A China está acelerando a automação de sua indústria enquanto enfrenta uma mudança demográfica que reduz a disponibilidade de trabalhadores.
O país já tinha 2,027 milhões de robôs industriais em operação nas fábricas em 2024, segundo a Federação Internacional de Robótica (IFR), e instalou outros 295 mil naquele ano, o equivalente a 54% de todas as novas instalações no mundo.
A expansão ocorre ao mesmo tempo em que a população chinesa envelhece. Dados oficiais mostram que 23% dos habitantes tinham 60 anos ou mais em 2025, enquanto 15,9% estavam na faixa de 65 anos ou mais.
O avanço da robótica, portanto, tem dois efeitos estratégicos para Pequim: aumentar a produtividade da indústria e preparar o país para um cenário em que haverá proporcionalmente menos pessoas em idade de trabalhar.
China já concentra mais de 2 milhões de robôs
A China possui o maior estoque de robôs industriais em funcionamento no mundo. De acordo com a IFR, o país encerrou 2024 com 2.027.000 máquinas em operação.
O número praticamente dobrou em apenas três anos. Em 2021, o estoque chinês havia ultrapassado pela primeira vez a marca de 1 milhão de robôs.
Em 2024, foram instalados outros 295.000 robôs industriais no país, alta de 7% em relação ao ano anterior. O volume representou 54% de todas as instalações realizadas no mundo naquele ano.
A indústria chinesa também vem ampliando a participação de fabricantes nacionais. Em 2024, empresas chinesas responderam por 57% das vendas de robôs industriais no próprio mercado, segundo a IFR.
Produção de robôs continua crescendo em 2026
A expansão não ficou restrita aos números de 2024.
Dados divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas da China mostram que a produção de robôs industriais cresceu 30,2% em julho de 2026 na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
O resultado veio acompanhado de crescimento em outros equipamentos ligados à automação. A produção de redutores para robôs, por exemplo, avançou 22,7% no mesmo período.
O movimento mostra que a robótica deixou de ser apenas uma aposta de longo prazo e passou a fazer parte da expansão da indústria de alta tecnologia chinesa.
Envelhecimento aumenta pressão sobre as fábricas
Enquanto a produção de robôs cresce, a população chinesa passa por uma transformação demográfica.
Segundo os dados oficiais mais recentes, 323,38 milhões de pessoas tinham 60 anos ou mais no fim de 2025, o equivalente a 23% da população.
A parcela entre 16 e 59 anos, considerada a principal faixa da população em idade ativa, correspondia a 60,6% dos habitantes.
A tendência deve se intensificar. Uma estimativa divulgada por autoridades chinesas aponta que, por volta de 2035, o país terá mais de 400 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, representando mais de 30% da população.
Para a indústria, o cenário cria pressão para elevar a produtividade sem depender exclusivamente do aumento da força de trabalho.
Mais de 114 milhões trabalham em empresas industriais
A escala da indústria chinesa ajuda a dimensionar o impacto potencial da automação.
O quinto censo econômico nacional da China registrou 114,289 milhões de pessoas empregadas em empresas industriais em 2023.
O levantamento considera trabalhadores de empresas do setor industrial e não corresponde exatamente ao total de empregados exclusivamente na manufatura.
O mesmo levantamento apontou que a indústria chinesa tinha 4,236 milhões de empresas industriais no fim de 2023.
A automação pode reduzir a necessidade de trabalhadores em determinadas atividades repetitivas, mas também aumenta a procura por profissionais capazes de programar, operar, supervisionar e fazer a manutenção das máquinas.
Robôs e inteligência artificial entram na mesma estratégia
A próxima etapa da automação chinesa envolve combinar robótica com inteligência artificial.
A ideia é fazer com que as máquinas deixem de executar apenas movimentos previamente programados e passem a interpretar informações do ambiente, identificar objetos e adaptar suas ações a diferentes situações.
A Federação Internacional de Robótica afirma que o plano chinês para 2026 a 2030 coloca a robótica no centro da modernização do sistema industrial, com maior integração entre inteligência artificial e máquinas.
China também precisa formar novos profissionais
A expansão da automação aumenta a necessidade de trabalhadores especializados em tecnologia.
O governo chinês estabeleceu uma política para ampliar a formação profissional e prevê treinamento subsidiado de mais de 30 milhões de pessoas até 2027 em áreas que incluem manufatura moderna, economia digital e setores de alta tecnologia.
A estratégia busca preparar trabalhadores para funções que exigem conhecimentos técnicos mais avançados e, ao mesmo tempo, atender à demanda das empresas por mão de obra qualificada.
Automação pode resolver um problema e criar outro
A substituição de determinadas tarefas por máquinas pode ajudar a indústria a enfrentar a redução da força de trabalho, mas também levanta dúvidas sobre o futuro de milhões de empregos.
Atividades repetitivas e previsíveis estão entre as mais suscetíveis à automação. Por outro lado, a expansão da robótica cria novas funções relacionadas à programação, engenharia, manutenção, análise de dados e desenvolvimento de sistemas.
O impacto final dependerá da velocidade com que as empresas adotarem as novas tecnologias e da capacidade de treinamento dos trabalhadores.
Disputa com os Estados Unidos
A corrida pela automação também faz parte da competição tecnológica entre China e Estados Unidos.
A China possui uma vantagem na fabricação em escala e na cadeia de fornecedores necessários para construir robôs. Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm forte presença no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial e software.
A combinação dessas duas áreas, máquinas e inteligência artificial, é apontada como uma das próximas fronteiras da indústria.
Para Pequim, a expansão da robótica também representa uma tentativa de manter a competitividade de sua enorme base industrial em um momento de transformação demográfica.
A questão central é se as máquinas conseguirão compensar a redução da força de trabalho sem provocar uma perda significativa de empregos.
A resposta dependerá não apenas da velocidade da automação, mas também de como a economia chinesa conseguirá absorver os trabalhadores deslocados pelas novas tecnologias.
