Nem PJ, nem estágio: novo tipo de trabalho precário explode em SP e já atinge milhares

Entregas por aplicativo deixaram de ser renda extra para virar uma ocupação instável e massiva em São Paulo, com milhares de trabalhadores expostos a longas jornadas, baixa proteção e renda imprevisível

Pesquisas mostram que o trabalho por apps se consolidou em São Paulo em patamar muito alto, reunindo milhares de entregadores e ampliando um modelo marcado por controle digital, insegurança e pouca proteção social.

Pesquisas mostram que o trabalho por apps se consolidou em São Paulo em patamar muito alto, reunindo milhares de entregadores e ampliando um modelo marcado por controle digital, insegurança e pouca proteção social. | Joseph Silva/Gazeta de S. Paulo

Quem sai da zona sul da capital quase não nota a mudança. Em poucos metros, porém, entra na cidade mais densamente povoada do Brasil.

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Resumo em 30 segundos:

São Paulo viu crescer um tipo de trabalho que não cabe bem nas categorias tradicionais. Impulsionado pelos aplicativos de entrega, ele reúne milhares de trabalhadores, funciona com forte controle digital e se espalhou pela cidade em ritmo acelerado.

O avanço desse modelo ajuda a explicar por que tanta gente passou a tratar a entrega por aplicativo não como bico, mas como trabalho principal. Em entrevista exclusiva à Gazeta, a professora Vanessa Cepellos, da FGV, aponta que esse movimento reflete uma “deterioração do mercado”, onde o trabalho autônomo surge como uma necessidade urgente de renda diante do desemprego.

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Nos últimos anos, a cidade virou vitrine desse fenômeno. Pesquisas acadêmicas e observação de campo mostram que o delivery por app se consolidou como uma das faces mais visíveis de um mercado que, segundo Vanessa detalhou à Gazeta, é marcado por uma “instabilidade maior”, onde o profissional não conta com garantias básicas.

Como esse trabalho cresceu tão rápido

A virada veio entre 2019 e 2020. Com a crise e a pandemia, muitos trabalhadores entraram no setor. À Gazeta, a especialista explicou que essa alta não é apenas passageira, pois muitas empresas notaram uma “redução no custo” ao optar por esse tipo de serviço, o que tende a manter a modalidade em alta mesmo após o período agudo da crise.

Naquele período, o que parecia resposta emergencial virou estrutura. A cidade passou a conviver com mais motos e bicicletas circulando entre periferias e áreas de consumo, num fluxo diário cada vez mais intenso e dependente da tecnologia.

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Por que ele já atinge milhares

Dados apresentados à CPI dos Aplicativos mostram cerca de 563 mil entregadores ativos cadastrados na capital. Esse contingente enorme opera em um modelo que, como Vanessa Cepellos destacou em sua fala exclusiva, muitas vezes é confundido com empreendedorismo, quando na verdade é um trabalho autônomo sem os benefícios de um vínculo formal: “O freelancer trabalha por conta própria e os benefícios, como plano de saúde, férias e 13º salário, não são contemplados”.

O que muda na vida de quem entra nesse modelo

O discurso da autonomia costuma ser a porta de entrada, mas a realidade impõe metas severas. A lógica da uberização transfere riscos para quem executa o serviço. Na prática, o trabalhador precisa de um “networking bem grande para conseguir se manter sempre com algum projeto”, conforme reforçado na entrevista à Gazeta.

  • Jornada instável: o volume de chamadas oscila e dificulta prever o ganho real.
  • Custo individual: combustível e manutenção pesam no bolso do entregador.
  • Proteção limitada: ausência de garantias sociais transforma a flexibilidade em risco constante.

São Paulo como símbolo do fenômeno

São Paulo concentra população e consumo, favorecendo a expansão das plataformas. A metrópole funciona como motor dessa engrenagem. Em conversa com a Gazeta, Vanessa Cepellos frisou que essa tendência deve continuar, pois as práticas de trabalho flexível estão sendo “institucionalizadas devido ao contexto” metropolitano.

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Por trás da pressa das entregas, São Paulo consolidou um modelo que expõe um traço central do presente: o trabalho existe em abundância, mas a segurança financeira e social tornou-se um desafio individual do trabalhador.

Perguntas frequentes

O que a especialista da FGV diz sobre o aumento de freelancers em SP?

Em entrevista à Gazeta, a professora Vanessa Cepellos afirmou que o aumento de 43% na busca por freelancers em SP reflete uma deterioração do mercado formal e uma busca desesperada por renda.

Trabalhar por aplicativo é ser empreendedor?

Há uma confusão comum. Como explicado na matéria, o entregador é um trabalhador autônomo que assume todos os riscos e custos, sem as garantias de um microempreendedor ou de um contrato formal.

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Quais as principais desvantagens desse modelo?

A instabilidade de renda e a falta de benefícios como férias e 13º salário são os pontos mais sensíveis apontados pelos especialistas ouvidos pela Gazeta.