‘Quando você é artista, você que ‘ser’ alguém que você admira muito; e o Gilberto Gil era a pessoa que eu queria ser’: Gui Ventura fala sobre interpretar Gil no teatro

Com direção de Miguel Falabella, 'GIL – ANDAR COM FÉ' revisita memórias, encontros e canções que marcaram a carreira do artista

Para interpretar o protagonista Gilberto Gil, a produção escolheu Gui Ventura, ator, cantor, músico e compositor mineiro de Santa Luzia. Foto: Gabriel Wickbold

Para interpretar o protagonista Gilberto Gil, a produção escolheu Gui Ventura, ator, cantor, músico e compositor mineiro de Santa Luzia. Foto: Gabriel Wickbold

A vida e a obra de Gilberto Gil chegam aos palcos em “GIL – ANDAR COM FÉ”, superprodução inédita do teatro musical brasileiro que estreia em São Paulo. O espetáculo ocupa o Teatro Santander, no Complexo JK Iguatemi, com direção de Miguel Falabella e dramaturgia de Newton Moreno.

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A montagem propõe um mergulho em diferentes momentos da trajetória do artista, reunindo música, memória e personagens que fizeram parte de sua história.

“Os grandes sucessos do Gil estão nesse espetáculo. Eu acho que o foco mais importante não é contar cada detalhe da história dele, até porque isso a gente pode ver na internet. Minha ideia é provocar no público uma experiência geracional, de uma época, de um som que se ouvia naquele período, da canção de protesto, do que foi para essa geração viver nesse País, os ‘Anos de Chumbo’, o exílio. Gil é um criador incansável, um homem que só merece o nosso respeito”, reflete o diretor Miguel Falabella em conversa com a Gazeta.

Trama parte do exílio

A narrativa parte do período em que Gil esteve exilado em Londres ao lado de Caetano Veloso, passagem que marcou profundamente sua vida e sua produção artística, para revisitar também a infância em Ituaçu, a formação em Salvador, a passagem pelos palcos do Rio de Janeiro e de São Paulo e acontecimentos importantes de sua carreira.

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Entre essas lembranças está o histórico show “Barra 69”, realizado antes da partida forçada de Gil do Brasil em 1969. Antes do exílio, logo após a promulgação do AI-5 pela Ditadura Militar, o artista ficou 54 dias preso. Ele foi considerado pelo regime uma “ameaça política e cultural”.

Ao longo da narrativa, o espetáculo também aborda o retorno ao País após mais de dois anos no exílio e a consolidação de uma obra que atravessou diferentes gerações.

‘Tempo-Rei’: guia de Gil pela sua história

Um dos elementos centrais da dramaturgia é Tempo-Rei, personagem de caráter mítico que conduz Gil por suas próprias memórias. Mais maduro, ele funciona como uma espécie de guia e consciência, aproximando diferentes fases da vida do cantor e criando diálogos entre o artista jovem e aquele que olha para sua trajetória no futuro.

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O espetáculo reúne nomes fundamentais para a formação pessoal e artística de Gilberto Gil. Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Luiz Gonzaga, Sandra Gadelha, Jorge Mautner, Jards Macalé, Roberto Carlos e Nana Caymmi aparecem entre as figuras relacionadas à trajetória do músico.

A família também ocupa espaço importante na narrativa, com a presença de filhos, netos, da bisneta Flor e de Flora Gil, companheira do artista.

“Tá sendo maravilhoso fazer a Flora. Eu fiquei meio obcecada por ela quando eu comecei a estudar, porque a Flora é um mulherão, uma pessoa que uniu a família Gil, abraçou todos os filhos dele. Eu acho ela super moderna, estilosa, cheirosa [rs]. E tá sendo uma honra contar essa história, eu sou muito fã do Gil, então, estar aqui no teatro de quinta a domingo, cantando essas músicas, e ainda sendo paga pra isso [rs], é incrível”, fala Bel Lima, responsável por dar vida à Flora Gil na peça.

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Músicas conduzem a narrativa

A música é um dos principais recursos da montagem. Canções como “Eu Vim da Bahia”, “Andar com Fé”, “Aquele Abraço”, “Domingo no Parque”, “London, London”, “Tempo-Rei”, “Se Eu Quiser Falar com Deus”, “Drão”, “Vamos Fugir”, “Back in Bahia”, “Palco”, “Realce” e “Toda Menina Baiana” integram o repertório e ajudam a conduzir a narrativa.

As composições aparecem relacionadas a momentos de saudade, exílio, resistência, descoberta e celebração.

Gui Ventura é Gilberto Gil

Para interpretar o protagonista, a produção escolheu Gui Ventura, ator, cantor, músico e compositor mineiro de Santa Luzia. O artista foi selecionado depois de um processo de audições que reuniu mais de 800 candidatos.

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Criado na periferia de Santa Luzia, Gui cresceu em um ambiente marcado pela música, pelas artes visuais e pela cultura popular. Estudou violão na Universidade de Música Popular Bituca e teve suas primeiras experiências com teatro no Grupo Ponto de Partida. 

No palco, iniciou a carreira profissional no musical “Madame Satã”, dirigido por João das Neves, e posteriormente passou a atuar também no audiovisual e na música autoral.

