O tubarão, um dos maiores vilões nos filmes de terror e suspense, é mundialmente temido. A “fera” é conhecida por conseguir sentir o cheiro de uma única gotinha de sangue na água, mesmo que esteja a quilômetros de distância, e por seu apetite insaciável. Mas será que tudo isso é verdade mesmo?
O tubarão consegue sentir cheiro de sangue na água, mas em uma proporção de cerca de uma parte por 10 bilhões (como uma gota de sangue em uma piscina olímpica).
Além disso, a ideia de que sentem a quilômetros de distância é falsa, e o alcance real fica entre 300 e 500 metros, dependendo das correntes marinhas.
O “apetite insaciável” é outro mito popular. Como qualquer predador, o tubarão caça apenas quando precisa repor energias. Os humanos não fazem parte da dieta natural desses animais, pois nossa proporção de ossos e músculos não oferece a quantidade de gordura necessária para a manutenção do metabolismo deles.
Muitos ataques contra humanos ocorrem quando os animais nos confundem com outras presas ou quando dão uma “mordida exploratória”, por curiosidade.
O que é a “mordida exploratória”?
Como não possuem mãos ou patas para tatear o ambiente, os tubarões usam a boca para investigar objetos estranhos em seu território.
A chamada mordida exploratória ocorre quando o animal, curioso ou confuso, dá uma única mordida para identificar o que é aquilo.
Ao perceber que não se trata de uma presa habitual (como uma foca ou peixe), o tubarão geralmente solta e se afasta.
Infelizmente, devido à força de sua mandíbula e dentes afiados, esse “teste” pode ser fatal ou causar ferimentos graves em seres humanos.
O que são os tubarões?

Longe de serem monstros marinhos, os tubarões são peixes cartilaginosos (da classe dos condrictes), o que significa que seu esqueleto é feito de cartilagem flexível e leve, em vez de ossos.
Existem mais de 500 espécies conhecidas no mundo, e a variação vai desde o pequeno tubarão-lanterna-anão (Etmopterus perryi), que mede cerca de 20 centímetros, até o gigante tubarão-baleia (Rhincodon typus), que pode ultrapassar 12 metros de comprimento e se alimenta exclusivamente de plâncton e pequenos peixes.
Além do olfato, esses peixes possuem as Ampolas de Lorenzini, órgãos sensoriais capazes de detectar os mínimos campos elétricos emitidos pelos batimentos cardíacos e movimentos de outros animais.
O impacto da ação humana no comportamento animal
Casos de aproximação de tubarões da costa e incidentes com humanos têm ligação direta com a degradação ambiental causada pelo homem, como:
- Sobrepesca: A pesca predatória reduz drasticamente a quantidade de presas naturais do tubarão no alto-mar, forçando-o a buscar alimento mais perto das praias.
- Destruição de habitats: A degradação de corais, manguezais e o aquecimento dos oceanos alteram as rotas migratórias das espécies.
- Lixo e poluição: O descarte inadequado de resíduos e efluentes atrai espécies para zonas de navegação e banho.
Afinal, eles são perversos?
Não. A biologia comportamental e os dados estatísticos deixam claro que nenhuma espécie de tubarão ataca por maldade, prazer ou vingança.
De acordo com dados do International Shark Attack File (ISAF), mantido pela Universidade da Flórida, a probabilidade de uma pessoa ser atacada por um tubarão é de menos de 1 em 11,5 milhões.

Na verdade, os humanos são infinitamente mais perigosos para os tubarões do que o inverso: estima-se que ações humanas (como a pesca para o comércio de barbatanas) matem cerca de 100 milhões de tubarões por ano.
Os tubarões são guiados estritamente pelo instinto de sobrevivência, conservação de energia e resposta a estímulos sensoriais. O conceito de perversidade é uma atribuição exclusivamente humana.
Quando ocorrem incidentes, eles são frutos de erros de identificação (como um surfista visto de baixo, cuja silhueta se assemelha à de uma tartaruga ou foca) ou de reações de defesa territorial. O tubarão não pensa “quero machucar”, ele apenas responde ao seu ambiente da forma como evoluiu para fazer ao longo de mais de 400 milhões de anos.
Você come tubarão sem saber sob o nome de cação
Muitas pessoas consomem esses animais sem nem saber. O termo “cação” pode parecer uma espécie de peixe, mas é na verdade um nome comercial genérico utilizado para vender carne de diversas espécies de tubarões e até mesmo de arraias (que são parentes próximas dos tubarões, também peixes cartilaginosos).
A comercialização dessa carne apresenta muitos riscos. Várias espécies vendidas sob o nome de cação estão ameaçadas de extinção. E a venda não prejudica apenas o animal, mas também quem o consome: por serem predadores do topo da cadeia alimentar, a carne de tubarão acumula altos níveis de metais pesados, como o mercúrio, sendo contraindicada em excesso por especialistas.
O consumo frequente pode causar danos ao sistema nervoso, problemas neurológicos, perda de memória e dores de cabeça. Gestantes, mulheres que amamentam e crianças pequenas devem evitar totalmente o consumo para não prejudicar o desenvolvimento neurológico infantil, e quase ninguém sabe disso.
Por que a presença de tubarões nos mares é uma ótima notícia?
Recentemente, a aparição de um tubarão em águas rasas em Fernando de Noronha gerou apreensão em alguns banhistas e turistas. Contudo, para biólogos e oceanógrafos, essa reação reflete apenas falta de informação: ver um tubarão em Noronha é um excelente sinal de saúde ambiental.
Os “médicos” do oceano
Os tubarões são topo de cadeia alimentar e funcionam como reguladores ecológicos. Eles impedem que uma única espécie de peixe ou molusco se reproduza em excesso e acabe com a vegetação marinha ou com outros recursos do ecossistema.
Você sabia que as espécies mais temidas, como o tubarão-branco, tubarão-tigre e tubarão-cabeça-chata, preferem caçar os indivíduos mais fracos, velhos ou doentes? Ao fazer isso, eles atuam como os “garis” do oceano, limpando os mares, controlando doenças e melhorando a qualidade genética das presas.
Já outras espécies, como o Tubarão-baleia, tubarão-elefante e tubarão-boca-grande, não caçam animais individualmente. Eles nadam com a boca aberta filtrando passivamente toneladas de plâncton, krill e pequenos peixes.
Os que caçam em grupo, como o Tubarão-galha-branca-de-recife e tubarão-cinzento-dos-recifes, costumam caçar em grupos durante a noite, encurralando cardumes inteiros contra as rochas e corais. Outros, como o Tubarão-lixa e tubarão-portuguesinho buscam espécies que são naturalmente lentas ou imóveis.
Toda essa realidade fica oculta sob uma narrativa da máquina de matar sanguinária, que é ficção. Na verdade, um ambiente marinho com tubarões é um ambiente com peixes saudáveis, corais vivos e águas equilibradas.
Se os tubarões desaparecerem, o ecossistema marinho entra em colapso, o que afeta diretamente a produção de oxigênio do planeta e a própria pesca comercial de peixes consumidos por humanos.





