O X (antigo Twitter) possui diversas subcomunidades criminosas de fácil acesso. “Escondidas” atrás de símbolos, gírias e emojis, movimentos como o #cleptotw (ou #kleptotw) permitem que jovens compartilhem pequenos furtos cometidos em lojas.
Descobri sobre elas sem nunca pesquisar, e rapidamente entendi esse universo olhando mais a fundo. Fotos de cosméticos, roupas de grife, itens de papelaria, eletrônicos e itens diversos são expostos na chamada “colheita do dia”, ou “hauls”, identificadas também por emojis de mirtilos e cestas (🫐🧺).
O ato de mirtilar, como chamam os integrantes da subcomunidade, seria uma forma de protesto ao sistema capitalista. Os integrantes alegam que os furtos apenas prejudicam os grandes CEOs e corporações, que não sentem o impacto.
No entanto, especialistas apontam que essa justificativa não passa de uma racionalização moral (um mecanismo psicológico para mascarar a busca por status, vaidade e bens de consumo). Na prática do mercado, o prejuízo do furto quase nunca atinge o topo da pirâmide corporativa; ele é repassado diretamente para a ponta mais vulnerável da cadeia: os trabalhadores e os próprios consumidores.
Como os furtos afetam trabalhadores e consumidores?
Segundo dados da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (ABRAPPE), o furto externo é uma das principais causas de quebra operacional no varejo de vestuário e cosméticos. Para conter esses prejuízos, redes como Renner, C&A e Zara trabalham com metas rígidas de prevenção de perdas por filial.
Quando o índice de furtos em uma loja dispara, a unidade não atinge a margem de lucro projetada e o impacto direto cai sobre a equipe do chão de loja, como operadores de caixa, vendedores e estoquistas, que pode perder a Participação nos Lucros e Resultados (PLR), prêmios e bônus mensais atrelados às metas da filial. Além disso, as perdas por furto acabam sendo embutidas no custo operacional, encarecendo o preço final para o consumidor comum.
O aumento do “mirtilamento” também gera uma cobrança desproporcional sobre os fiscais de loja e atendentes, que passam a ser pressionados para atuar como vigias contínuos. Isso intensifica o estresse ocupacional e cria um clima de constante suspeita e vigilância no local de trabalho. Nas redes, integrantes da comunidade se referem aos lojistas com emojis de formiga (🐜).
No setor varejista, os prejuízos com furtos entram em um indicador que mede as perdas e o encolhimento de estoque nas lojas. Para compensar esse impacto financeiro, as empresas calculam essa margem de risco e embutem a estimativa no custo operacional. O resultado é o repasse inevitável para o preço final das mercadorias, ou seja, quem acaba pagando a conta da peça “mirtilada” é o consumidor de classe trabalhadora que compra honestamente na loja.
A estética do furto e a busca por aprovação
Nas redes sociais, as dinâmicas de engajamento baseiam-se na cultura do ganho de popularidade por meio da aprovação pública. Na kleptotw, essa aprovação se traduz em curtidas, retweets e comentários de incentivo de outros membros do grupo. O furto deixa de ser um ato escondido e passa a ser performado.
mini haul rapidinha com as prê #cleptotwt #cleptotw #kleptotwt pic.twitter.com/zOLO2R8qtm
— nike rec era (@ninitatalove) June 27, 2025
Em vez de disfarçar o ato, os praticantes frequentemente fotografam a preparação, escolhem os alvos pelo valor estético ou financeiro do produto e postam o resultado como uma conquista de status. O planejamento prévio, a escolha deliberada da loja e a publicação estratégica nas redes contrapõem-se frontalmente à definição científica do que caracteriza a cleptomania.
No entanto, por trás das telas, a dinâmica dessas comunidades revela um fenômeno ligado muito mais à busca por validação social, pertencimento e à espetacularização do risco do que a um transtorno mental real. Ao banalizar termos médicos, a subcomunidade acende alertas éticos, jurídicos e psiquiátricos sobre os limites entre a transgressão juvenil e a medicalização do crime.
A relação com a cleptomania
Além da desculpa anticapitalista, os participantes da comunidade alegam que o ato é fruto de uma condição médica incontrolável: a cleptomania.
