Quem vê o Menos é Mais no palco pode imaginar que quatro horas de Churrasquinho exigem concentração total antes do show. Nos bastidores, porém, a cena é outra: tem resenha, brincadeira e música entre Duzão, Paulinho, Góes e Ramon. Em entrevista exclusiva à Gazeta, o grupo de pagode detalhou a preparação para a nova turnê.
Acho que a galera imagina que ficamos superconcentrados antes de um show de quatro horas, mas, muitas vezes, acontece exatamente o contrário. Tem muita resenha, brincadeira, música… É muito do nosso jeito mesmo, conta Duzão
O Menos é Mais leva o Churrasquinho -+ a São Paulo neste sábado (3/10), em mais uma parada da turnê de 2026. A apresentação terá o palco 360º, formato que coloca o grupo no centro do público e reforça justamente a sensação de proximidade que marcou a origem da roda de pagode.
Quando a hora de entrar no palco se aproxima, a brincadeira dá lugar a um momento reservado aos quatro integrantes. Eles se reúnem para agradecer, conversar e lembrar da responsabilidade de fazer o show acontecer.
Pode ser o nosso centésimo Churrasquinho, mas, para muita gente que está ali, é o primeiro”, explica o cantor.
Essa combinação entre planejamento e improviso também aparece durante a apresentação. O grupo tem um roteiro para organizar um repertório que pode ultrapassar quatro horas, mas não pretende seguir tudo de maneira rígida. Pedidos da plateia, músicas que surgem de repente e brincadeiras podem mudar o caminho da noite.
Às vezes, alguém puxa uma música, a galera começa a cantar e nós vamos junto. Essa liberdade faz parte do projeto desde o início. Se for preciso sair do repertório, a gente sai”, afirma Paulinho.
O palco que muda a lógica do show
A espontaneidade vista pelo público, entretanto, depende de uma operação bastante complexa. O palco 360º é um dos exemplos: em vez de uma frente única, os integrantes ficam cercados pela plateia, o que muda a logística de som, iluminação, segurança, acessos técnicos e circulação das equipes.
O palco 360º é um dos elementos que contribuem para a sensação de proximidade do Churrasquinho, mas também exige uma engenharia operacional muito mais cuidadosa”, explica Cristóvão Neto, sócio do Grupo Onda.
A montagem de cada edição leva de quatro a seis dias. Nesse período, o espaço recebe palco, áreas técnicas, bares, cenografia, iluminação, sonorização e toda a infraestrutura necessária para receber o público.
Para Cristóvão, o objetivo é justamente fazer com que todo esse trabalho desapareça quando os portões forem abertos. “O público não vê a construção de uma cidade temporária antes da abertura dos portões”, afirma.
A espontaneidade está na experiência de quem participa; a disciplina está nos bastidores.
Cada edição envolve cerca de 300 a 500 profissionais diretos e entre 1.500 e 2.000 indiretos, segundo a organização do evento. O projeto também já realizou edições em 2022, 2023 e 2024, reunindo um público estimado em 260 mil pessoas.
Da roda de 2019 à label
O contraste entre a dimensão atual e a origem do projeto é justamente o que ainda surpreende o Menos é Mais. O primeiro Churrasquinho foi gravado em 2019, de maneira despretensiosa, com os integrantes reunidos em torno de uma mesa, fazendo churrasco e tocando para amigos.
Góes conta que não houve um momento específico em que o grupo percebeu que aquilo poderia se transformar em um dos maiores projetos da carreira. A dimensão foi aparecendo conforme os vídeos ganharam força, o projeto virou show e começou a viajar pelo Brasil.
Até hoje, às vezes, olhamos para tudo isso e pensamos: ‘Como é que aquele churrasco virou tudo isso?’”, diz.
A transformação também fez o Churrasquinho ganhar identidade própria e se consolidar como label. Para Góes, entretanto, existe uma pergunta que continua orientando o projeto: “Ainda parece um churrasco?”. A resposta, segundo ele, precisa ser positiva mesmo quando palco, público e produção aumentam.
