O papel do silêncio feminino na literatura: autoras discutem carreira, dor e escrita na Bienal

Atriz, defensora pública e diplomata mostram na Bienal como carreira, silêncio e experiências pessoais atravessam a literatura

Debate Entre palavras e silêncios aproximou literatura, profissão e experiências femininas em conversa acompanhada pelo público da Bienal (Foto: Helena Merencio/Gazeta de São Paulo)

Debate Entre palavras e silêncios aproximou literatura, profissão e experiências femininas em conversa acompanhada pelo público da Bienal (Foto: Helena Merencio/Gazeta de São Paulo)

Atrizes, diplomatas, defensoras públicas, cada vez mais mulheres de diferentes bolhas sociais encontram no mesmo ponto em comum um lugar de arte e empreendimento: a literatura. E dessa forma, dialogam com outras mulheres, que podem enxergar por entre os capítulos de seus livros um espelho de si mesmas.

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Foi com esse pensamento em foco que a Skeelo trouxe em seu stand as autoras Aline Bei, Mariana Carrara e Mariana Lobato Botter para uma mesa-redonda conjunta sob tema “Entre palavras e silêncios”, mediada por Tatiany Leite, jornalista, na última segunda (7/9) dentro da Bienal do Livro de São Paulo 2026.

Conversas sobre feridas que precisam ser escrutinadas para sararem, qual o papel da literatura feminina em tocar nestes machucados e dar luz à diferentes tabus sociais foram pouco a pouco conectadas com debates sobre o papel do silêncio nessas narrativas.

Aline Bei é conhecida por sua prosa envolvente e sua escrita é marcada por uma espécie de “mimetização” do fluxo de pensamento. Obras como “O Peso do Pássaro Morto” e “Pequena Coreografia de Adeus” encabeçam a carreira, enquanto “Uma Delicada Coleção de Ausências” é seu trabalho mais recente, passeando entre as relações humanas e a investigação do silêncio interno.

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Já Mariana Salomão Carrara tem como característica marcante abordar a solidão e as diversas tragédias cotidianas com a poesia que só o lirismo pode trazer. Seu último livro é o “Cláudia Vera Feliz Natal”, onde a experiência jurídica de Carrara se une à ficção para contar ao leitor a história de uma jovem juíza no interior do Mato Grosso.

Mariana Lobato Botter teve seu romance de estreia, “Pitangas Verdes”, como vencedor do Concurso Literário-Vila Labrador. A obra aborda o processo terapêutico de uma filha enlutada ao limpar a casa da mãe falecida. É através desse momento de faxina que a autora costura reflexões sobre memórias, abandono e a idealização no imagético popular da maternidade.

Após a finalização do painel, as autoras concederam entrevista à Gazeta de São Paulo para compartilhar um pouco de seus processos criativos, silêncios próprios e jornada de trabalho.

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Aline Bei e o teatro como aliado da escrita

O processo criativo da Aline autora tem suas semelhanças com o da Aline atriz. Formada inicialmente em Artes Cênicas, Bei traz essa bagagem em sua literatura principalmente em formato de composição dos seus personagens.

“Eu sinto que é a força do meu texto. Eu persigo a história por essas vozes dos personagens”, disse em entrevista.

Ela continuou, explicando de que formas o teatro e a escrita se encaixam na sua linha criativa: “A folha funciona como palco e a palavra como corpo. Desse modo, eu vou conduzindo o ritmo da minha narrativa, que acaba reverberando muito a minha experiência teatral”.

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Além disso, Aline falou das narrativas que inclui em suas obras e de que forma lidar com o silêncio interno de suas personagens a afeta como autora.

“Eu não escrevo por mim. Eu escrevo por uma necessidade artística mesmo. Acho que é claro que esse processo vai me conduzir a um prazer que pode me revelar muito a respeito da minha própria pessoa, mas não é isso que guia o meu gesto”.

Quando perguntada se esse processo funciona como, em uma metáfora, um alimento para ela como artista, a escritora respondeu “É exatamente isso”.

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A união da justiça com a literatura de Mariana Carrara

“Eles [lei e escrita] têm uma relação muito forte entre si. Eu entendo que o fazer literário, e a leitura também, não só a escrita, me ajudam nesse treinamento de acessar o outro o tempo todo.”, relatou.

Carrara é defensora pública e atua na área cível e de família no Estado de São Paulo. Assim, entrar em contato direto com os conflitos humanos, e muitas vezes, femininos; internos e externos também é comum na rotina da escritora. 

Além disso, Carrara diz que o cargo na área jurídica tem peso na sua forma de enxergar a vida.

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“A Defensoria Pública molda minha visão de mundo. Acho que não tenho como escapar disso, mesmo que a maioria dos meus livros não tenha relação com o meu trabalho”.

Prosseguiu, explicando mais a fundo como ser defensora se encontra com o trabalho na literatura: “Eu sei o que eu sei sobre o Brasil a partir da Defensoria, então com certeza isso vai estar lá trazendo pra mim o caráter da nossa nação”, continuou, durante entrevista.

Para Mariana, o lado jurídico de sua carreira profissional se torna um pouco mais fácil com o tato e sensibilidade aprendidos na literatura.

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“O acesso ao outro tá facilitado também pela minha prática literária. Pra eu levar as histórias pro judiciário. É também uma sensibilidade você pensar como os fatos se deram, de como essa mulher, por exemplo, está voltando com um homem que a gente ajudou a separar, que teve violência. Por quê ela faz isso? Existe uma compreensão toda. É uma história”.

No último trabalho de Mariana, “Cláudia Vera Feliz Natal”, suas duas profissões se encontram e a autora traz uma reflexão sobre as relações humanas e as contradições do jurídico.

Mariana Lobato Botter também traz bagagem diferenciada 

Mari Botter é diplomata e em seu romance de estreia “Pitangas Verdes”, a autora traz para debate vulnerabilidade e luto sob uma ótica sensível e delicada. Para ela, tanto a literatura quanto a diplomacia têm como pilar conjunto a empatia, o olhar compreensivo ao outro.

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“A diplomacia e a literatura têm em comum a questão da empatia. O diplomata precisa olhar para a realidade do outro para poder negociar, a gente precisa entender a condição de um país, a condição do povo brasileiro no exterior quando a gente está trabalhando”, disse em entrevista.

Ela complementa que a literatura age da mesma maneira: “A literatura é uma forma de você olhar para o outro e, de alguma forma, retratar aquilo que você vê no mundo. É um olhar atento que você precisa ter”.

Além de escritora e diplomata, Mariana é mãe de duas crianças atípicas, isto é, dentro do espectro neurodivergente, e contou à Gazeta como faz para equilibrar todas as suas jornadas.

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“Por ser mãe atípica e por ter um outro trabalho além da escrita, eu tenho que arrumar brechas na minha vida para escrever. E eu costumo fazer isso logo cedo.”

Ela aproveita a rotina de sua esposa atleta para encaixar o seu próprio trabalho com literatura em seu dia a dia: “Ela acorda às 5h da manhã para correr e eu acordo às 5h da manhã para sentar na frente do computador e escrever todo dia um pouquinho”.