Promessas de descontos que chegam a 99% têm impulsionado campanhas de renegociação de dívidas e atraído consumidores que buscam sair da inadimplência.
Nesta segunda-feira (23/2) começou o Feirão Limpa Nome, promovido pela Serasa, e voltou a atrair consumidores com a promessa de reduzir o valor das dívidas, mas também levanta dúvidas sobre quando a renegociação realmente vale a pena e se o abatimento representa uma vantagem para o consumidor.
Pensando nisso, a Gazeta entrevistou Ricardo Hiraki, especialista em gestão financeira da Plano Fintech de Educação Financeira, que explicou que os descontos expressivos não significam, necessariamente, erro na cobrança.
“Descontos muito altos normalmente não significam que a dívida estava ‘inflada’, mas sim que ela já foi considerada de difícil recuperação dentro dos modelos de risco das instituições financeiras. Após longos períodos de atraso, o credor já provisionou a perda no balanço e passa a priorizar recuperar qualquer parte possível do valor”, explica.
Segundo ele, o crescimento do saldo ao longo do tempo ajuda a explicar o espaço para abatimentos elevados. “Juros, multa e encargos elevam o saldo ao longo do tempo, criando espaço para grandes descontos sem necessariamente gerar prejuízo adicional para o credor. Em muitos casos, o desconto incide principalmente sobre encargos acumulados, não sobre o principal”.
Quando o acordo realmente vale a pena
Apesar do apelo dos descontos, o especialista alerta que o percentual não deve ser o principal critério de decisão.
“O impacto no orçamento deve ter maior peso porque sustentabilidade financeira é o principal objetivo da renegociação. Um desconto alto perde relevância se a parcela for apertada e levar a novos atrasos”, comenta Hikari.
Como regra prática, ele recomenda que as parcelas não ultrapassem entre 20% e 25% da renda líquida mensal, já considerando despesas essenciais. “Renegociar sem margem financeira aumenta significativamente o risco de voltar a atrasar”, diz..
Para ele, o pagamento à vista tende a ser financeiramente mais vantajoso. “O pagamento à vista com desconto elevado é financeiramente mais vantajoso porque reduz o valor total pago e elimina o risco de inadimplência futura”.
No entanto, Hiraki comenta que a decisão deve preservar a reserva de emergência. “Se pagar à vista comprometer a reserva ou gerar necessidade de recorrer a crédito posteriormente, o parcelamento pode ser a opção mais prudente”, diz.
Paguei, e agora?
Ele lembra ainda que quitar a dívida não significa melhora imediata na pontuação de crédito. “O score não melhora de forma automática ou imediata porque considera múltiplos fatores, como histórico de pagamentos recentes, nível de endividamento e frequência de atrasos”, explica.
Para evitar o chamado “efeito sanfona”, de limpar o nome e voltar a se endividar, o especialista é direto: “Evitar o efeito sanfona exige tratar a causa do endividamento, não apenas a consequência. Isso envolve reorganizar o orçamento, ajustar hábitos de consumo e criar uma reserva de emergência”.
Estratégia financeira
Do ponto de vista econômico, receber uma parte do valor pode ser mais vantajoso do que insistir na cobrança integral.
“O conceito central é o valor presente do dinheiro. Receber hoje uma parte do valor é economicamente superior a manter uma dívida em aberto com baixa probabilidade de recuperação, especialmente considerando inflação, custo de capital e risco jurídico”, afirma Hiraki.
O tempo de atraso também influencia diretamente as ofertas. “Quanto maior o tempo de atraso, maior tende a ser o desconto porque a probabilidade estatística de recuperação diminui significativamente após os primeiros meses”.
Dívidas antigas, muitas vezes já vendidas a empresas especializadas em cobrança, ampliam a margem para negociações mais agressivas.
