A urgência em resolver problemas financeiros imediatos fez disparar o número de brasileiros que recorrem às plataformas de apostas esportivas e cassinos virtuais com o objetivo de pagar dívidas atrasadas.
O comportamento, mapeado por analistas de consumo e institutos de pesquisa, expõe uma grave crise socioeconômica, onde o jogo deixa de ser uma atividade de lazer e passa a ser encarado, erroneamente, como uma tábua de salvação para a vulnerabilidade financeira.
Estudo recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que o gasto mensal com essas plataformas supera R$ 30 bilhões.
As classes mais afetadas pelo superendividamento
Os indicadores socioeconômicos mostram que o impacto do vício em apostas e do endividamento subsequente é mais severo entre as famílias pertencentes às classes C, D e E. Com o orçamento severamente pressionado pela inflação de alimentos e serviços básicos, indivíduos dessas faixas de renda tornam-se alvos fáceis para campanhas publicitárias agressivas que prometem a multiplicação de depósitos.
Segundo dados de pesquisa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) a população com renda de até dois salários mínimos (R$ 3.242), 40% apostam para elevar o orçamento doméstico.
Para Kelly Carvalho, assessora econômica da Fecomércio-SP, o movimento é preocupante. “É uma falsa percepção de aumento de renda, porque perde-se muito mais. Sabemos que essas plataformas têm algoritmos que fazem questão de não proporcionar ganho sempre de forma consistente”, afirma.
O drama consolida-se quando o dinheiro do aluguel, da prestação do carro ou da feira do mês é transferido para as contas das plataformas. O perda rápida do capital leva ao superendividamento, obrigando o trabalhador a recorrer a empréstimos informais, juros rotativos do cartão de crédito ou ferramentas de cheque especial para tentar cobrir o rombo inicial, destruindo a estabilidade financeira do núcleo familiar.
O comércio local perde espaço
O avanço desenfreado dos gastos com jogos online também redesenha o mapa do consumo regional. Dirigentes lojistas e associações comerciais começam a quantificar o tamanho do desvio: o dinheiro que antes abastecia o comércio varejista, o setor de vestuário e os supermercados locais agora é consumido pelas plataformas eletrônicas.
A mudança no comportamento de gasto compromete a liquidez das empresas locais e reduz a eficácia de mutirões de renegociação de dívidas, uma vez que o consumidor prefere arriscar a sobra de caixa nos aplicativos a limpar o nome nas ferramentas tradicionais de proteção ao crédito.





