde os primeiros dias de vida, principalmente porque os dois compartilhavam parte dos órgãos internos.
Durante a infância, especialistas avaliaram uma cirurgia de separação. Entretanto, os riscos do procedimento preocupavam a família, já que a intervenção envolveria órgãos e estruturas utilizados pelos dois. Por isso, os pais decidiram não autorizar a operação.
O pai, Marcos Cevallos, revelou em 2014 que os médicos haviam estimado uma expectativa de vida de aproximadamente dez anos para os filhos. Na época, os jovens comemoravam o aniversário de 15 anos.
Aos 27 anos, José Luis e José Armando já haviam vivido 17 anos além daquela previsão. Nesse período, aprenderam a adaptar atividades que exigiam movimentos coordenados, como se deslocar, estudar e realizar tarefas domésticas.
Além disso, mantinham uma rotina de passeios, compromissos e encontros familiares. Os dois também gostavam de registrar momentos do cotidiano em fotografias e vídeos, que posteriormente passaram a compartilhar com seguidores.
Plataforma com rodas ajudava irmãos a se locomover
Como não conseguiam caminhar de maneira independente, José Luis e José Armando utilizavam uma pequena plataforma com rodas. O equipamento permitia que apoiassem o corpo e se movimentassem por diferentes ambientes.
Familiares e amigos também ajudavam durante alguns deslocamentos. Ao longo dos anos, os irmãos adaptaram a maneira de utilizar o dispositivo conforme suas necessidades.
Embora compartilhassem parte do corpo, cada um tinha preferências, interesses e opiniões próprias. Nas entrevistas, explicavam como organizavam as tarefas diárias e tomavam decisões sobre estudos, viagens e outros compromissos.
A experiência despertou o interesse dos jovens pela inclusão de pessoas com deficiência, assunto que influenciou diretamente a escolha profissional dos dois.
Irmãos conquistaram vagas na universidade
Em 2021, José Luis e José Armando conquistaram vagas no curso de Serviço Social da Universidade Estatal de Milagro, no Equador. A decisão surgiu do desejo de compreender melhor os direitos das pessoas com deficiência e contribuir para melhorar suas condições de vida.
Os irmãos também planejavam criar uma fundação para atender famílias que enfrentavam dificuldades semelhantes. A intenção era oferecer apoio e ampliar o acesso à assistência para pessoas com deficiência.
Durante entrevistas à imprensa equatoriana, chegaram a mencionar a possibilidade de continuar os estudos em outra área depois da graduação, incluindo Turismo.
Paralelamente, participavam de programas de televisão e compartilhavam experiências nas redes sociais. Dessa forma, mostravam como estudavam, viajavam e realizavam atividades que exigiam adaptações.
A trajetória dos jovens também chamava atenção para a importância da autonomia de pessoas com deficiência e de condições adequadas para o acesso à educação.
Viagem à Colômbia marcou nova tentativa de caminhar
Apesar das conquistas, José Luis e José Armando ainda tinham um objetivo que os acompanhava desde pequenos: conseguir ficar de pé e caminhar sem depender da plataforma com rodas.
Em abril de 2026, os irmãos deixaram o Equador e viajaram para a Colômbia, onde começaram a realizar sessões de fisioterapia. Durante o tratamento, praticavam exercícios de fortalecimento muscular, postura e equilíbrio.
Com o passar dos meses, os primeiros resultados apareceram. Os jovens passaram a divulgar vídeos dos treinamentos e compartilhar os avanços com seguidores que acompanhavam a experiência.
Em outubro, conseguiram permanecer de pé durante uma sessão de reabilitação, sustentando o próprio peso enquanto realizavam exercícios de equilíbrio.
A conquista representava um avanço em relação às dificuldades que enfrentavam desde a infância. Por isso, continuaram frequentando as sessões e registrando os resultados.
Familiares também mencionaram a possibilidade de uma cirurgia, mas não divulgaram detalhes sobre o procedimento nem uma possível data.
Entretanto, os planos mudaram quando os irmãos começaram a apresentar problemas de saúde.
Complicações começaram com episódios de vômito
Na quarta-feira (14), José Luis começou a sentir mal-estar e apresentou episódios de vômito. Inicialmente, a família suspeitou de uma infecção viral, mas procurou atendimento médico quando os sintomas pioraram.
José Armando também passou a sentir dores na região abdominal e em uma das pernas. Diante da situação, os familiares levaram os dois ao hospital.
Durante o atendimento, José Luis sofreu uma parada cardíaca e precisou de manobras de reanimação. A equipe médica conseguiu restabelecer os batimentos cardíacos, mas o estado de saúde dos irmãos continuou preocupante.
Cerca de duas horas depois, José Armando também apresentou uma emergência cardíaca. Em seguida, José Luis sofreu uma nova parada.
Os irmãos morreram na quinta-feira (15), aos 27 anos, em um hospital de Zipaquirá, município colombiano próximo a Bogotá.
Embora os relatos mencionem complicações cardíacas, as informações divulgadas inicialmente não apresentaram um laudo médico definitivo sobre a causa das mortes.
Entrevista na televisão espanhola voltou a repercutir
Em setembro, aproximadamente um mês antes da morte, José Luis e José Armando participaram do programa espanhol Y Ahora Sonsoles. Na entrevista, contaram detalhes da convivência desde a infância e falaram sobre os desafios de compartilhar o mesmo corpo.
Os jovens também abordaram a possibilidade de uma cirurgia de separação. Na ocasião, explicaram que não pretendiam realizar o procedimento, pois já haviam construído uma rotina juntos.
Durante a conversa, disseram uma frase que voltou a circular nas redes sociais após a notícia das mortes:
Nascemos juntos, morremos juntos.
Com a repercussão do caso, familiares começaram a organizar o traslado dos corpos para o Equador. Damián Cevallos, irmão dos jovens, contou à imprensa local que a família buscava ajuda financeira para custear o retorno a Milagro.
Enquanto isso, seguidores passaram a compartilhar fotografias e vídeos antigos dos irmãos, incluindo registros de viagens, entrevistas e momentos em família.
José Luis e José Armando passaram os últimos meses de vida na Colômbia, dedicados ao tratamento para melhorar a mobilidade. Poucos dias antes da morte, ainda mostravam nas redes sociais os resultados dos exercícios.
Depois de superar em 17 anos a expectativa de vida relatada pelo pai, os irmãos continuavam tentando realizar o sonho de caminhar. Nos últimos vídeos, apareciam de pé, praticando o equilíbrio que haviam buscado durante anos.






