Novo ‘O Exorcista’ tenta quebrar maldição de 53 anos: por que Hollywood nunca conseguiu repetir o filme de 1973

Com Scarlett Johansson como protagonista e direção de Mike Flanagan, novo filme chega em 2027 após décadas de continuações conturbadas, recomeços e tentativas de escapar da sombra de um dos maiores fenômenos do terror

Scarlett Johansson assume o protagonismo do novo O Exorcista, que chega aos cinemas em 2027 com a missão de encontrar uma identidade própria 53 anos após o fenômeno estrelado por Linda Blair (Foto: Divulgação – Universal Pictures / Warner Bros.)

Scarlett Johansson assume o protagonismo do novo O Exorcista, que chega aos cinemas em 2027 com a missão de encontrar uma identidade própria 53 anos após o fenômeno estrelado por Linda Blair (Foto: Divulgação – Universal Pictures / Warner Bros.)

Filas que dobravam quarteirões, espectadores que abandonavam sessões e ambulâncias que chegaram a ser chamadas para atender quem não suportava ver até o final cenas inéditas, nunca antes reproduzidas. Em 1973, O Exorcista fez algo raro: deixou de ser apenas mais um filme de terror clichê e virou um acontecimento. Um pouco mais de meio século depois, Hollywood ainda convive com o “fantasma” daquele sucesso.

Continua após a publicidade

Já nos dias atuais, Scarlett Johansson e Mike Flanagan entram nessa trajetória carregando uma herança nada leve. The Exorcist: Martyrs, previsto para março de 2027, ganhou seu primeiro trailer sexta-feira (09) e abre outra tentativa de renovar a franquia que passou 53 anos entre continuações controversas, milhões de dólares e algumas possessões que Hollywood provavelmente preferia deixar de canto.

Flanagan, responsável por alguns sucessos recentes do gênero, como A Maldição da Residência Hill, Missa da Meia-Noite e Doutor Sono, escolheu não recolher os cacos do falho O Exorcista: O Devoto, lançado em 2023. O diretor seguirá por uma trama inédita e terá diante de si um desafio quase impossível: fazer o público olhar para a nova produção sem ter que compará-la com o original de 1973.

Quando o gênero explodiu

William Friedkin não tratou O Exorcista apenas como uma narrativa de possessão demoníaca. Baseado no romance de William Peter Blatty, o diretor acompanhou a transformação de Regan MacNeil, vivida por Linda Blair, enquanto sua mãe, Chris, interpretada por Ellen Burstyn, procura respostas para o comportamento cada vez mais perturbador da filha.

Continua após a publicidade

Antes de colocar padres católicos diante da garota, Friedkin passa por médicos, exames e diferentes tentativas de encontrar uma explicação racional para o que ocorria. O horror cresce justamente no choque entre o cotidiano e aquilo que a razão não consegue alcançar. Quando o sobrenatural finalmente domina a trama, o espectador passou tempo suficiente naquele ambiente para sentir que algo estranho invadiu um espaço perfeitamente reconhecível.

A resposta do público veio em proporções que poucos títulos do gênero haviam alcançado. Produzido por cerca de US$ 11 milhões, O Exorcista acumula aproximadamente US$ 430,8 milhões em bilheteria mundial, considerando lançamentos e relançamentos registrados pelo Box Office Mojo.

Além de cinemas lotados, o longa atravessou uma fronteira que parecia distante para o terror. A Academia concedeu dez indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, direção para Friedkin, atriz para Burstyn e atriz coadjuvante para Blair. A produção venceu por roteiro adaptado e som e se tornou a primeira película do gênero indicada à principal categoria da premiação.

Continua após a publicidade

Pessoas saindo das sessões passando mal

Mas foi do lado de fora das salas que O Exorcista começou a ganhar contornos de fenômeno pop. A experiência não terminava após o fim dos créditos ou quando as luzes acendiam.

Relatos publicados durante seu lançamento registraram espectadores desmaiando, vomitando ou simplesmente abandonando as sessões. As reações ganharam tamanha repercussão que médicos, religiosos e jornalistas entraram no meio da discussão. De repente, uma obra sobre possessão demoníaca ocupava conversas além das páginas dedicadas ao cinema.

