Imagine um predador escondido dentro de uma enorme cratera no fundo do oceano, esperando silenciosamente até que uma presa passe perto o suficiente para ser atacada. Cientistas acreditam ter encontrado uma evolução desse comportamento na Austrália.
Pesquisadores encontraram cerca de 300 buracos de tocaia espalhados ao redor de um naufrágio próximo a Bundaberg, no estado de Queensland. As depressões aparecem em uma área praticamente plana do fundo do mar e formam um círculo quase completo em torno de uma embarcação naufragada, a Althea II.
Como um naufrágio vira território de predadores
Esconderijos de predadores
A principal suspeita dos pesquisadores é que grandes peixes predadores participem da escavação e manutenção desses buracos, utilizando as depressões como locais de descanso, proteção e até como pontos estratégicos para atacar outros animais.
Imagens feitas com uma câmera submarina mostraram peixes conhecidos como garoupa-de-manchas-laranja utilizando repetidamente algumas dessas cavidades. A espécie, de nome científico Epinephelus coioides, pode atingir cerca de um metro de comprimento.

A base alimentar dessa espécie é composta de pequenos peixes e caranguejos. A partir disso, os cientistas teorizaram que esses buracos provavelmente são pontos de emboscada para suas presas, aproveitando-se do ambiente.
O Althea II oferece um ambiente único para caçadores de emboscadas. Estruturas naufragadas costumam se tornar excelentes abrigos para diversas espécies, agindo como base para corais artificiais. Ambiente que, por sua vez, atrai mais predadores.
Peixes mudam o fundo
A transformação do ambiente ocorre por um fenômeno conhecido como bioturbação, no qual animais movimentam e misturam os sedimentos enquanto procuram alimentos, rastejam, escavam ou constroem locais onde possam permanecer protegidos.
Segundo Maddison Cross, pesquisadora de biologia marinha da University of the Sunshine Coast, esses organismos podem atuar como verdadeiros “engenheiros do ecossistema”, alterando significativamente o fundo oceânico.

Os cientistas ainda não comprovaram que os grandes predadores sejam responsáveis por construir sozinhos todas as depressões. Entretanto, a observação repetida das garoupas dentro delas levou a equipe a considerar que o uso contínuo, no mínimo, ampliou os buracos.
Outra característica chamou a atenção: existe uma região imediatamente próxima ao Althea II onde praticamente não aparecem depressões. Uma das hipóteses é que os predadores instalados no próprio naufrágio tornem perigoso demais permanecer parado nessa faixa do fundo.
Buracos revelam naufrágios
A descoberta pode ter uma aplicação inesperada. Para os pesquisadores, identificar conjuntos semelhantes de buracos pode ajudar a localizar naufrágios ainda desconhecidos, já que a presença dessas estruturas altera a distribuição dos animais e, consequentemente, o próprio terreno ao redor.
Algo semelhante ocorreu em 2017 durante a procura pelo SS Macumba, navio mercante afundado por aviões japoneses em 1943. A embarcação permaneceu desaparecida durante 74 anos até que uma expedição da CSIRO finalmente encontrou seus destroços.
Quando a busca estava perto de terminar, integrantes da expedição perceberam marcas circulares incomuns no fundo do mar. A equipe ampliou a área analisada e acabou passando diretamente sobre o naufrágio, mostrando que a atividade dos animais podia funcionar como uma pista.