O Dr. Thiago Rodrigues De Castro, médico psiquiatra e docente do curso de Medicina da Faculdade Santa Marcelina, explica que a cleptomania é uma condição extremamente rara, classificada pelos manuais diagnósticos (como o DSM-5) dentro do grupo de transtornos do controle dos impulsos.
Segundo dados do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a prevalência da cleptomania na população geral é estimada entre 0,3% e 0,6%, sendo uma condição clínica muito rara até mesmo entre indivíduos detidos por furtos em lojas. A maioria das pessoas que cometem pequenos furtos no comércio não possui esse transtorno.
O Dr. Thiago explica que o diagnóstico depende da presença consistente de um ciclo neurobiológico e psicológico rígido, e não apenas do ato isolado de pegar um objeto. “O elemento central não vai só em pegar o objeto ou o furto em si, é o ciclo interno com a vontade intensa de pegar o objeto, de furtar, no momento da tensão que se torna incontrolável, e a pessoa não consegue controlar esse impulso, sentindo um prazer ou alívio de gratificação quando faz o ato em si. É muito frequente ter culpa, vergonha e arrependimento depois do ato”, pontua o psiquiatra.
Diferente do cenário exibido no X, em que os jovens furtam itens desejados para consumo próprio ou ostentação, o indivíduo com cleptomania clínica raramente comete o ato por necessidade financeira ou utilização pessoal.
Na maioria das vezes, o paciente tem condições econômicas para comprar o objeto, e é comum que os itens subtraídos sejam guardados sem uso, doados, descartados ou até devolvidos secretamente, pois a motivação do ato é puramente a redução de uma tensão ansiosa interna e incontrolável.
Crime ilícito vs. transtorno clínico
- Na Kleptotw (conduta ilícita): Há planejamento consciente, escolha de alvos de alto valor, motivação focada em vantagens pessoais ou aprovação social, e pós-ato marcado por orgulho, exibição e busca por likes.
- Na Cleptomania (transtorno psiquiátrico): O ato é compulsivo e sem planejamento prévio, o valor do objeto é irrelevante, e o pós-ato é acompanhado de sofrimento psíquico profundo, vergonha, culpa e isolamento social.
O rastro digital e as repercussões jurídicas: o laudo médico protege do crime?
Postar fotos dos produtos furtados achando que o anonimato de um perfil fake garante impunidade é um grande engano. Sob a ótica do Direito Penal, a publicação dessas imagens funciona como autoincriminação.
Colheita de hoje que fui testar dicas de alguns amigos 💕 definitivamente precisando de uma bolsa maior
— keroppi com fome 🍰🧺 (@user0412_92) July 20, 2026
Estimativa: 715 reais#cleptotwt 🫐🧺 pic.twitter.com/ync2nAGZkO
As fotos do “haul” ou as dicas de como burlar alarmes constituem prova material da autoria e do dolo (a intenção prévia de cometer o ilícito). Havendo uma investigação policial, as autoridades podem solicitar a quebra do sigilo de IP da conta às plataformas virtuais para identificar o autor, que pode responder pelo crime de furto (Artigo 155 do Código Penal).
Se houver união deliberada de jovens para a prática contínua de furtos ou compartilhamento de métodos, a conduta pode avançar para a caracterização de associação criminosa ou incitação ao crime.
A existência de um laudo médico atestando um transtorno mental também não é um passe livre contra a lei. No sistema jurídico brasileiro, a responsabilidade penal avalia se a pessoa, no momento da ação, era capaz de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento (Critério Biopsicológico).
Caso alguém com laudo real de cleptomania seja pego furtando, o diagnóstico não extingue automaticamente o crime. O juiz pode determinar uma perícia médica oficial com um perito do Estado. Se a perícia comprovar que o ato foi planejado, filmado e postado para ganhar likes, condutas totalmente incompatíveis com o impulso compulsivo e cego da cleptomania, a pessoa será considerada imputável (plenamente responsável) e responderá pelo crime normalmente.
Somente em casos em que a perícia comprove a total incapacidade de controle do impulso é que o indivíduo pode ser considerado inimputável, o que não significa “ficar impune”, mas sim que a pena de prisão pode ser substituída por uma medida de segurança, como a internação ou tratamento ambulatorial compulsório.
