O jogo que parou a 1ª Guerra Mundial: como o futebol calou canhões no Natal de 1914

Conheça os detalhes da histórica trégua que quase custou o fuzilamento de tropas em meio ao conflito

O campo improvisado estava congelado pelo inverno europeu, cheio de crateras de granadas e cercado por arame farpado

O campo improvisado estava congelado pelo inverno europeu, cheio de crateras de granadas e cercado por arame farpado | Divulgação

A Primeira Guerra Mundial foi um dos conflitos mais sangrentos da história da humanidade, com aproximadamente 15 a 22 milhões de baixas ao longo de um pouco mais de quatro anos. Entretanto, houve um momento no meio do banho de sangue marcado pela confraternização e até por uma partida de futebol: a Trégua de Natal de 1914.

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Um cenário muito diferente do confronto histórico entre El Salvador e Honduras nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, vencida pelo Brasil, quando a partida virou estopim para um conflito entre as duas nações.

Quase cinco décadas antes, na véspera do feriado, os soldados britânicos e alemães em Ypres, na Bélgica, começaram a colocar árvores de Natal nas trincheiras e a cantar “Stille Nacht” (Noite Feliz).

No dia seguinte, as tropas inimigas largaram as armas e confraternizaram na terra de ninguém (região entre trincheiras). Durante o encontro, as tropas realizaram atividades como:

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  • Troca de presentes: soldados trocaram cigarros, botões de farda, pudins e cerveja.
  • Barbeiros de Guerra: há relatos de soldados alemães que eram barbeiros em Londres antes da guerra e aproveitaram para cortar o cabelo dos antigos clientes (agora inimigos).
  • Enterros Dignos: o cessar-fogo permitiu que ambos os lados recuperassem os corpos de seus companheiros caídos que apodreciam entre as trincheiras para dar-lhes um funeral respeitoso.

Entretanto, uma das atividades que mais chamaram a atenção foi a realização de uma partida de futebol entre os soldados.

O campo improvisado estava congelado pelo inverno europeu, cheio de crateras de granadas e cercado por arame farpado. As traves foram montadas com capacetes e casacos empilhados.

Já a bola, o mais importante para uma partida, é algo incerto. Relatos apontam que algumas unidades britânicas conseguiram bolas de couro reais enviadas por familiares. Por outro lado, na maioria dos setores, ela era improvisada com latas de carne enlatada, sacos de areia amarrados com barbantes ou até botas velhas.

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O jogo durou cerca de uma hora, até que todos estivessem exaustos demais para correr no gelo ou a luz do dia começasse a sumir. Sem juiz, as faltas seguiam a lógica do “fair play”, algo considerado por historiadores como uma ironia para pessoas que tentavam se aniquilar horas antes.

Embora o placar tenha se perdido ao longo de mais de um século, cartas de soldados alemães e britânicos apontam o resultado em: Alemanha 3, Inglaterra 2.

A maioria das histórias se tornou pública depois que familiares divulgaram os registros em jornais locais. Confira alguns:

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“Um soldado britânico apareceu com uma bola de futebol, vindo de suas trincheiras, e logo um jogo animado começou. Como era difícil jogar no solo congelado, mas nós seguimos as regras rigorosamente, embora não houvesse árbitro. O jogo terminou com uma pontuação de 3 a 2 para a Alemanha“, descreveu Johannes Niemann, do 133° Regimento Saxão, Alemanha.

Em uma entrevista gravada pela mídia inglesa décadas depois, Ernie William, do 6° Regimentos de Cheshire, Reino Unido, também compartilhou a experiência.

“A bola apareceu de algum lugar, eu não sei de onde… não era como um jogo de futebol que se vê na TV. Não havia juiz nem placar oficial. Era apenas um “todos contra todos”. Deveria haver umas duzentas pessoas participando. Eu estava lá, eu joguei. Eu tinha 19 anos na época.”

A importância do jogo

Em um cenário de destruição, a partida humanizou os soldados. Mesmo que nenhum dos lados falasse o mesmo idioma, todos conheciam as regras do esporte e a sensação de marcar um gol.

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Além disso, o jogo permitiu um “respiro psicológico” para os homens na terra de ninguém. A atividade permitiu que eles esquecessem o cheiro da pólvora e os sons das explosões.

A resposta do comando

A confraternização não foi recebida pelos oficiais de alta patente. Quando as notícias começaram a chegar, oficiais de ambos os lados viram a trégua como “traição” ou “enfraquecimento do espírito de luta”.

Nos anos seguintes, as ordens estritas foram dadas: qualquer tentativa de trégua seria punida com execução por fuzilamento. Para reforçar o posicionamento, bombardeios começaram a ser programados especificamente para a véspera de Natal para acabar de vez com qualquer “clima de paz”.

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Outras tréguas

A paralisação na guerra foi quase contínua desde a costa belga até a fronteira francesa. Porém, também há relatos de tréguas menores na frente oriental e no fronte da Galícia entre Rússia e Império Austro-Húngaro.

Pausas silenciosas aconteceram durante a invasão alemã no território francês. Devido à tensão, a confraternização foi mais tensa e menos festiva, voltada para o recolhimento de cadáveres e trocas de mensagens.