A juventude de Brasília, nos anos 1980, transformou o tédio das linhas planejadas por JK em uma revolução musical. No centro desse movimento estava Renato Russo, carioca radicado na capital desde 1973, que converteu o isolamento geográfico no combustível poético para fundar a Legião Urbana em 1982 e marcar a história do país.
O refúgio criativo na Asa Sul
A história de Renato com a cidade ganhou força na Superquadra Sul 303. Diagnosticado com epifisiólise, uma grave patologia óssea, o jovem passou por cirurgias e longos meses confinado ao leito, onde se refugiou em livros, discos e no cinema.
Foi nessa reclusão forçada na Asa Sul que ele começou a esboçar composições e a idealizar bandas fictícias. Esse período de isolamento funcionou como um verdadeiro laboratório para a bagagem cultural que ele consolidaria anos mais tarde.
Do movimento punk ao nascimento do mito
Após recuperar a mobilidade, Renato passou a dar aulas de inglês e a frequentar o cenário cultural local. Em 1978, fundou o Aborto Elétrico, grupo pioneiro do punk candango, ao lado dos irmãos Fê e Flávio Lemos, futuros membros do Capital Inicial.
Atritos internos e a busca de Renato por um caminho mais lírico e melódico ditaram o fim da banda. Após uma rápida fase solo como “O Trovador Solitário”, ele uniu forças com o baterista Marcelo Bonfá para dar vida à emblemática Legião Urbana.
A conquista do topo das paradas
Embora a estreia tenha ocorrido em Patos de Minas, foi nos palcos improvisados do Distrito Federal que o grupo lapidou o repertório que conquistaria o Brasil. As letras maduras e contestadoras logo chamaram a atenção da gravadora EMI-Odeon.
O disco de estreia, em 1985, trouxe hinos como “Será” e vendeu 550 mil cópias, projetando a chamada “Turma de Brasília” nacionalmente. O sucesso foi consolidado logo depois com o álbum “Dois”, que imortalizou clássicos como “Tempo Perdido”.
O estopim e o adeus definitivo à capital
A consagração nacional com o álbum “Que País é Este” cobrou seu preço em junho de 1988. Durante um show tumultuado no Estádio Mané Garrincha, marcado por falhas de organização, um fã conseguiu invadir o palco e agarrou o vocalista pelo pescoço.
Assustado e irritado com a falta de segurança, Renato Russo desabafou ao microfone, gerando revolta no público. O episódio terminou em um quebra-quebra generalizado, selando o divórcio definitivo da Legião Urbana com os palcos de sua terra natal.






