A cidade de São Paulo registrou 1.342 ocorrências de alagamento em vias nos últimos dois anos, com trechos da zona leste entre os locais que mais ficaram interditados por causa da água. Na avenida Itaquera, por exemplo, um cruzamento teve registros em 15 dias diferentes.
Ao mesmo tempo, na Sé, região central de São Paulo, um trecho da avenida Pacaembu ficou totalmente intransitável em pouco mais de 22% das vezes que choveu.
Um levantamento exclusivo feito pela Crime Brasil para a Gazeta de S. Paulo identificou 60 trechos que podem se tornar novos pontos críticos de alagamento na capital.
Balanço de alagamentos em SP
A análise considera registros do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE-SP) entre 23 de setembro de 2024 e 22 de setembro de 2026, cruzados com dados oficiais de hidrografia, relevo e áreas inundáveis.
Dos 1.342 registros analisados, 59% deixaram as vias intransitáveis. O levantamento considerou os locais pelo número de dias diferentes em que houve ocorrência, já que um mesmo ponto pode ter mais de um registro no mesmo dia.

Zona leste concentra pontos mais recorrentes
O local que mais registrou alagamentos no período fica na avenida Itaquera com a rua Campinas do Piauí, em Itaquera, na zona leste.
O cruzamento teve ocorrências em 15 dias diferentes. Em 60% dos registros, a via ficou intransitável.
Na sequência aparecem dois trechos da avenida Marechal Tito, no Itaim Paulista, com ocorrências em 14 dias diferentes cada.
Entre os dez locais com maior recorrência também estão pontos de Santo Amaro, Ipiranga, Mooca, Sé, São Mateus e Butantã.
Os dez cruzamentos e trechos que mais tiveram registros foram:
- Avenida Itaquera x rua Campinas do Piauí, em Itaquera — 15 dias;
- Avenida Marechal Tito, trechos do nº 7.557 e nº 5.394, no Itaim Paulista — 14 dias;
- Avenida Santo Amaro x Avenida Roque Petroni Jr., em Santo Amaro — 12 dias;
- Rua Padre Viegas de Menezes x Rua Itagimirim, em Itaquera — 11 dias;
- Rua Presidente Batista Pereira x Avenida do Estado, no Ipiranga — 10 dias;
- Avenida Alcântara Machado x viaduto Guadalajara-João Behisnelian, na Mooca — 9 dias;
- Viaduto Presidente João Goulart x Avenida Pacaembu, na Sé — 8 dias;
- Avenida Jacu-Pêssego x Avenida Ragueb Chohfi, em São Mateus — 8 dias;
- Avenida Professor Francisco Morato x Praça Paula Moreira, no Butantã — 8 dias.
Além da frequência, alguns pontos apresentam alta proporção de ocorrências com interdição da via.
Na rua Padre Viegas de Menezes com a rua Itagimirim, em Itaquera, por exemplo, 90,9% dos registros deixaram a passagem intransitável.
O mesmo percentual foi registrado na rua Presidente Batista Pereira com a avenida do Estado, no Ipiranga.
Sé lidera entre as subprefeituras
Os dados agrupados por subprefeitura mostram a Sé aparecendo na liderança, com 164 ocorrências distribuídas em 62 dias durante os dois anos analisados.
A Lapa aparece em seguida, com 119 ocorrências em 51 dias. Depois estão Pinheiros, com 96 ocorrências em 45 dias; Mooca, com 87 em 45 dias; e Itaquera, também com 87 ocorrências, distribuídas em 39 dias.
Os números mostram diferença entre os locais com maior quantidade acumulada de ocorrências e os cruzamentos com maior recorrência.
Itaquera, por exemplo, aparece na quinta posição entre as subprefeituras, mas abriga o ponto que mais registrou alagamentos na cidade: a avenida Itaquera com a rua Campinas do Piauí.
No Itaim Paulista, são 64 ocorrências na escala da subprefeitura, mas dois trechos da avenida Marechal Tito aparecem entre os três pontos mais recorrentes de São Paulo.
Itaim Paulista lidera entre os distritos
Na divisão por distritos oficiais, o Itaim Paulista lidera em número absoluto, com 57 ocorrências.
Depois aparecem Bom Retiro, com 53; República, com 39; Santana, com 35; e Barra Funda, com 31.
