O caso do cachorro Orelha, que sofreu agressão no início deste ano, comoveu a muitos brasileiros. O episódio acabou levantando uma questão: por que alguns de nós sentem mais empatia por animais em sofrimento do que por humanos na mesma situação? A resposta está na ciência.
Em 2021, estudantes participaram de um teste surpreendente. Ao todo, 163 deles foram expostos a vídeos de maus tratos a três tipos de seres: humanos, robôs e gatos. O resultado foi que os jovens sentiram mais empatia pelos animais do que por pessoas.
De acordo com a conclusão dos cientistas, há diversas razões para o fenômeno. Entre elas, o fato de que muitos dos estudantes que participaram da análise jamais viveram qualquer situação de violência na pele. Mas a análise vai além.
Por que sentimos mais empatia por animais do que por humanos?
A pesquisa conduzida pela University of Udine, na Itália, não é definitiva. Sobretudo porque a amostra não foi tão abrangente. Mas pode ajudar a ilustrar a resposta para esse questionamento.
Dentre os motivos encontrados pelos pesquisadores está a inocência da vítima. Segundo a percepção dos entrevistados, um gato não possui juízo de valor e poucas chances de defesa.
A mesma análise não foi atribuída aos humanos que sofreram maus tratos e foram observados pelos estudantes. Na visão dos avaliadores, humanos têm mais chance de defesa e mais entendimento dos atos.
Arte: Gazeta SPComo a pesquisa foi feita
Foram exibidos aos entrevistados 7 vídeos curtos (2 segundos) mostrando “maus-tratos” a diferentes alvos: um humano, um gato, três tipos de robôs (humanóide/zoomórfico/mecânico), um smartphone e um cubo mágico.
Primeiro, preencheram a escala Empathy Quotient (EQ); depois assistiram aos vídeos em sala de aula, projetados, com ordem parcialmente randomizada.
Após cada vídeo, os participantes responderam: uma pergunta sobre “quanto você sente pena…”, em escala Likert; e outro questionário avaliando como eles se sentiram e como imaginaram que o alvo se sentiu.
A conclusão foi que os estudantes mostraram empatia significativamente maior por animais do que por humanos vendo os mesmos tipos de sofrimento.
O que outro estudo encontrou
Um trabalho anterior, publicado em 2011 na revista científica Anthrozoös, chegou a uma conclusão parecida, mas com um detalhe importante: o “alvo” da empatia muda conforme idade e gênero.
Nos experimentos, os participantes liam cenários de abuso e sofrimento envolvendo humanos e animais e, em seguida, avaliavam o quanto se sentiam tocados pela situação.
No primeiro teste, mulheres relataram mais empatia por animais do que por humanos adultos, enquanto homens tenderam a demonstrar mais empatia por humanos do que por animais.
Filhotes e crianças
A diferença, porém, praticamente some quando a comparação envolve filhotes e crianças.
No Experimento 2, mulheres adultas sentiram o mesmo nível de empatia por uma criança e por um filhote de cachorro. No Experimento 3, homens e mulheres relataram empatia equivalente por um bebê e por um filhote.
No balanço geral, os autores resumem que as pessoas tendem a sentir “pelo menos tanta empatia por animais quanto por humanos” nos cenários analisados.
Ou seja, mais uma vez, concluíram que, quanto mais vulnerável e menos “responsável” o alvo parece, maior a chance de provocar uma resposta emocional imediata.
Trata-se de um padrão que ajuda a explicar por que casos com animais ganham tanta repercussão em páginas de notícias e comportamento.
O que os estudiosos dizem
O primatólogo Frans de Waal observa que a empatia não é um traço exclusivo da nossa espécie e descreve a empatia como ser “muito mais ser sensível ao estado emocional do outro”, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.
Ao mesmo tempo, a psicologia alerta que empatia nem sempre é um guia neutro.
O psicólogo Paul Bloom define empatia como “sentir os sentimentos de outras pessoas” e argumenta que ela funciona como um “holofote”.
Para o professor de psicologia em Yale, a empatia tende a ser seletiva e enviesada na forma como escolhe quem merece nossa atenção, disse ele ao site Vox.
Como o estudo de 2011 foi feito
A pesquisa foi composta por três experimentos baseados em cenários (em vez de vídeos).
Em geral, os participantes eram expostos a uma narrativa de vítima em sofrimento que precisava de ajuda e depois respondiam escalas sobre empatia e reação emocional.
Depois, eles comparavam humanos e animais em situações equivalentes, avaliando seu grau de empatia.
O ponto central não é que “animais sempre geram mais empatia do que humanos”, e sim que o cérebro tende a reagir com mais força quando enxerga fragilidade, dependência e ausência de culpa.
Esses são atributos que costumam ser associados a filhotes e também a certos animais domésticos.
O caso do cachorro Orelha e por que ele virou comoção nacional
No caso de Santa Catarina, a repercussão pode ter ganhado mais força justamente por reunir os gatilhos clássicos de empatia: um animal comunitário, conhecido por moradores, vítima de agressão e incapaz de se proteger.
A investigação em Santa Catarina, segundo o site Agência Brasil, analisou mais de mil horas de imagens e usou softwares para cruzar dados de localização de celular e recuperar informações.
A comoção, portanto, pode ser um começo poderoso, impulsionado pelas emoções.









