Por que europeus comiam múmias egípcias? História revela erro de tradução e uma verdade ainda mais chocante

A afirmação é falsa mas não pelo motivo que você pensa; o consumo de múmias existiu, apenas não foi predominante na era vitoriana

Sárcofago de múmia/ Mark-Cartwright-_-World-History-Encyclopedia.

Sárcofago de múmia/ Mark-Cartwright-_-World-History-Encyclopedia.

Existe uma crença popular de que as múmias egípcias são raras hoje em dia porque os europeus teriam “comido” todas elas durante a Era Vitoriana (século XIX), mas não é bem assim.

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Caso você tenha suspirado de alívio pensando “ufa, ainda bem que ninguém comeu múmia!”, sinto em lhe informar que a história é bem mais complexa (e bizarra) do que a maioria pensa.

As múmias foram consumidas sim, mas como explica o professor de história João Pedro Rangel Diniz, do perfil @operacaobarbarussa, o auge dessa prática nem aconteceu na Era Vitoriana, mas muito antes, por volta do século XVI.

Além disso, a origem de toda essa história começou com uma confusão linguística e um gigantesco “telefone sem fio” histórico.

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Tudo começou com uma confusão de tradução

Para entender como a humanidade começou a consumir corpos mumificados, precisamos voltar ao século X, na Pérsia (atual Irã).

Naquela época, o famoso médico e polímata Rhazes (Abu Bakr al-Razi) começou a usar a palavra múmia (derivada de mum, termo persa para cera/viscosidade) para se referir ao betume.

O betume é uma substância hidrocarbonada (semelhante ao asfalto natural) utilizada desde a Antiguidade para construção e impermeabilização; tratamentos médicos, por ser mole quando aquecido e endurecer ao esfriar, o betume era usado para imobilizar ossos quebrados e cobrir feridas na pele; e uso interno, onde médicos greco-romanos e árabes prescreviam pequenas doses de betume (muitas vezes diluído em vinho) para tratar desde tosses e disenteria até cataratas e dores de dente. 

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Claro que esses “tratamentos” não eram nada efetivos, de qualquer forma, com o tempo, a palavra múmia passou a designar especificamente esse betume medicinal.

Então como o “betume” virou “defunto egípcio”?

Na Idade Média, quando os europeus tiveram contato com as múmias do Egito, notaram que os corpos estavam cobertos por uma substância escura e viscosa (usada no processo de embalsamamento). Eles assumiram erradamente que aquilo era o famoso betume (a tal múmia medicinal).

Como a oferta de betume natural estava diminuindo no mercado e a demanda por “remédios milagrosos” era alta, a substância escura raspada dos cadáveres egípcios passou a ser vendida como substituto.

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Por volta do século XII, o telefone sem fio se consolidou: a palavra múmia já não significava apenas o betume natural, mas o próprio cadáver embalsamado e sua carne.

“Remédio de Múmia” ficou famoso

As pessoas começaram a ingerir pó de múmia acreditando que o corpo preservado continha propriedades terapêuticas e vitais. Muitos nobres e ricos europeus pagavam fortunas achando que estavam consumindo múmias de grandes faraós e da realeza egípcia, mas a realidade era outra.

A elite egípcia usava resinas caríssimas e aromáticas no embalsamamento, quem usava o betume barato como substituto de resina eram as classes mais pobres (ou múmias do período romano, de menor qualidade de conservação). Então a maioria dos restos consumidos eram das classes mais baixas.

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Neste contexto, percebendo a ignorância e a altíssima demanda dos europeus, comerciantes no Egito e no Oriente Médio passaram a falsificar múmias.

Eles pegavam cadáveres recentes de criminosos, pessoas pobres, animais mortos ou até carne de camelo, secavam tudo ao sol com betume e vendiam como “múmias egípcias milenares”.

 O canibalismo medicinal da Europa

Conforme o professor João Pedro Rangel Diniz destaca, a obsessão europeia por partes de corpos humanos não parou nas múmias antigas, evoluiu para o chamado canibalismo medicinal.

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Entre os séculos XVI e XVII, farmacêuticos e médicos europeus começaram a criar remédios com cadáveres humanos recentes.

Em uma das obras médicas mais famosas do século XVII, o livro Basílica Chymica (1609), de Oswald Croll, há uma receita intitulada “Confecção Antiepiscopal (ou Antiepiléptica) de Paracelso”, que instrui detalhadamente:

“Escolha a carcaça de um homem vermelho [ruivo], inteiro, limpo e sem mácula, de 24 anos de idade, que tenha sido enforcado, quebrado na roda ou atravessado, tendo sido exposto ao ar livre por um dia e uma noite…”

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A falsa lógica da época era que a “força vital” de um jovem que morria de forma violenta e saudável ficava presa no corpo e podia ser transferida para quem o consumisse.

E na Era Vitoriana? O que aconteceu com as múmias?

Se no século XVI as múmias eram comidas como remédio, no século XIX (Era Vitoriana) o hábito de ingeri-las já havia caído em desuso. Mas o destino dos corpos não foi muito melhor:

Os restos mumificados eram moídos para produzir um pigmento de tinta muito popular entre artistas plásticos dos séculos XVIII e XIX, a tinta “Castanho Múmia” (Mummy Brown).

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A aristocracia vitoriana também promovia eventos sociais privados onde a atração principal era retirar as faixas de uma múmia egípcia real para entretenimento, as chamadas Festas de Desembrulhar Múmias (Unwrapping Parties). Segundo especialistas, após os eventos, os restos mortais destruídos e danificados eram descartados no lixo comum, vendidos em pedaços ou guardados como lembranças mórbidas. 

Além disso, as múmias de animais (como gatos) chegaram a ser importadas em toneladas para a Europa para serem moídas e usadas como fertilizante agrícola.

O auge do consumo de múmias ocorreu realmente entre os séculos XII e XVI, e não na Era Vitoriana, por causa de um erro de tradução. A maior parte do que foi consumido eram múmias de classes baixas, cadáveres da era romana ou falsificações recentes feitas com carne de animais.