Quando os dados são ajustados pela população, o ranking muda. O Bom Retiro registra 158,1 ocorrências por 100 mil habitantes, seguido por Barra Funda, com 92,7, e Alto de Pinheiros, com 83.
A diferença ocorre porque distritos menores podem concentrar ocorrências em uma área e população residente menores.
Novos pontos críticos
Além de identificar onde os alagamentos já são recorrentes, o levantamento criou um índice de suscetibilidade a alagamentos para os 10.200 segmentos oficiais de vias da cidade.
O modelo considera quatro fatores, com peso de 25% cada: proximidade de cursos d’água, presença em planície inundável, baixa cota de relevo em relação ao entorno e histórico recente de ocorrências nas proximidades.
A partir desses critérios, foram identificados 60 trechos com alta suscetibilidade e sem histórico relevante de alagamento no período analisado.
Eles são classificados pelo levantamento como candidatos a novos pontos críticos, mas o próprio estudo ressalva que o índice não representa uma previsão de que determinada rua necessariamente vai alagar.
Entre os dez trechos com maior índice estão:
- Rua Una x Rua Marquês de Leão, na Bela Vista — índice 1,000;
- Rua Itapaiúna, na Vila Andrade — índice 1,000;
- Rua Caiubi, em Perdizes — índice 1,000;
- Travessa Araraquara x Rua Custódio, na Cidade Ademar — índice 1,000;
- Rua Bonifácio Pasquali, no Jardim Ângela — índice 1,000;
- Rua Monlevade x Praça Nagib Ganme, na Bela Vista — índice 0,997;
- Avenida Eliseu de Almeida x Avenida Jacob Salvador Zveibil, na Vila Sônia — índice 0,997;
- Rua Alfredo Gagliotti x Rua Álvaro de Carvalho, na República — índice 0,997;
- Rua Porto de Palos, em Pirituba — índice 0,995;
- Avenida Luiz Gomes Cardim Sangirardi, na Vila Mariana — índice 0,995.
A rua Una, na Bela Vista, por exemplo, aparece sobre um curso d’água e em uma depressão de relevo de aproximadamente 25 metros.
Já a rua Itapaiúna, na Vila Andrade, está sobre um córrego e apresenta uma depressão de 22 metros em relação ao entorno.
Índice foi testado com dados de 2026
Para avaliar o modelo, a Crime Brasil utilizou os dados de alagamentos de 2026 como período de teste, sem incluí-los na construção do índice.
O resultado mostrou que 29,9% das ocorrências registradas em 2026 ficaram dentro dos 10% dos segmentos considerados mais suscetíveis pelo modelo. Em uma distribuição aleatória, a expectativa seria de 10%.
O levantamento ressalva que esse resultado é um indicativo estatístico, e não uma previsão de que determinado trecho obrigatoriamente terá alagamentos.
Chuvas de 5 mm a 10 mm concentram mais ocorrências
A análise também cruzou os registros do CGE-SP com dados de chuva horária do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Nos dias em que o maior volume de chuva em uma hora ficou entre 5 e 10 milímetros, houve pelo menos um registro de alagamento em 51,9% dos dias analisados.
Entre 10 e 15 mm por hora, a proporção chegou a 79,4%. De 20 a 30 mm, todos os 15 dias analisados tiveram pelo menos uma ocorrência.
O levantamento ressalta que não existe um volume fixo de chuva capaz de provocar alagamentos em qualquer ponto da cidade, já que as condições variam conforme o local e as características da drenagem.
Dados mostram fenômenos diferentes
O estudo também comparou os registros do CGE-SP com dados da Defesa Civil/SIGRC e identificou diferenças na distribuição das ocorrências.
Os dados do CGE utilizados na análise registram principalmente situações em que alagamentos provocam fechamento de vias e afetam o trânsito.
Já os registros do SIGRC/Defesa Civil estão relacionados a ocorrências de risco geo-hidrológico e ocupação, com maior concentração em áreas periféricas das zonas sul e leste.
Por isso, os rankings das duas bases apresentam pouca sobreposição. Entre os dez distritos com mais ocorrências em cada fonte, apenas o Itaim Paulista aparece nas duas listas.
Ao todo, a análise cruzou 1.342 ocorrências do CGE-SP, 457 registros da Defesa Civil/SIGRC, dados do GeoSampa, Inmet, IBGE e informações de relevo para mapear o histórico de alagamentos na cidade entre setembro de 2024 e setembro de 2026.