Possíveis consequências em caso de furto
No Código Penal Brasileiro, o furto simples (Artigo 155) prevê pena de reclusão de 1 a 4 anos, além de multa. No entanto, as consequências dependem das circunstâncias da ação e do histórico do indivíduo.
Se o furto for cometido por duas ou mais pessoas (o que é comum nas combinações feitas em sub comunidades virtuais) ou com a remoção/burlamento de dispositivos de segurança (como quebrar os lacres e alarmes das peças), o crime passa a ser enquadrado como furto qualificado, onde a pena sobe para 2 a 8 anos de prisão.
Para jovens sem antecedentes criminais e em casos de objetos de menor valor econômico, a Justiça pode aplicar o princípio da insignificância ou conceder o benefício do réu primário, resultando em penas alternativas, como prestação de serviços à comunidade, pagamento de cestas básicas ou suspensão condicional do processo.
Contudo, mesmo sem a prisão preventiva imediata, o indivíduo passa a ter o nome registrado na Justiça Criminal, perde a primariedade e fica com a “ficha suja”, o que traz impactos severos para a vida pessoal e profissional, como a impossibilidade de tirar certidões negativas para concursos públicos ou conseguir empregos no mercado formal.
O risco da banalização e a medicalização do crime
Um dos pontos de maior alerta destacados por Thiago é o risco de transformar condutas ilegais ou moralmente problemáticas em sintomas psiquiátricos.
O psiquiatra reforça que alegações de autodiagnóstico não servem como justificativa: “A gente tem que ter o cuidado para reconhecer que as condutas ilegais não podem ser transformadas em sintoma psiquiátrico. Quando as pessoas cometem furtos de maneira consciente, planejada e intencional, é preciso cuidado para não medicalizar todo comportamento moralmente problemático ou criminoso”, alerta.
De acordo com o médico, o uso indiscriminado do termo gera três consequências graves:
- Criação de um “escudo genérico”: A existência de um transtorno mental, mesmo quando real, não elimina automaticamente a responsabilidade ética, moral ou jurídica de uma pessoa sobre seus atos. A tentativa de usar a psiquiatria como salvo-conduto distorce a aplicação da lei e a responsabilidade social.
- Banalização de quem realmente sofre: Pacientes com cleptomania enfrentam altas taxas de comorbidades clínicas. Estudos epidemiológicos apontam que de 45% a 100% dos indivíduos com cleptomania apresentam transtornos de humor associados (como depressão), e entre 23% e 50% enfrentam transtornos por uso de substâncias. Banalizar a condição transforma um sofrimento grave em motivo de piada ou tendência de internet.
- Aumento do estigma na saúde mental: Reforça o preconceito de que diagnósticos psiquiátricos seriam apenas “desculpas” criadas para que indivíduos se esquivem das consequências ilícitas de suas ações.
Tratamento e abordagem clínica
Diferente do que sugerem as dinâmicas de redes sociais, a cleptomania clínica exige tratamento profissional contínuo. Não existe um medicamento aprovado exclusivamente para erradicar o transtorno; o acompanhamento farmacológico é voltado para o controle de quadros associados, como ansiedade, depressão e transtorno do pânico.
A principal linha de intervenção baseia-se na psicoterapia cognitivo-comportamental. Conforme explica o Dr. Thiago de Castro, são adotadas estratégias pragmáticas de prevenção de gatilhos no cotidiano dos pacientes:
- Evitar frequentar locais de compras desacompanhado;
- Andar com pessoas de confiança que auxiliem no controle do impulso;
- Evitar o uso de bolsas, mochilas ou casacos com bolsos largos ao entrar em estabelecimentos, reduzindo o acesso a locais onde itens possam ser escondidos;
- Desenvolver estratégias de identificação precoce do ciclo de ansiedade antes que o impulso se concretize.
Separar a transgressão motivada por status digital do transtorno psiquiátrico real é um passo fundamental. Enquanto a kleptotw usa a estética do crime para gerar engajamento, a medicina reforça a importância da responsabilidade sobre os atos e o respeito aos diagnósticos clínicos sérios.






