Aliança de namoro: de onde surgiu o costume adotado pelo brasileiro?

A ideia de utilizar um anel como símbolo de afeto e posse tem raízes históricas bastante antigas e não é comum em outros países

Minha aliança é toda cravejada de cristais e tem um solitário; a do meu namorado é prata lisa/ Foto: acervo pessoal

Desde nova eu sonhava com meu primeiro namoro, com o pedido, com as alianças e com todos os detalhes românticos possíveis. Não sei exatamente de onde veio essa minha visão de relacionamento, mas achava que era um senso comum.

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Pelo menos na minha realidade, esse ritual é quase um consenso cultural. Depois de uma conversa franca, de uma declaração apaixonada ou de um pedido caprichado, o casal passa a exibir um par de alianças de prata no dedo anelar da mão direita. 

Não é assim no país todo, claro. Sou de Suzano e descobri isso quando riram da minha fantasia na faculdade (que ficava na Vila Mariana) chamando a ideia de “brega”. Mas para muitos, essa troca funciona como o grande divisor de águas entre um envolvimento casual e um relacionamento sério. 

Além de alguns ex-colegas que se acham “legais demais para usar aliança”, esse costume é estranho para jovens de outros países também. Quando estrangeiros chegam ao Brasil, costumam ficar surpresos com o hábito e perguntam com frequência por que os brasileiros usam anéis antes de estarem formalmente noivos.

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De onde vem o costume das alianças de compromisso?

A ideia de utilizar um anel como símbolo de afeto e posse tem raízes históricas bastante antigas. 

Na Roma Antiga, já se utilizava o chamado anulus pronubus, um anel simples feito de ferro ou outros metais que indicava a intenção de compromisso ou a formalização de um contrato entre famílias, em um contexto de noivado.

Com o passar do tempo e o avanço da Europa medieval, entre os séculos XV e XVII, surgiram os populares posy rings, ou anéis de poesia. Essas peças eram anéis trocados por amantes e traziam pequenas frases românticas, poemas ou versos secretos gravados na parte interna do metal, funcionando como um amuleto e uma promessa privada entre o casal, sem necessariamente implicar noivado.

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As alianças no Brasil

Apesar dessas origens históricas distantes na Europa, o modelo do namoro brasileiro atual tem uma história bem mais recente e ligada ao mercado. 

O par idêntico de alianças de prata usado na mão direita se consolidou fortemente no Brasil a partir do final dos anos 1980 e ao longo da década de 1990. Joalheiros e especialistas do setor de joias brasileiro identificaram na época a oportunidade de atender a um desejo dos jovens, que queriam demonstrar fidelidade publicamente. 

A prata foi a solução perfeita por ser um metal nobre e ao mesmo tempo acessível, permitindo diferenciar visualmente a fase do namoro da aliança de ouro, reservada para o noivado e o casamento. 

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A escolha da mão direita seguiu a tradição ibérica e latina de reservar o lado direito para as fases de preparação do matrimônio, enquanto a mão esquerda fica guardada para a união definitiva.

O anel de compromisso pelo Mundo

A aliança de namoro da forma como existe no Brasil é uma verdadeira raridade cultural, mesmo que não seja totalmente predominante no país todo. O costume de usar um par idêntico de prata é compartilhado em escala significativa apenas por alguns vizinhos da América Latina, como Argentina e Chile.

A principal e mais marcante exceção fora do continente americano é a Coreia do Sul. Na cultura sul-coreana, os chamados couple rings são extremamente populares entre o público jovem. 

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A grande diferença em relação ao Brasil é o momento da troca. Enquanto os brasileiros costumam colocar o anel logo no início do namoro para oficializar a relação, os casais sul-coreanos costumam trocar esses anéis para comemorar marcos específicos do tempo do casal. A celebração dos primeiros 100 dias juntos é o momento mais tradicional e esperado para a troca das joias.

O “dating” americano e o estilo europeu

Já em grande parte dos Estados Unidos e da Europa ocidental, o dinamismo das relações amorosas funciona de maneira bem diferente, o que explica a ausência quase total do par de alianças de prata.

Nos Estados Unidos, existe a figura do promise ring, que se traduz como anel de promessa. Contudo, ele não funciona como um par de alianças. Na maioria dos casos, trata-se de uma joia individual presenteada por uma das partes como um compromisso de futuro noivado, sem a exigência de ser feita de prata ou de ser usada em um dedo específico. 

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Além disso, o processo de relacionamento norte-americano é estruturado em etapas graduais. A fase inicial é conhecida como dating ou seeing someone, na qual duas pessoas saem juntas sem nenhum pressuposto de exclusividade.

Apenas após algum tempo de encontros o casal decide ter a chamada conversa de exclusividade, quando combinam que não sairão com outras pessoas. A partir desse momento, passam a se considerar namorados, geralmente sem a necessidade de um pedido solene ou da compra de anéis.

Na Europa ocidental, em países como França, Espanha, Itália e Alemanha, a ideia de fazer um pedido explícito de namoro é algo que soa quase estranho. A transição para um relacionamento sério acontece de maneira fluida e natural pela convivência diária e pela inserção gradual da pessoa no círculo de amigos e na família do parceiro. Eles não formalizam em um jantar especial nem nada assim. Por lá, o uso de anéis antes do pedido formal de casamento é algo extremamente raro.

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Um Fenômeno de vendas e redes sociais

No mercado de joias brasileiro, o impacto desse hábito cultural movimenta números impressionantes. Levantamentos do setor joalheiro e de associações de comércio apontam que as alianças de compromisso em prata chegam a representar entre 30% e 50% das vendas totais de anéis em lojas focadas nesse segmento.

Os picos de vendas ocorrem de forma consistente nos meses de maio e junho, impulsionados pela proximidade do Dia dos Namorados. A faixa etária que mais consome e busca essas peças está concentrada entre os 16 e 28 anos. 

Para as novas gerações brasileiras, a aliança de prata permanece viva não apenas como uma tradição herdada dos anos 1990, mas também como uma forte linguagem visual para marcar a transição de status nas redes sociais e na vida pública. Eu mesma sou apaixonada na minha, claro que fiz questão de anexar uma fotinha na capa desta matéria.