Os Estados Unidos mantêm há cerca de 60 anos um programa militar que treina golfinhos e leões-marinhos para atuar como “espiões” no mar, detectando objetos, localizando ameaças e recuperando equipamentos em portos e áreas de difícil acesso para mergulhadores.
De acordo com reportagem da GloboNews, o uso de animais marinhos pela Marinha norte-americana começou na década de 1960, em plena Guerra Fria, em um contexto de corrida tecnológica e militar entre grandes potências.
Na época, pesquisadores testaram o desempenho de diferentes espécies, como tubarões, tartarugas e aves marinhas, mas apenas golfinhos e leões-marinhos se mostraram eficientes para as tarefas planejadas.
O programa ficou em sigilo por décadas e só foi oficialmente reconhecido em 1990, quando o governo passou a divulgar imagens e informações sobre o treinamento e o tipo de missão realizado pelos animais.
Como funciona o programa militar com animais marinhos
No projeto, golfinhos e leões-marinhos são treinados pela Marinha americana para executar tarefas específicas em ambiente subaquático, em uma lógica comparada ao uso de cães em operações em terra.
Pesquisas tentam substituir os animais por drones e veículos autônomos, mas o processo é complexo. Foto: pexelsOs golfinhos se destacam pela capacidade de usar o som, por meio de ecolocalização, para identificar submarinos, minas e outros objetos submersos com precisão mesmo em águas turvas.
Já os leões-marinhos são usados principalmente para recuperar equipamentos e marcar alvos, graças à visão aguçada e à habilidade de nadar em profundidades e condições de baixa visibilidade.
Imagens divulgadas pelo próprio Departamento de Defesa mostram animais equipados com dispositivos que permitem localizar e sinalizar objetos de interesse no fundo do mar.
Que tipos de missões esses “espiões” realizam
Segundo o G1, os animais são empregados em diferentes cenários, como a proteção de portos militares, escolta de navios e varredura de áreas consideradas sensíveis em conflitos ou treinamentos.
Nessas missões, os golfinhos podem nadar à frente de embarcações e identificar possíveis minas ou artefatos explosivos, reduzindo o risco para mergulhadores humanos.
Os leões-marinhos, por sua vez, costumam ser acionados para localizar objetos de metal ou equipamentos perdidos e fixar neles pequenos dispositivos, como boias ou cabos, para facilitar o resgate.
Organizações de defesa dos animais levantam críticas éticas sobre o uso militar de mamíferos marinhos. Foto: pexelsPor que os golfinhos são tão valiosos para os militares
Os golfinhos têm um sistema de ecolocalização extremamente avançado, capaz de mapear objetos ao redor por meio de sons e ecos, algo que radares e sonares artificiais ainda não reproduzem com a mesma eficiência em todas as situações.
Por isso, eles conseguem detectar minas e equipamentos em áreas de difícil acesso, inclusive em águas escuras e com grande quantidade de sedimentos.
Outro ponto destacado pelos militares é a capacidade de comunicação dos animais, que podem receber comandos e responder a sinais de maneira discreta.
Na reportagem da GloboNews, especialistas ressaltam que, até o momento, “nenhuma tecnologia faz exatamente o que esses animais fazem”, o que explica a permanência do programa, mesmo com avanços em veículos submarinos não tripulados.
Leões-marinhos: especialistas em resgatar objetos
Os leões-marinhos complementam o trabalho dos golfinhos com um papel mais focado em recuperação de objetos e marcação de alvos.
As Forças Armadas afirmam que os animais recebem cuidados e treinamento baseado em recompensa positiva. Foto: pexelsGraças à visão adaptada ao ambiente aquático e à capacidade de mergulhar a grandes profundidades, eles localizam equipamentos perdidos, como torpedos de treinamento, e ajudam a trazer esses materiais de volta à superfície.
Em alguns casos, os animais nadam até o objeto, prendem um dispositivo de marcação e retornam à base, permitindo que equipes humanas completem o resgate com segurança.
Esse tipo de habilidade mostra por que, mesmo com investimentos em robôs subaquáticos, o programa ainda é considerado estratégico pelos militares americanos.
Limites, críticas e busca por substitutos tecnológicos
O governo dos Estados Unidos afirma que investe em pesquisas para substituir o uso de animais por sistemas totalmente tecnológicos, como drones submarinos e veículos autônomos.
Até agora, porém, a combinação de velocidade, precisão e adaptação a diferentes cenários faz dos golfinhos e leões-marinhos um recurso difícil de igualar.
Organizações de defesa dos animais e grupos de direitos dos animais levantam questionamentos éticos sobre o uso de espécies inteligentes em contextos militares.
O programa ilustra como estratégias de defesa combinam biologia e inteligência para garantir a segurança no mar. Foto: Ilustração com IA/Gazeta de S. PauloAs Forças Armadas argumentam que os animais são treinados com recompensa positiva, recebem cuidados veterinários e não são enviados deliberadamente para missões suicidas, mas o debate sobre limites morais segue aberto.
Animais, tecnologia e o futuro da vigilância no mar
O uso de golfinhos e leões-marinhos mostra como estratégias de defesa combinam biologia, tecnologia e inteligência para proteger portos, navios e instalações estratégicas.
Ao mesmo tempo, o avanço de sistemas autônomos levanta a perspectiva de que, no futuro, parte dessas tarefas possa ser assumida por máquinas, reduzindo a participação de animais.
Esse cenário dialoga com debates mais amplos sobre o uso de tecnologia em segurança e defesa, tema explorado em reportagens sobre inovação e impactos de longo prazo em diferentes setores, como as que discutem corrida da inteligência artificial e avanço de novas tecnologias.
Enquanto isso, o programa com mamíferos marinhos segue ativo e ajuda a ilustrar como, mesmo em uma era de alta tecnologia, capacidades naturais de certas espécies continuam a ser vistas como ativos estratégicos.






