Nove carrinhos de supermercado foram afundados de propósito em um rio europeu e viraram casas para cavalos-marinhos

Estruturas foram instaladas em três pontos da baía da Trafaria depois que pesquisadores descobriram os animais vivendo entre resíduos submersos

Montagem reúne mergulhadoras durante uma ação na frente ribeirinha de Almada e um cavalo-marinho encontrado nas águas da Trafaria (Fotos: Reprodução/Projeto CavALMar/Sylvie Dias)

Montagem reúne mergulhadoras durante uma ação na frente ribeirinha de Almada e um cavalo-marinho encontrado nas águas da Trafaria (Fotos: Reprodução/Projeto CavALMar/Sylvie Dias)

Nove estruturas foram instaladas em três pontos da baía da Trafaria após pesquisadores descobrirem animais vivendo entre resíduos no fundo do Tejo.

Continua após a publicidade

Debaixo das águas da baía da Trafaria, em Portugal, nove carrinhos de supermercado deixaram para trás corredores, compras e filas de caixa. Instalados no fundo do rio Tejo, eles agora oferecem pontos de abrigo e fixação para uma população de cavalos-marinhos que vive perto da margem de Almada.

Os carrinhos não chegaram ao local por um descarte irregular recente. Pesquisadores e mergulhadores colocaram as estruturas de forma planejada, divididas em três áreas da baía, com três unidades em cada uma. A iniciativa tenta recuperar parte de um ambiente que perdeu elementos naturais usados pelos animais para descansar, alimentar-se e resistir ao movimento da água.

A escolha de um objeto tão improvável nasceu daquilo que os mergulhadores encontraram durante anos de observação. Os cavalos-marinhos já se prendiam a carrinhos abandonados e a outros resíduos submersos. Em vez de ignorar esse comportamento, os pesquisadores transformaram a descoberta em uma experiência de restauração ambiental.

Continua após a publicidade

Descoberta começou em 2019

A história ganhou força em 2019, quando o mergulhador Mário Rolim alertou o pesquisador Gonçalo Silva sobre a presença de cavalos-marinhos na Trafaria. Logo em um dos primeiros mergulhos, a equipe avistou entre dez e 12 animais, número suficiente para ampliar a investigação naquela parte do estuário.

Desde então, especialistas passaram a estudar os esconderijos, hábitos e ameaças enfrentadas pela população. O trabalho avançou por meio do projeto CavALMar, parceria entre o centro de pesquisa MARE, o ISPA e a Câmara Municipal de Almada.

Embora ainda seja difícil calcular quantos exemplares vivem na baía, os registros acumulados indicam uma população significativa. Os mergulhos também revelaram a presença das duas espécies encontradas em Portugal continental: o cavalo-marinho-comum e o cavalo-marinho-de-focinho-comprido.

Continua após a publicidade

Peixes da espécie Syngnathus acus, parentes próximos dos cavalos-marinhos, também aparecem com frequência. Juntos, esses animais formam uma comunidade que depende de vegetação, objetos e outras superfícies para permanecer presa enquanto a correnteza atravessa o estuário.

Carrinhos viraram abrigos

A cauda preênsil permite que o cavalo-marinho se agarre a plantas aquáticas e permaneça praticamente imóvel. Esse apoio reduz o esforço para enfrentar a água em movimento e também facilita a espera por pequenos organismos usados como alimento.

Entretanto, a degradação do habitat reduziu parte dessas superfícies naturais. Durante as observações, os pesquisadores perceberam que os animais haviam se adaptado ao cenário alterado e passaram a utilizar estruturas artificiais encontradas no fundo do rio, inclusive carrinhos de supermercado.

Continua após a publicidade

A constatação mudou o destino dos objetos. Em vez de enxergá-los apenas como resíduos, a equipe avaliou que o formato metálico poderia oferecer pontos de fixação. Assim, os nove carrinhos foram preparados e instalados em locais escolhidos pelos responsáveis pela intervenção.

A ação integra a D-Evolução, iniciativa da WWF Portugal voltada à recuperação de ecossistemas degradados. Além da organização ambiental, o trabalho reúne a MARDIVE, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a Câmara de Almada e outras entidades.

Mergulhos acompanham resultado

A presença dos carrinhos não encerra o trabalho. Mergulhadores da MARDIVE retornam à baía para verificar a conservação das estruturas e descobrir se os cavalos-marinhos começaram a utilizá-las com frequência. A equipe já realizou um segundo mergulho de monitoramento e programou uma nova inspeção.

Continua após a publicidade

Os registros servirão para avaliar se os abrigos realmente ajudam a população local. Caso os animais adotem as estruturas, o projeto poderá indicar novos caminhos para restaurar áreas onde a vegetação e outros suportes naturais desapareceram.

Ao mesmo tempo, a experiência não transforma o lixo submerso em solução ambiental. Os carrinhos foram instalados deliberadamente e acompanhados por especialistas, situação diferente do abandono de resíduos em rios e mares. A ideia nasceu justamente da necessidade de responder aos danos já provocados naquele habitat.

No fundo do Tejo, os antigos carrinhos permanecem imóveis enquanto a pesquisa avança. Aquilo que começou com a descoberta de alguns cavalos-marinhos agarrados ao metal tornou-se uma tentativa de devolver abrigo a uma população que aprendeu a sobreviver entre as marcas deixadas pela ocupação humana.