A medicina brasileira consolidou um marco tecnológico histórico nesta semana com a primeira telecirurgia robótica de longa distância pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Médicos do Hospital de Amor, em Barretos (SP), comandaram remotamente os braços robóticos que realizaram uma cirurgia oncológica de reto em um paciente internado em Porto Velho (RO), na última terça-feira (30/6). Uma distância de 2.700km.
O procedimento funcionou de forma totalmente integrada entre o polo paulista e a equipe que dava suporte físico ao paciente na Região Norte. O sistema permitiu que o cirurgião em Barretos manipulasse as pequenas pinças cirúrgicas através de comandos manuais de alta sensibilidade, enquanto os acionamentos de troca de funções e movimentação eram disparados com os pés, sob o monitoramento constante de vídeo de altíssima definição.
Engenharia médica e o controle remoto dos braços do robô
De acordo com a equipe de engenharia e inovação da instituição, a estabilidade das redes de transmissão de dados dedicados para os procedimentos, contou com sistemas 5G e cabos de fibra óptica funcionando simultaneamente. Esse recurso foi o fator crítico para viabilizar a cirurgia, eliminando atrasos de resposta nos comandos que nesse caso foi de 62 milissegundos.
O Dr. Luis Gustavo Romagnolo, coordenador científico do Instituto de Treinamento em Cirurgias Minimamente Invasivas (Ircad), pontuou o impacto social do projeto:
“Mais do que um avanço tecnológico, esse é um passo importante para ampliar o acesso da população do SUS a procedimentos de alta complexidade”.
Descentralização e impacto na oncologia pública
O avanço promete remodelar a gestão de filas e a logística de tratamento de câncer na rede pública. O modelo de telecirurgia reduz a necessidade de deslocamento de pacientes de seus estados de origem em direção aos grandes centros urbanos do Sudeste, diminuindo os custos com Tratamento Fora de Domicílio (TFD) e poupando o paciente do desgaste de longas viagens em fases críticas da doença. A intenção manifestada pela direção do Hospital de Amor é transformar a cirurgia robótica em um padrão cotidiano de atendimento.
Com mais de 2 milhões de atendimentos em suas frentes de atuação ao longo do último ano, a meta da entidade é usar a matriz paulista como uma grande central de inteligência e intervenção médica, conectando seus especialistas às salas de operação montadas em todas as suas demais extensões hospitalares e de prevenção pelo Brasil.
Para o Dr. Luis Romagnolo, o futuro da saúde passa justamente por essa integração entre assistência, inovação e acesso.
“Levar uma plataforma robótica a lugares remotos, com a conectividade que estamos utilizando, significa oferecer benefícios reais aos pacientes e também aos médicos, que passam a ter acesso a equipes mais experientes. Por mais distantes que estejamos, a inovação aproxima as pessoas”, concluiu.
Implementação no dia a dia
A tecnologia ainda deve estar restrita aos grandes centros, mas para o hospital do amor a prática da telecirurgia robótica deve ser implementada no dia a dia. O Dr Marcos Denadai, médico do Departamento de Cirurgia Colorretal do Hospital de Amor esteve em Porto Velho para acompanhar do outro lado do País a cirurgia e avaliou que o programa pode se tornar um divisor de águas.
“Hoje, o acesso a esse tipo de cirurgia pelo sistema público ainda é muito difícil e, muitas vezes, restrito aos grandes centros. Iniciar esse programa em Porto Velho é algo muito importante para a região, para a instituição e, principalmente, para o paciente. Estamos falando de uma cirurgia mais delicada, mais precisa, com menos sangramento, menos complicações e, muitas vezes, uma recuperação mais rápida. Com a telecirurgia, ainda temos a possibilidade de integrar equipes, trocar experiências entre centros especializados e ampliar esse conhecimento. No fim, quem mais ganha é o paciente”, reforçou.




