Memória: de negros a orientais, a história do bairro da Liberdade

Fundado em 20 de dezembro de 1905 e conhecido pela forte influência da cultura oriental, o bairro da Liberdade também tem ligação com a cultura negra

Bairro da Liberdade, em São Paulo 07.06.98

Bairro da Liberdade, em São Paulo 07.06.98 | /Greg Salibian/Folhapress

Em 20 de dezembro de 1905 era fundado, oficialmente, o bairro da Liberdade. Contudo, a região conhecida pela forte influência da cultura oriental, sobretudo japonesa, tem sua história iniciada bem antes desta data.

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Segundo informações do Arquivo Histórico Municipal, do Departamento da Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo, o bairro da Liberdade constituiu-se onde eram as antigas terras do Cacique Caiubi, que abrigavam além da Liberdade vários outros bairros de São Paulo. Com o passar dos anos, os indígenas foram cada vez mais empurrados para as bordas da cidade e, em meados do século 16, a Câmara Municipal começou um processo de sucessivas concessões de terras na região até formar o que ficou conhecido como Distrito Sul da Sé.

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No século 19. A região da Liberdade era conhecida como Bairro da Pólvora. O nome fazia alusão à Casa da Pólvora, fundada em 1754, no largo da Pólvora. Ao contrário de hoje, naquela época, a região era considerada periférica e ligava o centro da cidade de São Paulo a Santo Amaro, que até então era outro município.

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Além da Casa da Pólvora, o bairro tinha dois outros pontos famosos: o Pelourinho e o Largo da Forca. O primeiro continha postes onde os escravizados eram castigados; enquanto o segundo era assim nomeado por abrigar uma forca utilizada para a execução de quem era condenado à pena de morte.

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A origem do nome Liberdade, aliás, tem uma de suas versões ligadas ao Largo da Forca. Segundo consta, ele passou a ser chamado assim, após um soldado negro, de nome Chaguinhas, ter liderado um levante de soldados, que reivindicava aumento de salário. Chaguinhas teria sido capturado e condenado à forca, porém a corda usada em sua execução arrebentou três vezes e as pessoas que acompanhavam o enforcamento passaram a gritar: “Liberdade”, vindo daí o nome do bairro.

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A segunda versão liga o nome Liberdade às reivindicações de abolição da escravidão.

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Capela Nossa Senhora dos Aflitos, no bairro da Liberdade – Rodrigo Capote/Folhapress

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Capela dos Aflitos
Independentemente de qual versão é a correta para o nome do bairro da Liberdade, tanto o Largo da Forca, como a presença dos escravizados na região têm ligação com um dos locais mais importantes da história do bairro: a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, ou Capela dos Aflitos, como é popularmente conhecida.

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Localizada entre a Rua Galvão Bueno e a Rua da Glória, a Capela, que existe até hoje, ficava orginalmente no centro do Cemitério dos Aflitos, que era reservado ao sepultamento de escravizados, indígenas e de condenados à morte na forca. O cemitério funcionou entre 1774 e 1858, quando foi inaugurado o Cemitério da Consolação.

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Presidida pelo ator Aílton Graça, a escola de samba Lavapés Pirata Negro é a mais antiga, ainda em atividade, de São Paulo – Reprodução/Facebook

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Cultura Negra
A presença da cultura negra no bairro da Liberdade vai além da Capela dos Aflitos. De acordo com historiadores, nos séculos 18 e 19, a região era a responsável por receber as casas dos primeiros negros alforriados.

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Além disso, já no século passado, foi na Liberdade que surgiu, em 1937, a mais antiga escola de samba, ainda em atividade, da cidade de São Paulo: a Lavapés Pirata Negro, hoje presidida pelo ator Aílton Graça.

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O bairro também foi a sede da organização Frente Negra Brasileira, que chegou a se registrar como partido político, mas foi extinto pelo Estado Novo (última fase da Era Vargas).

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Desde 2019, a Prefeitura de São Paulo estuda a criação de um Memorial para preservar a cultura negra na região, porém o projeto está parado. De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura, aguardando “a conclusão do processo de desapropriação do terreno previsto, ao lado da Capela dos Aflitos, e a imissão de posse para o lançamento do edital de concurso para selecionar e premiar um projeto de arquitetura para a construção do Memorial.”

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Especializada em livros e revistas japoneses, a Livraria Sol, no bairro da Liberdade, foi fundada em 1947 – Rafael Hupsel/Folhapress

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A chegada dos japoneses
No início do século passado, além da população negra, o bairro da Liberdade tinha alguns imigrantes portugueses e italianos, que construíram casarões na região. Mais tarde, essas casas se transformariam em pensões, abrigado os primeiros japoneses, que começaram a desembarcar no Brasil em 1912, fugindo da fome que assolava o Japão .

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Os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil se estabeleceram na Rua Conde de Sarzedas, onde se concentravam boa parte dos casarões, que continham porões, cujos aluguéis eram mais baratos. Mais tarde, após a 2ª Guerra Mundial, a presença dos japoneses se intensificou, sobretudo nas regiões das ruas Galvão Bueno e Estudantes.

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A presença dos japoneses na região fez surgir variados comércios para atender a população nipo-brasileira, entre os quais se destacam a Escola Primária Taisho, fundada em 1915, o Hotel Ueji, e, em 1946, o jornal São Paulo Shimbun. Um ano depois, em 1947, foi criada a Livraria Sol, que importava livros japoneses dos Estados Unidos e ainda encontra-se em funcionamento, com a venda, entre outros itens, de mangás.

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Fachada do Cine Niterói, na Liberdade, que atraiu comércio para os arredores – Avani Stein/Folhapress

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Cine Niterói
Em 1953, um prédio de cinco andares foi inaugurado por Yoshikazu Tanaka. No local, funcionava um salão, um hotel, um restaurante e um cinema, com 1500 lugares, batizado de Cine Niterói.

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O Cine Niterói exibia semanalmente filmes produzidos no Japão. O local, além de entretenimento para a população japonesa, contribuiu para o desenvolvimento da região, visto que após a sua inauguração, na rua Galvão Bueno, vários imigrantes passaram a instalar negócios no arredores.

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Placa de boas vindas ao bairro da Liberdade. Foto de 1984 – U. Dettmar/Folhapress

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Bairro Oriental
O bairro da Liberdade como conhecemos atualmente começou a se desenhar na década de 1970, quando foram instaladas as icônicas lanternas orientais. Os karaokês, por sua vez, passaram a fazer parte da paisagem nos anos de 1980 e 1990, quando também o bairro passou a ser conhecido como bairro oriental, visto que a presença de outras comunidades, como a chinesa e a coreana passaram a se intensificar na região.

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Hoje, além das festas típicas japonesas, como o Tanabata Matsuri (Festival das Estrelas), comemorado em julho, o bairro da Liberdade também tem outros festejos, como o Ano-novo Chinês, celebrado em fevereiro.
A cultura de outros povos também pode ser vista no comércio e restaurantes da região, além da tradicional Feira da Liberdade, onde é possível encontrar artesanato e comidas típicas de vários países orientais.

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Ano novo Chinês na Liberdade – Rivaldo Gomes/Folhapress