Por que buscas no Google podem fazer você ‘transformar’ uma dor de cabeça em câncer? Entenda a cibercondria

O buscador não calcula, sozinho, qual delas é mais provável para aquela pessoa; a busca pode então alimentar um ciclo de ansiedade

Enquanto os concorrentes sobrecarregavam suas páginas iniciais com banners publicitários e excesso de informações, o Google apostou em uma interface limpa e resultados mais precisos - (Sarah Blocksidge/Pexels)

O Google não sabe o contexto por trás das suas buscas (Sarah Blocksidge/Pexels)

Esses dias o Google me convenceu de que eu tinha matado a minha cachorra. Deixei um pacote de chiclete no móvel da sala, a Lulu conseguiu pegar e mastigou a embalagem, engolindo um pouco menos da metade de um dos tabletes. Quando fui pesquisar o que fazer no buscador, o modo IA me disse que ela morreria em algumas horas.

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Apesar de saber que a barra de pesquisa do Google sempre aumenta um pouco o caso (como quando pesquisamos sintomas de gripe e ele sugere câncer), fiquei desesperada. Minha cachorra é um Pug, raça que já é conhecida por diversos problemas, e que a pesquisa fez questão de ressaltar que sofreria mais com a “super” intoxicação do que outros tipos de cão. 

Acabei ligando para a veterinária dela e acontece que chiclete, principalmente sem açucar, é mesmo tóxico para cães, mas ingeridos em quantidades muito maiores do que ela teve acesso. Tudo que eu precisei fazer foi observar, e felizmente ela não apresentou nenhuma adversidade. Se dependesse apenas dos resultados do Google, eu teria feito uma lavagem estomacal nela. E por que isso acontece?

Por que o Google faz isso?

Esse salto de um problema “comum” para algo grave acontece porque quando fazemos uma busca o sistema organiza as informações disponíveis na internet a partir daquilo que foi pesquisado, sem considerar o contexto por trás.

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Mecanismos de pesquisa e chatbots de IA não são médicos e nem capazes de fornecer diagnóstico, eles apenas informam as probabilidades sem fazer nenhum recorte.

E esse contato entre tecnologia, excesso de informação e ansiedade é um problema antigo, conhecido como cibercondria.

A cibercondria, termo formado pela combinação de ciber e hipocondria e também conhecida como “hipocondria digital” ou “fenômeno Dr. Google”, descreve um padrão de busca excessiva por informações sobre sintomas e doenças na internet. 

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O comportamento pode intensificar a preocupação com a própria saúde, levando a pessoa a interpretar sintomas comuns como sinais de condições mais graves e a pesquisar repetidamente possíveis diagnósticos. 

O Google não sabe qual doença é mais provável para você

Quando um médico ouve que uma pessoa está com dor de cabeça, ele não avalia apenas as suas palavras. A investigação considera idade, histórico de saúde, medicamentos, duração e intensidade da dor, outros sintomas, hábitos, pressão arterial, histórico familiar e, quando necessário, exames.

Uma busca na internet começa com muito menos contexto. Por isso, um mesmo sintoma pode levar a dezenas de explicações diferentes. Uma dor de cabeça pode estar relacionada a fatores cotidianos, como desidratação ou falta de sono, mas também aparecer entre os sintomas de condições mais sérias.

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O fato de uma doença aparecer nos resultados não significa que ela seja uma causa provável daquele sintoma, e esse é um dos principais problemas da chamada autodiagnose digital, já que o mecanismo de busca trabalha com relações entre termos e conteúdos, enquanto o diagnóstico médico trabalha com probabilidade clínica e contexto.

Um estudo realizado pelos pesquisadores Ryen White e Eric Horvitz, da Microsoft, analisou como usuários buscavam informações médicas na internet. O estudo identificou um fenômeno chamado de “escalada” das preocupações, onde uma busca por um sintoma comum evolui para pesquisas sobre doenças graves e raras associadas àquele mesmo sintoma.

A pessoa começa procurando “dor de cabeça” e termina pesquisando “sintomas de tumor cerebral”.

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Por que a busca parece ficar cada vez mais assustadora?

Muitos sintomas sozinhos são inespecíficos. Dor, tontura, cansaço, náusea, palpitação e falta de ar, por exemplo, podem aparecer em uma grande variedade de situações. O problema é que a internet coloca essas possibilidades lado a lado sem reproduzir todo o processo de avaliação realizado por um profissional.

A forma como os resultados são apresentados pode contribuir para que o usuário interprete uma doença grave como uma explicação mais provável do que realmente é. A linha de raciocíonio representa uma diferença importante.

“Esta doença pode causar esse sintoma” não significa “se você tem esse sintoma, provavelmente tem esta doença”, mas nosso cérebro não costuma assimilar assim.

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Nossa humanidade ajuda a piorar a situação

Quando uma pessoa está preocupada com a própria saúde, informações ambíguas podem aumentar a atenção sobre sensações corporais. A ansiedade, hoje mais do que nunca, faz parte do ser humano, e acabamos pensando demais.

Uma palpitação que antes passaria despercebida pode se tornar o centro da atenção, uma dor pequena pode parecer mais intensa, e cada nova sensação pode gerar uma nova pesquisa.

Assim, a busca que começou como tentativa de tranquilização pode produzir o efeito contrário, como no meu caso com a minha cachorra.

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Entramos em um ciclo vicioso: pesquisar para se acalmar, encontrar uma possibilidade preocupante, ficar mais ansioso e então pesquisar novas informações para tentar obter uma nova confirmação.

Quanto mais você pesquisa, mais possibilidades aparecem

E tem outro detalhe que torna esse comportamento particularmente difícil de interromper: a internet nunca termina de responder.

Uma dúvida pode gerar outra.“Estou com palpitação”, e aí vem:

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“O que causa palpitação?”

“Palpitação e ansiedade.”

“Como saber se é ansiedade ou problema cardíaco?”

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“Sintomas de arritmia.”

“Arritmia pode matar?”

A cada etapa, a pessoa deixa de buscar apenas uma explicação para o sintoma e passa a procurar uma confirmação para o medo.

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A pesquisa online pode deixar de ser uma ferramenta de informação e passar a funcionar como uma tentativa repetida de eliminar uma incerteza que a própria internet continua alimentando.

Então não devemos pesquisar sintomas no Google?

Não é preciso demonizar a internet. Informações de saúde disponíveis online podem ajudar uma pessoa a entender termos médicos, conhecer formas de prevenção, encontrar serviços de saúde e chegar mais preparada a uma consulta.

O problema começa quando a pesquisa substitui a avaliação profissional ou quando o usuário passa a tratar os resultados como diagnóstico.

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Tudo bem procurar informação para entender melhor um diagnóstico recebido, preparar uma consulta ou aprender sobre prevenção, mas passar horas pesquisando sintomas, mudar constantemente as hipóteses e continuar procurando mesmo depois de encontrar informações que deveriam trazer segurança são sintomas de cibercondria.

Uma forma mais segura de usar a internet é observar a qualidade da fonte. Em vez de considerar qualquer página encontrada como equivalente, vale priorizar instituições de saúde, universidades, sociedades médicas e órgãos públicos.

Também é importante não interpretar a existência de uma doença na lista de resultados como indicação de que ela seja a explicação mais provável, sempre cheque com profissionais qualificados (e humanos) assim que possível.