Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram um marco histórico para a ciência nacional: o nascimento do primeiro porco clonado no Brasil, que nasceu em um laboratório em Piracicaba, no interior de São Paulo.
O animal, um leitão saudável que nasceu com 2,5 kg é a peça-chave do projeto XenoBr, que busca transformar suínos em doadores de órgãos para seres humanos.
Sem nome e uso da tecnologia CRISPR
Diferente da famosa ovelha Dolly, o porquinho brasileiro não recebeu um nome, sendo identificado apenas pelo código: P22. Ele é fruto do cruzamento das raças Landrace e Large White.
O grande diferencial desta pesquisa, sediada no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (HUG-CELL), é o uso da técnica CRISPR-Cas9, descrita pelos cientistas como “tesouras moleculares”.
Essa tecnologia de alto nível permite a edição genômica do animal para torná-lo compatível com o corpo humano. O processo envolve:
- Desativar três genes que causam rejeição aguda em humanos;
- Inserir sete genes humanos para aumentar a segurança e a compatibilidade viral.
Por que e como os porcos podem salvar vidas humanas?
A escolha dos suínos para o chamado xenotransplante (transplante entre espécies diferentes) não é por acaso. A fisiologia e o tamanho de órgãos como rins e corações de porcos são muito semelhantes aos dos seres humanos.
Além disso, a espécie possui um tempo de gestação curto e facilidade de criação em ambientes controlados.
O objetivo principal é reduzir a dramática escassez de órgãos no Brasil, em que cerca de 48 mil pessoas aguardam na fila de transplante.
Segundo o médico Silvano Raia, um dos líderes do projeto e pioneiro mundial no transplante de fígado, o foco inicial serão os rins, buscando diminuir o número de pacientes que dependem de hemodiálise.
Próximos passos e acessibilidade pelo SUS
Embora o nascimento do P22 seja um avanço técnico, considerando que a eficiência da clonagem suína em laboratórios estabelecidos é de apenas 1% a 5%, o caminho para a rotina médica ainda possui desafios.
Até agora, a técnica foi validada em apenas porcos “normais”. A próxima etapa consiste em clonar embriões já geneticamente modificados para iniciar estudos pré-clínicos e clínicos.
Os coordenadores reforçam a importância de desenvolver essa tecnologia em solo brasileiro. De acordo com Jorge Kalil, coordenador da pesquisa, a produção nacional é vital para garantir que esses órgãos cheguem à população por meio do SUS, já que o custo de importação seria proibitivo para os cofres públicos.
Para garantir a total segurança dos futuros procedimentos, a USP também inaugurou uma unidade de criação isolada e estéril na Cidade Universitária, onde os animais crescem livres de patógenos sob rigorosa assepsia.
