Ao acordar no meio da noite e olhar para o relógio, muita gente já fez a mesma conta mental: “faltam só mais quatro horas de sono”. Esse cálculo automático, repetido noite após noite, é hoje reconhecido por especialistas como um possível sintoma de um transtorno do sono em ascensão: a ortossonia.
O termo descreve a busca compulsiva pelo sono perfeito, geralmente alimentada por dados de relógios inteligentes, anéis e aplicativos de monitoramento. Paradoxalmente, quanto mais a pessoa tenta controlar e otimizar o próprio descanso, pior ele tende a ficar.
Por que medir o sono pode atrapalhar o sono?
A tecnologia vestível prometeu revolucionar o autocuidado, oferecendo dados sobre frequência cardíaca, passos e, claro, qualidade do sono. Mas essa vigilância constante tem um efeito colateral pouco discutido.
Segundo especialistas em medicina do sono, os relógios inteligentes tornaram as pessoas hiperconscientes dos próprios padrões de sono, a ponto de isso se tornar contraproducente.
A recomendação é confiar mais na sensação real de descanso do que nos números exibidos na tela. “Você se sente descansado ou cansado?” é a pergunta que realmente importa.
O que é ortossonia e quais são seus sintomas?
O conceito surgiu em um artigo científico de 2017, assinado por pesquisadores americanos. O trabalho citava o caso de um paciente que recebeu um monitor de sono de presente e passou a perseguir a meta de dormir oito horas por noite.
Em vez de melhorar, seu sono piorou: a frustração por não bater a meta gerava mais ansiedade, que por sua vez prejudicava ainda mais o descanso.
Os principais sinais de alerta incluem:
- Checagem repetida e compulsiva do aplicativo de sono;
- Ansiedade e frustração relacionadas à pontuação obtida;
- Dificuldade para adormecer ou permanecer dormindo por causa do estresse gerado pelos próprios dados.
O termo ainda não é reconhecido como diagnóstico oficial, mas um estudo americano de 2024 estima que entre 3% e 14% da população dos EUA apresenta sintomas compatíveis com a condição, dependendo dos critérios adotados.
Precisão dos aparelhos
Ainda existe um fator importante: nem mesmo os monitores mais avançados são totalmente precisos. Isso significa que pessoas que, na prática, dormem bem podem passar a acreditar no contrário e esse próprio pensamento já é suficiente para prejudicar o sono real.
Pesquisadores noruegueses desenvolveram recentemente a Escala de Ortossonia de Bergen (BOS), um instrumento para tentar mensurar o fenômeno com mais precisão, ainda que o quadro continue fora dos manuais oficiais de diagnóstico.
Existe tratamento para a ortossonia?
Em muitos casos, o problema pode ser resolvido com uma simples pausa no monitoramento digital do sono. Abrir mão temporariamente do aplicativo ou do relógio pode ser suficiente para quebrar o ciclo de ansiedade.
Além disso, manter hábitos tradicionais, como uma rotina regular de horários para dormir e acordar, segue sendo, segundo especialistas, uma das estratégias mais confiáveis para melhorar a qualidade do sono, com ou sem tecnologia envolvida.
À medida que relógios inteligentes e aplicativos de sono se tornam cada vez mais populares, a ortossonia desponta como um lembrete de que nem todo dado precisa virar motivo de preocupação, às vezes, a melhor forma de dormir bem é, simplesmente, parar de medir.






