Um padre de 38 anos, amputado das duas pernas, tinha apenas quatro meses para conseguir próteses antes que sua condição piorasse. A história emocionou internautas, provocou ofertas de ajuda e se espalhou pelas redes sociais, mas era um golpe.
O simpático padre Mateus nunca existiu. O religioso era um personagem criado por inteligência artificial para uma campanha golpista que pedia doações via Pix. E ele não era a única pessoa inventada pelos responsáveis pela fraude.
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História comovia fiéis
Nos vídeos, Padre Mateus contava ter perdido as duas pernas e que precisava urgentemente de próteses. O roteiro afirmava que havia uma janela de apenas quatro meses para obter os equipamentos antes que a musculatura das coxas fosse perdida por atrofia.
A campanha chegou às redes por meio da página “Caminhada Curta”, criada no Facebook em 18 de agosto de 2026. As publicações alcançaram milhares de visualizações e mais de mil compartilhamentos.
Além do padre, existem outros personagens criados por IA para sustentar a narrativa. Dona Lourdes era apresentada como uma senhora que auxiliava o padre em sua rotina, enquanto o adolescente Enzo aparecia como o coroinha.

Detalhe revelou fraude
A farsa começou a desmoronar em Valinhos, no interior paulista. Reginaldo Jesus Flor, de 80 anos, teve contato com a campanha e estranhou a situação apresentada, especialmente a ausência de apoio institucional da Igreja ao suposto sacerdote.
O caso chegou então ao filho dele, o jornalista e teólogo Felipe Zangari. Ao observar as imagens com mais atenção, Zangari percebeu uma das pistas mais comuns em conteúdos artificiais: os movimentos dos lábios não acompanhavam a fala de maneira natural.
Ao simular uma contribuição pelo endereço indicado pela campanha, foi possível seguir o caminho que seria percorrido pelo dinheiro e encontrar informações que não combinavam com a história apresentada aos possíveis doadores.
Pix levava a empresa
As pessoas dispostas a ajudar eram enviadas ao site “Ande com Padre Mateus”. Apesar de a campanha apresentar uma história pessoal sobre um sacerdote necessitado, o beneficiário identificado para a transferência era a Gestão Solidar Digital LTDA, sediada em Florianópolis.
Outras inconsistências começaram a aparecer durante a apuração. Dados associados à operação levavam a diferentes nomes, empresas e localidades, enquanto um telefone cadastrado por uma das companhias envolvidas correspondia a uma barbearia de Goiânia.
O nome exibido em parte dos pagamentos também levantou suspeitas. As transferências apareciam vinculadas a “Helena Farias”, mas o CPF associado aos dados pertencia a uma idosa de Goiás, sem indicação de que soubesse do uso das informações.