Com o passar das décadas, fatos documentados acabaram dividindo espaço com exageros, memórias de época e lendas urbanas. Nem todo relato assustador atribuído à produção merece ser tratado, obviamente, como verdade absoluta. Entretanto, alguns episódios nasceram de situações bastante concretas.

Continua após a publicidade

Ellen Burstyn, por exemplo, machucou as costas durante a gravação de uma cena em que Chris é violentamente puxada para trás. A atriz contou posteriormente que havia alertado sobre a força empregada pelo equipamento. Na tomada seguinte, sofreu uma queda brusca e se lesionou. A reação de dor registrada pela câmera era real e permaneceu no longa.

Friedkin também adotava métodos controversos que, hoje em dia, não passariam despercebidos em um set de filmagens. O cineasta relatou que disparava uma arma fora do enquadramento para arrancar sustos genuínos dos atores e chegou a dar um tapa no padre William O’Malley antes de uma tomada emocional. Ele queria espontaneidade. Delicadeza, aparentemente, não fazia parte do método.

Quando nasceu a famosa ‘maldição’

Enquanto a obra assustava o público, os próprios bastidores começaram a produzir episódios dignos de terror genuíno. Um incêndio atingiu o cenário da casa dos MacNeil e atrasou as filmagens. Mortes de pessoas ligadas direta ou indiretamente ao projeto também alimentaram a ideia de que O Exorcista carregava uma “maldição” própria.

Continua após a publicidade

Nunca surgiu qualquer evidência de uma causa sobrenatural, evidentemente. Ainda assim, a coincidência entre acidentes e mortes em torno de uma trama sobre possessão criou terreno fértil para uma lenda que atravessaria décadas. O marketing não precisava fazer muito esforço: o próprio imaginário popular tratou de completar o serviço.

Até o frio visto na tela tinha uma explicação bastante terrena. Para conseguir o vapor que saía da boca dos personagens dentro do quarto de Regan, a equipe refrigerava o cenário a temperaturas extremamente baixas. Irônico ou não, enquanto a plateia tremia de medo, Linda Blair e os demais atores tinham motivos bem mais concretos para bater os dentes.

A essa altura, O Exorcista conseguia reunir ingredientes suficientes para se tornar um fenômeno: bilheteria, prestígio, controvérsia, bastidores turbulentos e uma audiência que continuava falando sobre a obra muitos anos depois de sua estreia. Restava descobrir o que aconteceria quando Hollywood tentasse transformar aquele êxito em franquia.

Continua após a publicidade

O pesadelo das continuações

Em 1977, O Exorcista II: O Herege colocou Linda Blair novamente no papel de Regan. John Boorman assumiu a direção, Richard Burton entrou para o elenco e a narrativa ampliou a mitologia em torno do demônio Pazuzu.

A recepção, neste caso, tomou um rumo bem diferente daquele experimentado pelo original. Público e crítica reagiram duramente à continuação, e a repercussão levou até a mudanças na montagem pouco depois da estreia. A tentativa buscava aproximar o longa daquilo que os espectadores imaginavam encontrar em uma sequência de O Exorcista.

Depois de enfrentar Pazuzu, a franquia descobriu um adversário aparentemente mais persistente: a comparação com 1973.

Continua após a publicidade

A partir dali, qualquer escolha escondia uma armadilha. Repetir Regan, padres e possessões corria o risco de produzir uma cópia pálida. Distanciar-se demais levantava uma pergunta igualmente incômoda: afinal, o que ainda fazia daquele filme digno de ser O Exorcista?

Filme se distanciou da fórmula

William Peter Blatty preferiu procurar outra resposta. Autor do romance original e roteirista do primeiro longa, voltou à franquia em 1990 para escrever e dirigir O Exorcista III.

Inspirado em seu livro Legion, o filme acompanha uma investigação conduzida pelo tenente William Kinderman, agora interpretado por George C. Scott. Blatty deixou de lado a repetição direta de Regan e construiu um thriller policial sombrio, ainda ligado aos eventos do clássico.