Quando você é um artista, normalmente você que ‘ser’ alguém que você admira muito. E o Gilberto Gil era a pessoa que eu queria ser. Pelo trabalho dele, uma inspiração imensa, e até mesmo pela semelhança. Quando eu conheci ele, foi muito emocionante, o Gil tem uma coisa meu ‘oracular’, parece que ele sabe das coisas, eu sempre me ‘nutri’ muito dele para me conhecer melhor. E para além da obra, o Gil é um grande ser humano. E passou um filme na minha cabeça né, da minha trajetória. Eu pensava: ‘olha só, estamos aqui, depois de tantos trancos e barrancos, a fé me coroou com esse trabalho’. Foi lindo, conta Gui Ventura em entrevista à Gazeta.

34 artistas

O elenco de “GIL – ANDAR COM FÉ” reúne 34 artistas. Ao lado de Gui Ventura, Guga Barbosa interpreta Tempo-Rei, personagem que conduz a trajetória de Gil e também assume figuras como Luiz Gonzaga e João Gilberto. 

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Henrique Zamith interpreta Caetano Veloso, apresentado na história como um parceiro fundamental de Gil na Tropicália e durante os anos de exílio. Já Bel Lima vive Flora Gil, personagem associada a uma fase mais serena da vida do artista.

“Caetano Veloso é um grande intelectual, um músico que traz uma sensibilidade imensa pra gente. Interpretar ele é uma honra gigantesca, porque ele é sinônimo de amor, de luta e de insistência pra seguir àquilo que a gente acredita”, comenta Henrique Zamith sobre interpretar o irmão de Maria Bethânia no musical.

O restante do elenco é formado por Mariel, Luci Saluzzi, Calu Manhães, Pamella Machado, Letícia, Maria Antônia Ibraim, Chico Rubens, Jesus Jadh, Ofà Lówò, Maurício Reducino, Analuhh, Juliana Teixeira, Ygor Zago, Bia Vasconcellos, VEHTZ, Lubo, Paula, Miessa, Vinícius, Loyola, Natália Antunes, Thiago Alves, Vitor Vieira, Joyce Cosmo, Ágata Matos, Antônia Medeiros, Jeison Lopes, Moira Osório, Mari Saraiva, Tiago Dias, Pedro Arrais e Romes Pinheiro.

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Os intérpretes se dividem entre personagens que aparecem em diferentes períodos da vida de Gil, acompanhando desde sua infância até a formação musical, a Tropicália, a prisão, o exílio em Londres, o retorno ao Brasil e a consagração de sua obra.

Amores, amigos, família e inspirações

A dramaturgia também recupera relações pessoais importantes. Belina Paraíso, primeira namorada de Gil, e Sandra Gadelha, sua primeira esposa, fazem parte da história, assim como Dedé Gadelha, irmã de Sandra e companheira de Caetano Veloso. Flora Gil representa uma etapa posterior da vida do artista, enquanto Preta Gil aparece na narrativa a partir da relação de Gil com a paternidade.

A montagem traz ainda representações de nomes importantes da música e da cultura brasileira, como Gal Costa, Maria Bethânia, Elis Regina, Nana Caymmi, Luiz Gonzaga, João Gilberto, Chico Buarque, Rita Lee e Os Mutantes, Chacrinha e Flávio Cavalcanti.

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“Pra mim tá sendo uma grande honra ser a Bethânia pela segunda vez. Primeiro porque ela é uma grande mulher, com tantos ensinamentos, segundo porque agora estamos contando a história de Gil, tudo dentro dos ‘Doces Bárbaros’, que são puro amor. Confesso que me dá um friozinho na barriga, não é brincadeira fazer a Bethânia não, mas estou aqui, firme e forte, bebendo de todas as fontes possíveis. Está sendo linda essa oportunidade que estou tendo de mergulhar ainda mais na história dela e contar outras nuances dessa mulher”, conta Calu Manhães, atriz que também foi responsável por interpretar Maria Bethânia em “Gal, o Musical”.

A família também é resgatada a partir de figuras fundamentais para a formação de Gil. A avó Lydia, que alfabetizava os netos na cozinha de casa; o pai, José, médico negro que levou a família para Ituaçu; a mãe, Claudina, que identificou e estimulou desde cedo o talento musical do filho; e a irmã Gildina, dona do violão que Gil acabou tomando para si, aparecem como parte dessa memória.

Com direção musical de Thiago Gimenes, “GIL – ANDAR COM FÉ” combina a trajetória pessoal e artística de Gilberto Gil a um repertório que se tornou parte da memória musical brasileira. O espetáculo chega ao palco do Teatro Santander como uma narrativa construída a partir de canções, encontros e lembranças que atravessam diferentes fases da vida do artista.

Serviço – ‘Gil – Andar com Fé’

  • Quando? Até 29 de novembro
  • Onde? Teatro Santander – Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 – Complexo JK Iguatemi – São Paulo
  • Quanto? Ingressos a partir de R$ 25, disponíveis através da plataforma Sympla
  • Duração: 2h20, com intervalo de 15 minutos
  • Classificação indicativa: 12 anos