O banco pode ‘pegar’ seu dinheiro para pagar dívida? Saiba o que diz a lei

Com recorde de 81 milhões de inadimplentes, especialistas alertam que bloqueios automáticos sem ordem judicial são ilegais

Entenda o que a legislação fala sobre cobranças bancárias e seus limites

Entenda o que a legislação fala sobre cobranças bancárias e seus limites | Ilustração/IA/Gazeta de S. Paulo

Com o recorde histórico de inadimplência em 2026, especialistas alertam sobre os limites legais para bloqueio de contas e destacam que instituições financeiras não podem “congelar” seu saldo de forma arbitrária, segundo apuração do Portal 6.

Com o Brasil atingindo 81,2 milhões de inadimplentes em março deste ano, a dúvida sobre se os bancos podem reter automaticamente o dinheiro da conta para quitar dívidas cresce entre os consumidores.

De acordo com advogados ouvidos, a resposta é clara: somente uma ordem judicial pode determinar esse tipo de bloqueio.

O que a lei realmente diz sobre o bloqueio de contas

Ao contrário do que muita gente pensa, os bancos não têm autorização para bloquear contas unilateralmente por atraso no cartão de crédito ou cheque especial. A retenção de valores só ocorre mediante decisão judicial, que é executada via sistema integrado entre a Justiça e o Banco Central, garantindo que o devedor seja comunicado antes da penhora.

Exceções existem, mas estão ligadas a suspeitas sérias de fraude, lavagem de dinheiro ou irregularidades no CPF, conforme normas de segurança do Banco Central, e não a dívidas comuns.

Por que seu salário e poupança têm proteção especial

Mesmo diante de uma ordem judicial, nem todo dinheiro pode ser penhorado. Conforme o Código de Processo Civil, salários, aposentadorias, pensões e auxílios governamentais possuem “natureza alimentar” e não podem ser penhorados, por serem indispensáveis à sobrevivência.

Valores depositados em caderneta de poupança até o limite de 40 salários mínimos também têm proteção legal, exceto em casos específicos como execução de pensão alimentícia, conforme o art. 833, inciso X, do Código de Processo Civil.

Raio-X da crise: por que 81 milhões de brasileiros estão no “vermelho” em 2026

De acordo com o E.M. Foco o recorde de 81,2 milhões de inadimplentes em março deste ano reflete uma combinação de fatores macroeconômicos que seguem pressionando o orçamento das famílias. Especialistas citados pelo Bantim Advogados apontam que juros altos, inflação persistente em serviços básicos e o acúmulo de dívidas nos últimos anos são os principais motores desse cenário.

O encarecimento do crédito, somado à alta nos preços de energia, combustíveis e alimentação, reduziu o poder de pagamento das famílias, levando muitas a recorrerem ao crédito rotativo e ao cheque especial, o que amplia o endividamento.

Além disso, a instabilidade no mercado de trabalho e o crescimento da informalidade aumentam a vulnerabilidade financeira — criando um efeito em cadeia que amplia o número de devedores.

De acordo com o Indicador de Inadimplência de Pessoas Físicas, elaborado pela CNDL e SPC Brasil, em fevereiro de 2026 o país registrava cerca de 73,7 milhões de consumidores com contas em atraso, o equivalente a 44,11% da população adulta. Cada inadimplente carregava, em média, R$4.992,43 em dívidas, distribuídas entre 2,29 credores.

Os números evidenciam que o endividamento segue elevado, com grande parte concentrada em crédito rotativo, cartão de crédito e dívidas de consumo.

Especialistas consultados destacam que esses dados refletem pressões econômicas mais amplas, incluindo inflação persistente, juros altos e renda familiar comprimida, fatores que mantêm a inadimplência em patamar historicamente alto.

O impacto vai além das finanças pessoais: o Judiciário registra aumento nas ações de cobrança, enquanto instituições financeiras enfrentam maior pressão para cumprir regras e limites legais em processos de cobrança e execução, conforme especialistas ouvidos pelo Valor Econômico.

O que fazer se sua conta for bloqueada

Caso o saldo seja bloqueado, especialistas consultados pelo Valor Econômico recomendam:

  • Identificar a origem: verificar se o bloqueio é judicial (penhora online) ou administrativo do banco.
  • Reunir provas: guardar holerites, extratos do INSS e comprovantes que demonstrem que os valores são necessários à sobrevivência.
  • Contestar: apresentar defesa no processo (via advogado ou Defensoria Pública) se a conta inclui salário ou poupança protegida.
  • Buscar renegociação: utilizar plataformas oficiais como o Consumidor.gov.br ou mutirões de negociação, que em 2025 chegaram a oferecer descontos de até 90% na quitação de débitos, segundo dados da Serasa.


Como destacam especialistas ouvidos pelo Valor Econômico, a informação é a melhor ferramenta contra abusos bancários. Estar endividado é uma situação civil, mas preservar o mínimo essencial é um direito garantido a todo cidadão.

Portanto, conhecer seus direitos, buscar renegociação por canais oficiais e contar com orientação adequada não só protege o consumidor, como também fortalece a responsabilidade das instituições financeiras, — equilibrando o jogo entre bancos e clientes e maior segurança econômica no dia a dia.