Continua após a publicidade

Havia apenas um detalhe capaz de deixar qualquer executivo de estúdio inquieto: o terceiro O Exorcista praticamente não tinha cenas de exorcismo.

O estúdio pressionou por uma ligação mais evidente com a marca. Com isso, o projeto passou por refilmagens, ganhou um novo personagem e recebeu uma sequência de exorcismo no clímax. As alterações acrescentaram cerca de US$ 4 milhões à pós-produção.

Mesmo sem provocar o terremoto comercial de 1973, O Exorcista III encontrou uma segunda vida. Ao longo dos anos, fãs do terror revisitaram o título e ajudaram a consolidar seu status cult. A trajetória deixou uma ironia ainda mais interessante: uma das continuações mais respeitadas foi justamente aquela que menos tentou imitar o primeiro filme.

Continua após a publicidade

US$ 400 milhões na mesa

A franquia continuou caminhando por terrenos tortuosos. Nesse meio-tempo, vieram prelúdios, versões diferentes de uma mesma narrativa e novas tentativas de explorar o passado de seus personagens. Décadas depois, Hollywood decidiu aumentar consideravelmente a aposta.

Em 2021, Universal e Peacock fecharam um acordo de cerca de US$ 400 milhões envolvendo os direitos da franquia, enquanto os planos apontavam para uma nova trilogia. O Exorcista: O Devoto, dirigido por David Gordon Green, abriria essa nova fase.

Desta vez, a estratégia buscava uma conexão direta com 1973. A produção deixou parte das continuações de lado e trouxe Ellen Burstyn novamente como Chris MacNeil, cinco décadas depois. Era passado e presente dividindo a mesma tela, embalados pela promessa de inaugurar uma nova era para a saga.

Continua após a publicidade

No papel, parecia uma combinação poderosa. Na prática, o demônio voltou, mas o fenômeno não.

O Devoto arrecadou cerca de US$ 136 milhões mundialmente, diante de um orçamento estimado em US$ 30 milhões. Isoladamente, a cifra não representaria um desastre para um terror desse porte. O contexto, entretanto, saiu com saldo ainda mais negativo. A aposta sobre a propriedade foi dada como certa, os planos previam novos capítulos e a recepção crítica ficou muito abaixo do entusiasmo que cercava o projeto.

A sequência The Exorcist: Deceiver chegou a integrar os planos, mas a estratégia acabou desmontada.

Continua após a publicidade

Com Flanagan na direção

É nesse cenário que Mike Flanagan recebe as chaves da casa.

Em vez de tentar remendar O Devoto, o cineasta ganhou espaço para abrir outra porta. The Exorcist: Martyrs seguirá um enredo próprio, sem a obrigação de carregar adiante os eventos do longa de 2023.

Scarlett Johansson assume o protagonismo, enquanto Chiwetel Ejiofor, Laurence Fishburne, John Leguizamo, Diane Lane, Rahul Kohli, Sasha Calle e Jacobi Jupe integram o elenco. O enredo aproxima uma investigação criminal de fenômenos que avançam para o sobrenatural, embora boa parte dos detalhes continue protegida pelo estúdio.

Continua após a publicidade

O primeiro teaser reforça essa escolha. Em vez de despejar possessões, referências e nostalgia sobre o público, a prévia trabalha com imagens religiosas, violência, investigação e uma ameaça ainda pouco definida. Flanagan parece interessado primeiro em criar inquietação. Os demônios podem esperar alguns minutos.

Flanagan parece ter entendido a dimensão dessa herança. Depois de cinco décadas de retornos, possessões e investidas para reencontrar a fórmula original, talvez o melhor caminho seja justamente parar de persegui-la. Martyrs não precisa recriar o choque meteórico de 1973. Mas precisa encontrar uma identidade própria e independente para continuar assombrando novas gerações.

 O novo O Exorcista tem estreia mundial marcada para 12 de março de 2027. 

Continua após a publicidade

Jean Lindemute