Quem atravessa os jardins do Parque da Independência encontra o Monumento do Ipiranga, mas nem sempre imagina o que existe sob aquela estrutura. Na superfície, o granito sustenta cavalos, líderes políticos, combatentes e alegorias de bronze. No subsolo, longe dos olhos de quem passa, ficam os túmulos de dom Pedro I e de suas duas esposas.
Criada para as comemorações do centenário da Independência, a obra não nasceu pronta. Antes da inauguração, o projeto enfrentou uma chuva de críticas, sofreu alterações e correu contra um prazo que terminou antes dos trabalhos.
Concurso que definiu o projeto
Em 1917, o governo paulista abriu uma disputa internacional para escolher a obra que marcaria os cem anos da Independência. Artistas brasileiros e estrangeiros enviaram maquetes, que chegaram ao Palácio das Indústrias para uma exposição pública.
Ao final da seleção, a comissão escolheu a proposta do escultor italiano Ettore Ximenes. O resultado, porém, dividiu opiniões. Parte dos avaliadores considerava que o desenho trazia poucas referências aos acontecimentos e personagens da história brasileira, segundo o Museu da Cidade de São Paulo.
Diante das críticas, Ximenes refez trechos da composição e acrescentou movimentos que antecederam a separação de Portugal. Além disso, lideranças políticas ligadas à emancipação ganharam espaço entre as esculturas.
Ainda assim, o tempo não foi suficiente. O monumento chegou ao dia 7 de setembro de 1922 com partes inacabadas. Mesmo nessas condições, a cerimônia do centenário marcou sua inauguração. Os trabalhos continuaram por mais quatro anos.
Bronze relembra outras lutas
Logo na face frontal aparece a cena mais conhecida. Um grande baixo-relevo reproduz “Independência ou morte!”, pintura de Pedro Américo que ajudou a formar a imagem popular do Grito do Ipiranga.
As laterais, por sua vez, ampliam essa narrativa. Um dos grupos representa a Inconfidência Mineira, de 1789. Na outra extremidade, a Revolução Pernambucana de 1817 ocupa parte da composição.
Outros painéis mostram a entrada de dom Pedro em São Paulo e o Combate de Pirajá, episódio da luta pela Independência na Bahia. Ao redor dessas cenas, aparecem José Bonifácio, Diogo Antônio Feijó, Hipólito da Costa e Joaquim Gonçalves Ledo.
No alto, uma mulher segura um estandarte e uma lança enquanto avança sobre uma biga puxada por dois cavalos. A figura representa a Liberdade e segue acompanhada por outras personagens.
Ao todo, o monumento reúne cerca de 131 peças de bronze, conforme o roteiro patrimonial da Prefeitura de São Paulo. Portanto, o conjunto vai além do gesto atribuído a dom Pedro. Suas esculturas conectam diferentes episódios usados para construir uma narrativa oficial sobre a formação do país.
Cripta surgiu décadas depois
Quando ocorreu a inauguração, ainda não havia túmulos sob as esculturas. As obras da Cripta Imperial começaram apenas em 1953, mais de três décadas depois da celebração do centenário.
No ano seguinte, os restos mortais da imperatriz Leopoldina chegaram ao espaço. Já dom Pedro I passou a ocupar a cripta em 1972, durante as comemorações dos 150 anos da Independência.
Em 1984, dona Amélia de Leuchtenberg, segunda esposa do imperador, juntou-se aos dois. Desde então, os três túmulos permanecem reunidos sob o Monumento do Ipiranga.
Mais tarde, em 2000, o Departamento do Patrimônio Histórico criou uma nova área interna e permitiu o acesso do público. O memorial, antes conhecido como Capela Imperial, adotou oficialmente o nome de Cripta Imperial em 2016.
Museu completa o conjunto da obra
A partir do monumento, o desenho dos jardins conduz o olhar até o Museu do Ipiranga. O edifício surgiu antes das esculturas. Tommaso Gaudenzio Bezzi assinou o projeto, enquanto as obras ocorreram entre 1885 e 1889.
Em 1895, o Museu Paulista começou a funcionar no prédio. Nas décadas seguintes, a instituição reforçou sua ligação com a Independência ao reunir pinturas, esculturas e objetos relacionados à história nacional.
Dentro do edifício, a escadaria e o Salão Nobre concentram parte dessa narrativa. Vasos com águas de rios brasileiros dividem o ambiente com obras históricas. Entre elas está “Independência ou morte!”, tela que Pedro Américo concluiu em 1888.
Do lado de fora, os jardins de inspiração francesa ligam o museu ao monumento e às demais áreas do parque. Embora cada parte tenha surgido em uma época, todas acabaram integradas ao mesmo percurso.
Mais de um século depois, o conjunto continua recebendo moradores e turistas em busca de passeio, lazer e história. Entre o museu, os jardins, o bronze e a própria cripta, o visitante encontra não apenas lembranças de 1822, mas as escolhas que transformaram a Independência em parte da memória nacional.










