‘Cada dia no palco é único e sagrado’: Tiago Barbosa fala sobre temporada no Brasil

Tiago Barbosa retorna ao Brasil para viver Max em 'Ópera do Malandro' e fala à Gazeta sobre carreira internacional, representatividade e projetos

Depois de uma temporada vivendo na Europa e construindo uma carreira internacional nos palcos, Tiago Barbosa, 42, retornou ao Brasil para viver Max Overseas Navalha. Foto: Yei Phillip

Depois de uma temporada vivendo na Europa e construindo uma carreira internacional nos palcos, Tiago Barbosa, 42, retornou ao Brasil para viver Max Overseas Navalha. Foto: Yei Phillip

Depois de uma temporada vivendo na Europa e construindo uma carreira internacional nos palcos, Tiago Barbosa, 42, retornou ao Brasil para viver Max Overseas Navalha, o protagonista de “Ópera do Malandro – Na visão de Jorge Farjalla”, em cartaz no Rio de Janeiro até o próximo domingo (30/8).

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Conhecido por protagonizar musicais como “O Rei Leão”, “Kinky Boots”, “Rent” e “Wicked”, além de interpretar Milton Nascimento em “Clube da Esquina – Os Sonhos Não Envelhecem”, o ator chegou à montagem com experiências acumuladas entre Brasil e Europa e uma trajetória marcada por desafios, reinvenções e representatividade.

Primeiro ator negro a interpretar o malandro Max no teatro, Tiago, nascido em São João do Meriti, no Rio de Janeiro, incorpora ao personagem referências de sua vivência na favela, do samba e do funk.

Em conversa exclusiva com a Gazeta, ele fala sobre o reencontro com suas origens, as marcas deixadas pela carreira internacional, os desafios do teatro brasileiro, a vontade de ampliar sua atuação no audiovisual e a nova etapa profissional que o espera na Europa.

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Leia abaixo o bate-papo completo:

Você construiu uma carreira muito forte no teatro musical aqui no Brasil e na Europa, e agora volta pra cá para interpretar Max Overseas, um personagem criado por Chico Buarque. O que muda na sua relação com um personagem quando ele está inserido em uma obra tão profundamente ligada à cultura brasileira?

“É um grande prazer poder fazer esse caminho de volta à minha língua, cultura e origens! É uma sensação de volta ao ventre! Minha entrega em relação àquele personagem e trabalho não é diferente da que tenho com o que faço fora do Brasil, mas a relação emocional é mais profunda e íntima! Mexe comigo todo retorno, mexe comigo a possibilidade de ver amigos de infância e pessoas que acompanharam meu processo artístico ali, vendo aquele show. Empresto um pouco do Tiago pra aquele personagem! O Max é bem distante do Tiago, então tive que buscar outras referências.”

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Você é o primeiro ator negro a interpretar Max no teatro. O que a sua experiência como homem negro e como artista brasileiro acrescentou à construção desse malandro?

“A minha vivência como corpo negro dentro dessa sociedade, a malandragem pra viver e encarar as adversidades raciais todos os dias, entrar ou não em algumas lutas, que às vezes são só gasto de energia, e, em outras, ir pra luta, mas sempre com muita sagacidade! Max é atual. Queria levar meu morro, minhas referências pra ele, carisma, samba, funk e voz.”

Depois de quase três anos vivendo intensamente a carreira internacional, como você percebe o meio artístico no Brasil hoje? E como percebe a si mesmo enquanto artista brasileiro? Existe algo que você passou a enxergar de outra maneira depois de viver tantos anos fora?

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“Passei a valorizar muito mais a temporada no Brasil quando venho pra cá! Cada dia no palco é único e sagrado! As relações interpessoais.

A minha primeira volta em longa temporada foi com o ‘Clube da Esquina’. Ali foi um choque pra mim! Fazia muito tempo que eu não regressava à minha terra, à minha família, que não voltava a ver TV no Brasil, publicidade! Ver tanta gente negra na TV me emocionou muito! Ver tantos jovens com black power e seu cabelo afro pelas ruas e com tanta autoestima foi muito importante naquele processo! Ver que estávamos avançando e que o meu país havia avançado.

Quanto ao meio artístico, ainda vejo que precisamos de atenção e de leis que acompanhem as produtoras! Existem muitas coisas complicadas no setor: maus-tratos, abuso de poder, entre outras situações constrangedoras pelas quais alguns artistas passam para manter um trabalho e pagar suas contas no fim do mês! Isso, lá fora, é inadmissível.”

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Você trabalhou em produções como ‘O Rei Leão’, ‘Kinky Boots’ e ‘Rent’, além de ter vivido Milton Nascimento em Clube da Esquina. Esses personagens e universos tão diferentes deixaram uma marca em você como artista?

“Cada um desses personagens deixou suas impressões digitais marcadas! Mas tenho que deixar claro que, às vezes, um trabalho pode ser somente mais um trabalho. Essa é a parte mais delicada! Nem todo projeto vem para somar e fazer diferença ou transformação na nossa vida! Às vezes, é um pagar de contas. Mas me sinto um afortunado! Se posso destacar dois desses projetos, vão ser Kinky Boots e Clube da Esquina! Foram projetos que me moldaram, fizeram um rebuliço dentro de mim.”

