O tradicional “bico” mudou de patamar no Brasil. Segundo novos dados do Datafolha, 45% dos brasileiros buscaram fontes alternativas de receita nos últimos meses para compensar a erosão do poder de compra.
O fenômeno indica uma transformação estrutural: o esforço extra tornou-se a estratégia de sobrevivência predominante, atingindo inclusive trabalhadores com carteira assinada que não conseguem mais cobrir o custo de vida apenas com o salário fixo.
Os motores da informalidade
A pressão financeira é mais latente nas classes C, D e E, onde o orçamento doméstico é asfixiado pelo preço de serviços e alimentação.
De acordo com a pesquisa, três pilares sustentam esse movimento: o alto endividamento das famílias, que buscam no trabalho extra uma forma de evitar os juros rotativos; a inflação de itens essenciais; e a expansão da “Gig Economy”, que facilitou o acesso a rendas imediatas via aplicativos de transporte e entregas.
O economista Fabio Bentes, da CNC (Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo), afirma que a busca por renda extra reflete a baixa qualidade dos salários.
“Isso leva a essa busca por complementação de renda em outras atividades, às vezes até nas informais”, pontua Bentes.
Os dados do Datafolha indicam que o emprego formal já não garante o equilíbrio do orçamento doméstico sozinho. A busca por rendas extras revela um desafio estrutural; o descompasso entre a ocupação da mão de obra e salários que cubram o custo de vida essencial da população.
Criatividade por necessidade
O perfil das atividades é diversificado e reflete o “desapego” e a prestação de serviços diretos. Além da logística por aplicativos, ganharam força as vendas de cosméticos e alimentos caseiros, além do comércio de itens usados em marketplaces.
No ambiente digital, aulas particulares e gestão de redes sociais aparecem como as principais frentes de trabalho intermitentes para quem busca liquidez rápida para as despesas mensais.
