Quem compra café no supermercado ou na padaria deve notar preços mais altos e instabilidade nos próximos meses. Embora o país preveja uma safra recorde de 73,3 milhões de sacas de 60 quilos para o ciclo 2026/27, os custos para produzir dispararam.
Essa pressão é resultado do acirramento dos conflitos armados no Oriente Médio e dos impactos climáticos deixados pelo fenômeno El Niño. Para o consumidor final, a conta se traduz em gôndolas mais caras, mexendo no orçamento das famílias e no planejamento do comércio.
Guerra no Oriente Médio encarece os custos da lavoura
O principal canal de transmissão da crise internacional para o campo brasileiro é o mercado de insumos e combustíveis. Como o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, qualquer instabilidade nas rotas marítimas globais eleva o preço do frete internacional e do seguro das cargas.
A produção de adubos nitrogenados depende diretamente de derivados de petróleo e gás, que são afetados pelo conflito. Com as tensões no Oriente Médio, o custo por hectare subiu.
O segundo impacto direto está no preço do óleo diesel, que acompanha a volatilidade do barril de petróleo no mercado internacional. O combustível move os tratores na colheita e serve de base para o transporte rodoviário que escoa a produção até as torrefações e portos.
Impactos do El Niño prejudicam a qualidade dos grãos
Paralelamente ao cenário geopolítico, as lavouras lidam com o fator climático. O fenômeno El Niño alterou o padrão de chuvas e provocou temperaturas acima da média histórica nas regiões cafeeiras durante a florada e o enchimento dos grãos.
Embora a estimativa oficial da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponte para uma safra de 66,2 milhões de sacas em 2026, o calor reduziu o rendimento físico das plantas, gerando grãos menores em algumas localidades.
O café Arábica, com produção projetada em 48,7 milhões de sacas, teve lavouras em Minas Gerais e São Paulo castigadas pelo calor, o que reduziu o tamanho das cerejas e limitou o potencial de qualidade da bebida.
Por outro lado, o café Conilon ou Robusta, com previsão de 24,6 milhões de sacas no Espírito Santo e na Bahia, enfrentou estiagem. Para conter a seca, os cafeicultores acionaram os sistemas de irrigação artificial, o que elevou o consumo de energia elétrica e inflacionou os custos operacionais.
Oscilação de preços no mercado gera incertezas no setor
A combinação de incerteza climática e custos maiores gerou oscilação de preços para o café no mercado de commodities. O comportamento das cotações reflete a disputa entre a grande oferta projetada e o custo real para colocar esse café no mercado.
Em março, o café arábica registrou alta de 3%, seguida por um avanço de 2% em abril. Já o robusta apresentou queda de 9% em março, mas recuperou parte do terreno com uma alta de 2% em abril.
Essa oscilação nas cotações dificulta o planejamento de longo prazo das indústrias de torrefação. Como trabalham com margens estreitas para absorver a alta dos combustíveis e adubos, o repasse para o varejo ocorre de forma escalonada.
Preço do café muda hábitos e aperta orçamento familiar
O aumento do preço do café pesa no orçamento mensal, com impacto mais severo na população de baixa renda, onde os alimentos consomem uma parte maior dos ganhos.
Historicamente, quando o preço do pacote de café sobe no supermercado, o consumidor muda seus hábitos. Ele tende a migrar para marcas mais econômicas ou a reduzir as compras fora de casa.
O mercado varejista sente os reflexos de um cenário em que a instabilidade geopolítica global gera impactos diretos nas gôndolas e altera as despesas diárias dos trabalhadores.
Na outra ponta, os estabelecimentos comerciais de bairro operam com margens cada vez mais apertadas para manter a clientela. Padarias e cafeterias tentam segurar as vendas após o grão atingir um encarecimento expressivo que encarece a xícara tradicional e pressiona o setor de alimentação.

















