Frente ao esgotamento de recursos naturais e à dependência de insumos químicos, a agricultura moderna busca soluções baseadas na própria natureza. Uma das estratégias mais promissoras é o uso de plantações florais — faixas de flores nativas dentro ou ao redor das lavouras — para atrair polinizadores e aumentar a produtividade.
No entanto, um debate dividia a ciência: essas flores auxiliam a colheita ao atrair abelhas ou prejudicam o sistema ao “distrair” os polinizadores, tirando-os da cultura principal?
Pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da USP parecem ter encontrado a resposta por meio da “Hipótese Integradora”.
O segredo está no tempo
A pesquisa, conduzida por Cristina Akemi Kita sob orientação do professor Marco Mello no Laboratório de Síntese Ecológica (SintECO), propõe que o que antes eram vistos como efeitos opostos são, na verdade, fases de um mesmo processo.
- Efeito concentrador: inicialmente, as abelhas se concentram nos canteiros de flores enquanto a lavoura ainda não é atrativa.
- Efeito exportador: à medida que a cultura floresce e oferece recompensas energéticas, ocorre o “transbordamento” (transferência) das abelhas para a plantação comercial.
Essa dinâmica temporal explica por que estudos anteriores apresentavam resultados contraditórios.
Ciência de dados e sustentabilidade
Para chegar a essa conclusão, a equipe utilizou a técnica de research weaving, sintetizando o conhecimento mundial disponível. O estudo revelou que o sucesso da polinização depende de quatro fatores interconectados: o tipo de cultura, a composição das flores plantadas, o grupo de abelhas e o contexto ambiental.
Um ponto de atenção levantado pela pesquisa é a lacuna de dados em regiões tropicais, como o Brasil, já que a maioria dos estudos se concentra na Europa e América do Norte.
Além disso, os pesquisadores destacaram a necessidade de diferenciar as abelhas silvestres da Apis mellifera (abelha-europeia), que, por ser frequentemente manejada em colmeias comerciais, pode mascarar os efeitos naturais dos canteiros florais.
Impacto prático e políticas públicas
O objetivo final da pesquisa vai além da teoria: busca orientar o manejo agrícola e a criação de políticas públicas. A “Hipótese Integradora” pode embasar incentivos fiscais para produtores que implementem soluções sustentáveis, como cercas vivas e canteiros que servem de abrigo para a fauna.
A urgência do estudo está ligada diretamente à segurança alimentar e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS 2 e 12). “O desafio é produzir mais comida protegendo os polinizadores”, explica Cristina Kita, ressaltando que a preservação das abelhas é um motor de prosperidade para a própria agricultura.



