A brasileira Larissa Cartes, 25 anos, foi para a Coreia do Sul para transformar o sonho de viver da música em carreira no K-pop. Um ano e meio depois, voltou ao Brasil traumatizada pelos bastidores da indústria, marcados por noites sem dormir, rivalidade, cobranças e excesso de trabalho.
Em entrevista exclusiva à Gazeta de S.Paulo, a ex-integrante do BlackSwan, conhecida artisticamente como Leia, relata como a realidade encontrada no país asiático ficou distante da imagem idealizada pelos videoclipes, posts nas redes sociais e doramas, as novelas sul-coreanas.
“Você é vista como um produto”, afirma Larissa ao resumir uma das experiências que mais mudaram sua relação com o sonho de ser idol.
Quando o sonho ficou mais próximo
Desde criança, Larissa queria cantar e dançar. A indústria sul-coreana parecia oferecer a chance de transformar esse desejo em profissão. Ainda muito jovem, participou de uma audição em Curitiba e foi aprovada. A oportunidade abriu as portas para que ela seguisse para a Coreia do Sul em busca do sonho de viver da música.
Antes de chegar ao país, Larissa enxergava o K-pop como um mundo quase perfeito: artistas impecáveis, coreografias, amizades e uma vida cercada por música, fama e grandes palcos. Uma imagem muito mais próxima de um sonho do que da realidade. Ao começar a rotina de treinamento, passou a admirar ainda mais o esforço necessário para chegar aos palcos.
As madrugadas de ensaios estavam entre os desafios, algo que ela não conhecia, mas faziam o sonho parecer ainda mais próximo. “O sonho ficou ainda mais palpável”, recorda.
Logo vieram regras e cobranças que ela ainda desconhecia. Com o tempo, Larissa percebeu que o sistema não exigia apenas desempenho artístico.
A maneira de agir e se comportar também contavam para o sucesso naquele novo universo. E lidar com outras jovens foi especialmente difícil, tudo por causa de uma inesperada disputa entre as trainees, como são chamadas as aspirantes a artistas do K-pop.
A rivalidade que não aparecia nas câmeras
A imagem de grupos unidos e amizades construídas durante anos de treinamento faz parte do imaginário de muitos fãs. Nos bastidores, porém, a dinâmica podia ser outra.
Na primeira agência em que atuou, as gerentes conseguiam controlar melhor a rivalidade entre as trainees, que eram impedidas de demonstrar antipatia entre elas. Na agência seguinte, não havia esse controle.
“Se alguém não gostava de você, simplesmente te ignorava totalmente”, relembra.
Larissa crê que sua situação era ainda mais difícil por ser estrangeira e estar fora dos padrões estéticos coreanos. A brasileira frequentemente se sentia deixada de lado, em um ambiente marcado pela competição.
Segundo Leia, as trainees eram comparadas em aspectos como peso e aparência. Quem era considerada mais magra ou mais bonita poderia ocupar uma posição de destaque no grupo.
O conflito, porém, precisava desaparecer quando as portas da sala de treinamento se abriam. Para fãs e imprensa, a imagem de amizade precisava permanecer. A rivalidade ficava nos bastidores. Diante das câmeras, sorrisos e demonstrações de companheirismo.
Um sistema sem espaço para perguntas
Larissa define o sistema como “muito robótico”. A palavra resume uma das principais dificuldades que encontrou durante a experiência. Não havia espaço para questionar por que determinada ordem precisava ser cumprida.
“Você não pode ficar perguntando ‘por quê?’”, diz.
A obediência fazia parte da rotina. Larissa chegou a ser repreendida por um membro do staff por cruzar as pernas. Alimentação e peso eram rigorosamente acompanhados.
Com o tempo, Larissa passou a se importar menos com determinadas cobranças, mas continuou questionando aquilo que considerava errado.
Quando a artista passa a se sentir um produto
A rotina de uma trainee pode ser facilmente romantizada pelas redes sociais. Vídeos mostram coreografias, exercícios, aulas e momentos de preparação dos bastidores, mas sem revelar o desgaste envolvido nas atividades.
Durante as gravações de um clipe, Larissa passava até três dias sem dormir. E as exaustivas horas de trabalho, no entanto, não aparecem nos stories. Foi nesse processo que Larissa passou a sentir que deixava de ser tratada como artista e começava a ser vista apenas como um produto.
A percepção mudou sua relação com o próprio sonho. Os problemas já não eram apenas a quantidade de treinos ou as dificuldades de aprender uma coreografia. Larissa lembra que passou a ter a sensação de perder espaço para decidir sobre o próprio corpo, trabalho e trajetória.
Quando o sonho começa a sufocar
As cobranças da empresa aumentaram, e os conflitos se intensificaram.
Larissa se sentia injustiçada e cada vez mais sufocada pela situação. Queria deixar a agência, mas só conseguiu sair um ano depois de quando pretendia. Sem dinheiro para pagar a multa pela quebra de contrato, Larissa afirma que não chegou a um acordo amigável com os contratantes.
O que havia começado como uma oportunidade de carreira se transformou em uma situação que afetava sua saúde mental. E o sonho de atuar no mundo do pop sul-coreano ficou para trás.
O fim de um sonho
Atualmente Larissa trabalha como modelo, e afirma categoricamente que não pretende seguir carreira no K-pop “nunca mais”. Se voltar à música, será como hobby.
A brasileira também acredita que esteja proibida de cantar profissionalmente na Coreia do Sul por questões contratuais ou legais. Uma mudança radical para quem chegou ao país justamente para tentar transformar a música em profissão.
O alerta para quem ainda sonha
A experiência na Coreia do Sul não fez Larissa apenas abandonar uma carreira, também mudou a maneira como ela enxerga outras jovens que desejam seguir o mesmo caminho.
Larissa faz um alerta para quem sonha cantar num grupo de k-pop: é preciso colocar na balança as exigências desse estilo de vida artística sul-coreana e avaliar se conseguiria lidar com a dura realidade existente por trás do palco.
“Eu fico assustada com a idealização que existe. As pessoas precisam pesquisar não só quem deu certo, mas também quem quebrou a cara”, aconselha.