Essa preocupação também aparece na forma como o grupo enxerga cada cidade. Duzão afirma que não existe uma edição exatamente igual à outra, porque cada público devolve a experiência de uma maneira diferente.
Aquela resenha que começou em Brasília ganhou diferentes sotaques. Cada cidade pega um pouco do Churrasquinho pra si.
Um novo capítulo em Brasília
Enquanto a turnê de 2026 segue pelo País, o Menos é Mais prepara outro projeto ligado diretamente à própria trajetória. Góes conta que o grupo está construindo “TRILHA”, novo DVD que será gravado em Brasília, onde a história do grupo começou.
A gravação acontecerá na Arena Mané Garrincha, e o grupo ainda promete outras novidades para o ano.
Se contarmos agora, deixa de ser surpresa, né? Então a galera vai ter que acompanhar”, brinca Góes.
O Churrasquinho, portanto, continua crescendo sem abandonar a fórmula que o criou. Para Duzão, talvez esteja justamente aí a explicação para a dimensão que o projeto alcançou: eles nunca começaram pensando no tamanho que a roda poderia ter.
Não começamos o Churrasquinho pensando até onde ele poderia chegar. Começamos porque era aquilo que gostávamos de fazer: reunir pessoas, tocar pagode e fazer uma boa resenha.
Ping-Pong — Menos é Mais
Em que momento vocês perceberam que aquela roda de churrasco entre amigos poderia virar um dos maiores projetos do Menos é Mais?
Goes: Acho que não houve um momento exato, porque o Churrasquinho foi nos surpreendendo a cada etapa. Quando gravamos o primeiro, em 2019, tudo era muito despretensioso. A ideia era reunir a galera, fazer um churrasco e tocar as músicas que a gente gostava. Quando os vídeos começaram a ganhar força na internet, percebemos que havia algo diferente acontecendo ali. Depois, o projeto foi alcançando uma proporção que ninguém imaginava. Virou show, começou a viajar pelo Brasil e a reunir públicos cada vez maiores. Acho que fomos entendendo a dimensão do Churrasquinho com a galera. Até hoje, às vezes, olhamos para tudo isso e pensamos: “Como é que aquele churrasco virou tudo isso?”
Qual foi a coisa mais difícil de abrir mão ou adaptar quando o Churrasquinho deixou de ser uma roda entre amigos e virou um evento para milhares de pessoas?
Ramon: Acho que preservar a espontaneidade é o maior desafio. Não porque ela tenha deixado de existir, mas porque hoje existe uma estrutura gigantesca por trás de tudo. Quando você faz uma roda para poucas pessoas, se der vontade de mudar alguma coisa na hora, simplesmente muda. Quando há milhares de pessoas, além de equipe, horários e toda uma produção envolvida, tudo precisa estar muito mais organizado. O desafio é justamente fazer com que toda essa estrutura funcione sem que ela fique evidente para quem está curtindo. Queremos que a pessoa entre e continue sentindo que foi convidada para um churrasco com a gente, mesmo com uma operação enorme acontecendo nos bastidores.
O que acontece nos bastidores do Churrasquinho que o público não imagina? Existe algum ritual do grupo antes do show?
Duzão: Acho que a galera imagina que ficamos super concentrados antes de um show de quatro horas, mas, muitas vezes, acontece exatamente o contrário. Tem muita resenha, brincadeira, música… É muito do nosso jeito mesmo. Quando vai se aproximando a hora do show, porém, a gente se reúne. Temos aquele momento só nosso antes de entrar no palco, para agradecer, trocar uma ideia e lembrar da responsabilidade de fazer aquele show acontecer. Pode ser o nosso centésimo Churrasquinho, mas, para muita gente que está ali, é o primeiro. Então tentamos ir pro palco sempre com essa consciência.
Como vocês escolhem o repertório de um show que pode passar de quatro horas? Existe espaço para pedidos do público ou improvisos?
