Corrida para as bets drena renda das famílias e transforma jogos online em vilões das contas básicas

Pesquisas apontam que a população de baixa renda é a mais vulnerável ao endividamento por apostas; comércio sente recuo nas vendas com desvio de recursos

Casas de apostas terão mudanças em 2025

gasto mensal com essas plataformas supera R$ 30 bilhões, diz CNC / Joédson Alves/Agência Brasil

A urgência em resolver problemas financeiros imediatos fez disparar o número de brasileiros que recorrem às plataformas de apostas esportivas e cassinos virtuais com o objetivo de pagar dívidas atrasadas.

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O comportamento, mapeado por analistas de consumo e institutos de pesquisa, expõe uma grave crise socioeconômica, onde o jogo deixa de ser uma atividade de lazer e passa a ser encarado, erroneamente, como uma tábua de salvação para a vulnerabilidade financeira.

Estudo recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que o gasto mensal com essas plataformas supera R$ 30 bilhões.

As classes mais afetadas pelo superendividamento

Os indicadores socioeconômicos mostram que o impacto do vício em apostas e do endividamento subsequente é mais severo entre as famílias pertencentes às classes C, D e E. Com o orçamento severamente pressionado pela inflação de alimentos e serviços básicos, indivíduos dessas faixas de renda tornam-se alvos fáceis para campanhas publicitárias agressivas que prometem a multiplicação de depósitos.

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Segundo dados de pesquisa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) a população com renda de até dois salários mínimos (R$ 3.242), 40% apostam para elevar o orçamento doméstico.

Para Kelly Carvalho, assessora econômica da Fecomércio-SP, o movimento é preocupante. “É uma falsa percepção de aumento de renda, porque perde-se muito mais. Sabemos que essas plataformas têm algoritmos que fazem questão de não proporcionar ganho sempre de forma consistente”, afirma.

O drama consolida-se quando o dinheiro do aluguel, da prestação do carro ou da feira do mês é transferido para as contas das plataformas. O perda rápida do capital leva ao superendividamento, obrigando o trabalhador a recorrer a empréstimos informais, juros rotativos do cartão de crédito ou ferramentas de cheque especial para tentar cobrir o rombo inicial, destruindo a estabilidade financeira do núcleo familiar.

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O comércio local perde espaço

O avanço desenfreado dos gastos com jogos online também redesenha o mapa do consumo regional. Dirigentes lojistas e associações comerciais começam a quantificar o tamanho do desvio: o dinheiro que antes abastecia o comércio varejista, o setor de vestuário e os supermercados locais agora é consumido pelas plataformas eletrônicas.

A mudança no comportamento de gasto compromete a liquidez das empresas locais e reduz a eficácia de mutirões de renegociação de dívidas, uma vez que o consumidor prefere arriscar a sobra de caixa nos aplicativos a limpar o nome nas ferramentas tradicionais de proteção ao crédito.