A captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, neste sábado (3/1), surpreendeu inicialmente pela rapidez. Porém, o desfecho já era esperado diante do reposicionamento geopolítico dos EUA a uma “nova velha” política de Estado.
A prisão de Maduro, somada às recentes pressões e operações contra embarcações venezuelanas no Mar do Caribe, são expressões da nova Estratégia de Segurança Nacional americana.
Como apontado pelo presidente americano Donald Trump, essa nova postura tem inspiração na Doutrina Monroe. Uma política de estado que visava manter as recém-libertas nações latino-americanas livres da interferência europeia, mas dentro da esfera de influência americana.
Uma das ferramentas centrais dessa doutrina era a deposição de governantes considerados ameaças aos interesses americanos, prática que encontra ecos na chamada “Doutrina Donroe”, atribuída ao governo Trump.
A seguir, alguns dos casos mais emblemáticos de líderes derrubados pelos EUA ao longo da história:
José Santos Zelaya, 1909
Presidente da Nicarágua por mais de duas décadas, Zelaya esteve entre os idealizadores de um canal ligando os oceanos Atlântico e Pacífico.
O projeto chegou a ser pensado para território nicaraguense, mas disputas políticas levaram à mudança de rota, resultando na construção do Canal do Panamá.
Com o agravamento dessas disputas, Zelaya adotou um discurso mais combativo de integração latino-americana, aproximando-se do ditador mexicano Porfírio Díaz.
Esse alinhamento intensificou as tensões com os Estados Unidos, que atingiram o ápice após acusações de que o governo nicaraguense teria executado mercenários americanos.
O episódio levou ao desembarque de tropas dos EUA na Nicarágua, forçando a renúncia de Zelaya e seu exílio, primeiro no México e depois em Paris, onde escreveu um livro defendendo sua versão dos fatos.
Após sua queda, o poder passou por sucessivos governos alinhados a Washington. O caso é considerado o primeiro golpe de Estado conduzido pelos Estados Unidos na região e serviria de modelo para intervenções futuras.
Ngo Dinh Diem, 1963
Ditador do Vietnã do Sul durante a Guerra do Vietnã, Diem, diferentemente de outros líderes citados, era um aliado sólido dos Estados Unidos. Seu governo atuava de forma beligerante contra o avanço das forças comunistas apoiadas por Moscou e Pequim.
Com o tempo, porém, Diem se mostrou excessivamente autoritário, especialmente contra comunidades budistas, alvo de repressões violentas e massacres.
O cenário provocou uma onda de revoltas internas. Preocupados com a instabilidade, os EUA pressionaram por medidas de pacificação, recusadas pelo ditador, que optou pela decretação da lei marcial.
O aumento da violência fortaleceu grupos rebeldes, alguns liderados por generais que passaram a dialogar com setores do governo americano já insatisfeitos com Diem. Conforme revelado nos Pentagon Papers, de Daniel Ellsberg, essas alas apoiaram o golpe que resultou na derrubada e no assassinato de Diem, em 1963.
João Goulart, 1964
Do outro lado do mundo, o presidente brasileiro João “Jango” Goulart passou a gerar preocupação em Washington ao ampliar o diálogo político e econômico com a China.
Sob o pretexto de conter o avanço do comunismo na América Latina, militares brasileiros, apoiados e orientados pela inteligência americana, depuseram Goulart e instauraram uma ditadura militar no Brasil.
O golpe integrou uma série de intervenções realizadas na região durante a Guerra Fria, posteriormente associadas à Operação Condor — política voltada à contenção do bloco comunista e à preservação dos interesses estratégicos dos Estados Unidos no continente.
Manuel Noriega, 1989
Assim como Diem, o ditador panamenho Manuel Noriega foi aliado dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, mantendo vínculos estreitos com a CIA.
A ruptura começou na década de 1980, quando Noriega passou a defender maior autonomia do Panamá, combinando autoritarismo interno e envolvimento direto com o narcotráfico.
Com o arrefecimento das tensões da Guerra Fria, Washington voltou sua atenção ao Panamá, acusado de facilitar o tráfico de drogas para o território americano. As tensões escalaram até que, em 1988, Noriega foi indiciado por um tribunal dos EUA por narcotráfico.
No ano seguinte, foi lançada a Operação Causa Justa, que perseguiu o ditador até a Nunciatura Apostólica no Panamá, onde buscou refúgio. Após semanas de cerco — incluindo táticas psicológicas como o uso contínuo de música alta — Noriega se rendeu. Preso, foi transferido entre presídios até morrer de câncer, em 2017.
Muammar Gaddafi, 2011
Muammar Gaddafi governou a Líbia com mão de ferro por décadas, promovendo perseguições a opositores e intensa propaganda ideológica.
Ao mesmo tempo, implementou políticas econômicas que levaram o país a um alto índice de desenvolvimento regional e à posse de um programa nuclear no século XXI.
Apesar da brutalidade, o regime líbio manteve boas relações com países europeus por anos, até passar a defender projetos de independência africana no final do século XX, o que elevou as tensões com o Ocidente.
Em 2003, Gaddafi aceitou abrir mão de seu arsenal nuclear como gesto de boa-fé, em troca de garantias de segurança.
O acordo, porém, não se sustentou. Em 2011, com a chegada da Primavera Árabe à Líbia, protestos populares e grupos extremistas se uniram contra o regime.
A pressão internacional levou a uma intervenção da ONU, apoiada por potências ocidentais, que resultou na queda do governo e na morte de Gaddafi.
O episódio é frequentemente citado por países como a Coreia do Norte como argumento contra o desarmamento nuclear.