Há uma diferença importante entre interpretar personagens de grandes musicais internacionais e interpretar uma figura de uma obra como Ópera do Malandro, que carrega uma leitura muito particular do Brasil. Você sente que sua experiência na Europa mudou a maneira como você interpreta ou compreende o brasileiro?

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“De certa forma, sim. Eu, como artista, me tornei mais técnico! Mais visceral! Entendo e busco o processo de cada personagem! Gosto de conhecer, conversar, entender as aspirações do diretor e, lógico, deixá-lo entrar em meu universo, para que a criação daquele personagem seja boa e coletiva.”

Você e José Loreto escolheram construir dois Max diferentes, ao invés de tentar chegar a uma mesma interpretação. Para você, o que é mais desafiador em dividir um personagem: preservar a sua identidade artística ou encontrar pontos de diálogo com a leitura do outro ator?

“O Farja [ Jorge Farjalla] me deixou bem livre para a construção do Max. Existem marcas que precisam ser respeitadas! Mas o olhar para o personagem é algo muito particular! Cada um tem uma vivência e um mergulhar social distinto! Eu sou apaixonado pelo Max do meu amigo! E o meu Max tem outras particularidades! Eu queria muito levar a minha vivência da favela, da escola de samba e do meu conhecimento vocal para o Max!”

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Você chegou à montagem já na reta final dos ensaios, depois de anos trabalhando em outro país. Como foi voltar a um processo criativo brasileiro e, ao mesmo tempo, entrar em uma obra que já tinha uma linguagem estabelecida?

“Muito desafiador! Tudo estava contra, na verdade. Cheguei ao Brasil com a diferença de cinco horas entre Brasil e Espanha! Depois de dez horas de voo, cheguei já na mesa de leitura! Um espetáculo que já havia rodado antes! Um personagem que já havia sido feito e muito texto para pouco tempo! Comecei a despertar às 4h30 da manhã todos os dias para poder estudar, buscar referências, treinar para manter a qualidade física para o personagem e dar conta do recado.”

Você contou que “Beleza Fatal” despertou sua vontade de fazer mais audiovisual. O que o cinema e a televisão oferecem ao ator que é diferente da experiência do palco, e que tipo de personagem você gostaria de descobrir nesse território?

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“Eu gosto muito dos desafios! Até aqui, tenho encontrado produtores e diretores que acreditam em meu potencial artístico e que sempre me enviam desafios, como Lola, Milton, Max, e assim também foi com Hostel, de Beleza Fatal. Anseio pelo momento de trabalhar mais no audiovisual.”

O que ainda falta conquistar profissionalmente para você sentir que está realizando o projeto de carreira que você sonhou?

“Me sinto realizado e pleno até aqui! Construir uma carreira internacional não é fácil! Manter é mais complicado ainda! Inicio agora uma nova jornada em um novo país, França, com um novo espetáculo em que vou protagonizar! Isso vai ser um grande marco na minha carreira!”

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Olhando para o Tiago que deixou o Brasil e para o Tiago que está voltando agora, o que você acha que mudou?

“O Tiago que foi para a Espanha já era um grande visionário, em busca de novas oportunidades! O Tiago que regressou é um homem de 42 anos, com uma bagagem imensa de resiliência, vontade… Tornei-me um ator mais técnico e, ao mesmo tempo, intenso! A Espanha me moldou para fazer dez espetáculos por semana e manter a qualidade física e técnica, e essa volta ao Brasil me deixou muito mais preciso.”

Conheça ‘Ópera do Malandro’

Um dos pilares do teatro musical brasileiro, o espetáculo “Ópera do Malandro” fez sua temporada de estreia no começo do ano, na capital paulista.

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A produção revisita o texto clássico de Chico Buarque, inspirado na obra “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, mantendo seu viés crítico e revisitando temas como moralidade, poder, corrupção e liberdade, sempre com o humor ácido e a poesia característicos do cantor carioca, em uma adaptação e encenação assinadas por Jorge Farjalla. 

Em comemoração aos quase cinquenta anos do texto original, que teve sua estreia em 1978, dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa, a peça busca uma leitura que dialogue com o presente, ressaltando as raízes populares da obra e sua herança brechtiana.

Com clássicos como “Folhetim” e “Geni e o Zepelin”, músicas escritas por Chico Buarque para a montagem e que, quase instantaneamente, caíram na boca do povo, Farjalla propõe para esta nova e inédita montagem uma estética festiva e participativa para a encenação, aproximando o público da trama.

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No centro da narrativa, ambientada no bairro carioca da Lapa dos anos 40, está Max Overseas Navalha, um contrabandista bem-sucedido cujo casamento secreto com Teresinha, filha de Duran e Vitória Régia, donos de uma rede de bordéis e aspirantes à alta sociedade, desencadeia uma série de conflitos entre corrupção, alianças e traições, formando uma engrenagem social que espelha a hipocrisia e os arranjos de poder no Brasil.

Serviço

  • Onde? Teatro Multiplan – VillageMall  – Av. das Américas, 3.900 – Barra da Tijuca, 22640-102 
    Rio de Janeiro – RJ
  • Quando? Até domingo (30/8)
  • Quanto? Ingressos a partir de R$ 25, disponíveis através da plataforma Sympla