Havia um momento em setembro em que um simples saquinho de plástico cheio de doces parecia um verdadeiro tesouro.
Bastava alguém avisar que estavam distribuindo Cosme e Damião para a criançada começar a se organizar. Crianças saíam de casa, percorriam as ruas, batiam de porta em porta e esperavam ansiosamente pela recompensa.
E havia uma parte especialmente divertida: ninguém sabia exatamente o que encontraria dentro do saquinho.
Podia ter bala, pirulito, chiclete, maria-mole, paçoca, pé de moleque, cocada e uma infinidade de outras guloseimas. Cada pacote tinha uma combinação diferente, dependendo de quem o preparava e da região.
O saquinho também guardava algumas das figuras mais memoráveis da infância.
O guarda-chuva de chocolate e o coração de abóbora
Entre os doces mais lembrados está o guarda-chuva de chocolate, pequeno, colorido e quase sempre mais divertido pela embalagem do que pelo tamanho.
Outro clássico era o doce de abóbora em formato de coração. Aquele quadradinho alaranjado, muitas vezes envolvido em plástico, fazia parte do imaginário de quem cresceu recebendo os famosos saquinhos.
Também apareciam maria-mole, cocada, doce de leite, doce de banana pingo de leite, suspiro, paçoca, pé de moleque, balas, pirulitos, confeitos, jujubas e chicletes.
A variedade mudava bastante. Pesquisas sobre a tradição mostram que cada família podia montar os pacotes à sua maneira, embora alguns doces tenham atravessado gerações como verdadeiros clássicos.
E existia uma espécie de matemática infantil. Depois de receber os saquinhos, vinha a contagem. Quem ganhou mais? Qual tinha chocolate? Quem recebeu o doce mais raro? O que dava para trocar?
Um doce aparentemente simples podia virar moeda de troca entre amigos.
A corrida pelos doces
O mais marcante, porém, talvez nem estivesse dentro do saquinho. Estava na correria para conseguir um.
Durante décadas, o 27 de setembro foi marcado em diferentes lugares do Brasil por crianças procurando as casas que distribuíam doces. Há relatos de famílias que preparavam centenas de saquinhos e passavam horas entregando as guloseimas.
Era uma experiência coletiva. Crianças encontravam outras crianças na rua, comparavam os pacotes e voltavam para casa com as mãos cheias.
Hoje, para muita gente, lembrar da data é lembrar também de uma infância em que uma sacolinha transparente conseguia provocar uma felicidade enorme.
Mas por que Cosme e Damião dão doces?
A tradição brasileira tem uma história que mistura catolicismo, cultura popular e religiões de matriz africana.
Cosme e Damião foram irmãos gêmeos que, segundo a tradição cristã, viveram no século 3 e exerceram a medicina. Os dois são associados à proteção dos enfermos e, na devoção popular, também às crianças.
A distribuição de doces, entretanto, não faz parte originalmente da história cristã dos santos. No Brasil, a prática ganhou força a partir do sincretismo religioso, especialmente da associação dos irmãos com Ibeji, ligado à infância e à dualidade nas tradições de matriz africana.
É nesse encontro de tradições que surge uma das imagens mais populares do 27 de setembro: adultos preparando sacos de doces para entregar às crianças.
A data também possui diferenças conforme a tradição religiosa. No calendário católico, Cosme e Damião são celebrados em 26 de setembro, enquanto a distribuição de doces é especialmente associada ao dia 27 de setembro nas tradições afro-brasileiras e na cultura popular.
No fim das contas, para quem viveu essa infância, talvez a lembrança mais forte seja menos religiosa e mais afetiva.
Era o barulho do plástico sendo aberto, a surpresa ao descobrir o que havia dentro, a comparação com o saquinho do amigo e a sensação de que 27 de setembro era um dia em que a rua inteira parecia ficar um pouco mais doce.