Paulinho: Dá trabalho, viu? O repertório do Churrasquinho ficou muito grande. Tem as músicas que a galera já espera ouvir, as nossas autorais, novidades que queremos incluir e também aquelas que surgem espontaneamente durante o show. Existe um roteiro planejado, porque uma apresentação desse tamanho precisa ter uma estrutura, mas o Churrasquinho nunca pode ficar engessado. Observamos muito a reação do público. Às vezes, alguém puxa uma música, a galera começa a cantar e nós vamos junto. Essa liberdade faz parte do projeto desde o início. Se for preciso sair do repertório, a gente sai.
Qual foi a situação mais inusitada ou engraçada que vocês já viveram durante um Churrasquinho?
Ramon: Rapaz, escolher uma é difícil. Em um show que dura quatro horas, com quatro caras que gostam de resenha em cima do palco, sempre acontece alguma coisa. Já teve música que começou sem ninguém combinar, brincadeira que virou assunto durante o show inteiro e situações no meio do público que fizeram a gente parar tudo para comentar. Essa é uma das coisas mais legais do Churrasquinho: nem nós sabemos exatamente tudo o que vai acontecer. Existe uma estrutura, claro, mas sempre surge algo que só quem esteve naquela edição vai entender depois.
Tem alguma cidade ou edição que ficou especialmente marcada para vocês por causa da reação do público? O que aconteceu?
Duzão: É muito difícil escolher apenas uma, porque cada lugar recebe e devolve o Churrasquinho de um jeito diferente. Tem cidade em que a galera começa a cantar antes da gente, outras em que você tira o retorno e continua ouvindo tudo, além daqueles momentos em que simplesmente paramos de cantar porque nem é necessário. Isso é muito especial porque viajamos pelo Brasil inteiro e percebemos que aquela resenha que começou em Brasília ganhou diferentes sotaques. Cada cidade pega um pouco do Churrasquinho pra si. Por isso, várias edições ficaram marcadas pra gente, cada uma por um motivo diferente.
Com o crescimento do projeto, existe algum receio de que o Churrasquinho perca aquela sensação de “churrasco entre amigos”? Como vocês evitam isso?
Goes: Esse cuidado existe desde que o projeto começou a crescer. Porque é muito fácil aumentar o palco, o público e a produção. O difícil é fazer tudo isso sem aumentar a distância entre a gente e quem está ali. Pra gente, o Churrasquinho não é apenas um nome ou um formato de show. É um jeito de tocar. A proximidade, a resenha, uma música emendando na outra, a sensação de que a galera está participando, e não apenas assistindo, são a essência do projeto. Então, a estrutura pode ficar cada vez maior, mas sempre voltamos à mesma pergunta: ainda parece um churrasco? Se a resposta for sim, estamos no caminho certo.
O que vocês prepararam para 2026 que ainda não podem contar totalmente ao público?
Goes: Tem sido um ano muito importante pra gente. Muita coisa tá rolando e ainda existem algumas surpresas que não podemos revelar. O que já dá para contar é que estamos vivendo um momento muito especial, principalmente com a construção da TRILHA, nosso novo DVD, que tem uma ligação enorme com a nossa história. Vamos voltar a Brasília, onde tudo começou, para gravar esse novo capítulo na Arena Mané Garrincha. E ainda há outras novidades sendo preparadas. Mas, se contarmos agora, deixa de ser surpresa, né? Então a galera vai ter que acompanhar.
Se vocês pudessem voltar à primeira roda de Churrasquinho e contar onde o projeto chegaria, vocês acreditariam?
Duzão: Nem nos melhores sonhos! Se alguém chegasse naquele dia e contasse tudo o que aconteceria, provavelmente mandaríamos a pessoa parar de viajar. Imagina dizer para aqueles quatro caras: “Esse vídeo que vocês estão gravando vai ultrapassar um bilhão de visualizações, virar uma label, rodar o Brasil e reunir milhares de pessoas. Essa roda vai mudar a vida de vocês”. Não tinha como acreditar. E talvez seja justamente isso que torne tudo ainda mais especial. Não começamos o Churrasquinho pensando até onde ele poderia chegar. Começamos porque era aquilo que gostávamos de fazer: reunir pessoas, tocar pagode e fazer uma boa resenha. No fim, foi justamente essa verdade que levou o projeto tão longe.




