De Suzane a Jordan Belfort: quando criminosos lucram vendendo as próprias histórias

Do Brasil aos Estados Unidos, adaptações de true crime já renderam contratos, pagamentos e batalhas judiciais envolvendo condenados e suas histórias

Contrato foi assinado para produção de nova obra documental, "Suzane vai falar"

Contrato foi assinado para produção de nova obra documental, "Suzane vai falar" | Reprodução

O anúncio do contrato que Suzane von Richthofen receberia R$ 500 mil da Netflix gerou uma convulsão nas redes sociais. A população levanta questões sobre a possibilidade de um criminoso lucrar com seu crime, um fenômeno que já ocorreu mais de uma vez.

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Atualmente, a legislação brasileira não possui restrições para barrar esse tipo de contrato. Existem projetos, como o Projeto de Lei 5912/2023, que visam proibir o condenado de receber quaisquer valores decorrentes do crime praticado, mas eles ainda estão em fase de tramitação.

Porém, essas brechas não são exclusivas do Brasil e existem diversos casos de criminosos que lucraram para terem suas histórias adaptadas.

Anna Sorokin / Inventando Anna (Inventing Anna, 2022)

Também conhecida como Anna Delvey, Anna Sorokin ficou famosa após se passar por uma falsa herdeira alemã para circular entre hotéis de luxo, bancos e a elite nova-iorquina.

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Em 2019, ela foi condenada por fraude, com acusações de grand larceny e theft of services, depois de enganar vítimas com comprovantes bancários falsos e promessas de fortuna inexistente.

Anna Delvey em um jogo dos Knicks no Madison Square Garden, em Nova York (Foto: Hewertray44 / Wikimedia Commons)Anna Delvey em um jogo dos Knicks no Madison Square Garden, em Nova York (Foto: Hewertray44 / Wikimedia Commons)

A Netflix pagou US$ 320 mil para adaptar sua história em Inventing Anna. Segundo a imprensa americana, boa parte desse valor foi usada para quitar US$ 199 mil em restituição, US$ 24 mil em multas estaduais e cerca de US$ 75 mil em honorários advocatícios.

Henry Hill / Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990)

Um dos maiores clássicos dos filmes de máfia, os Bons Companheiros, conta a história de Henry Hill. Também conhecido como Wiseguy, Hill teve uma longa carreira criminosa que englobou contrabando, máfia e tráfico de drogas. 

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Sua história foi imortalizada após sua delação que levou à prisão de vários dos seus antigos comparsas, como Jimmy Conway e Tommy DeSimone (Foto: Unknown author / Wikimedia Commons)Sua história foi imortalizada após sua delação que levou à prisão de vários dos seus antigos comparsas, como Jimmy Conway e Tommy DeSimone (Foto: Unknown author / Wikimedia Commons)

Henry Hill firmou contrato com Nicholas Pileggi para um livro sobre sua vida, e no mês seguinte Hill e Pileggi assinaram o acordo editorial com a Simon & Schuster. Naquele momento, a editora já tinha pago US$ 96.250 ao agente literário de Hill “em nome dele” e mantinha mais US$ 27.958 para pagamento futuro.

Esse caso se tornou emblemático, pois o board entrou com uma ação na justiça por meio da chamada “Lei Filho de Sam”. Uma legislação criada para impedir que criminosos lucrassem com seus crimes dessa maneira. A reviravolta veio quando a corte julgou a lei inconstitucional e ela teve que ser remodelada.

Essa lei foi criada em 1977, depois do caso de David Berkowitz, o “Filho de Sam”, o serial killer que alegava ser incentivado por uma entidade chamada Sam (Foto: Joseph W. Papin / Wikimedia Commons)

A versão reformulada da lei Filho de Sam, em Nova York, não bloqueia automaticamente livros ou filmes. Ela obriga a notificação ao Estado quando um condenado recebe lucros ligados ao crime e permite que vítimas acionem a Justiça, tentem preservar os valores e cobrá-los em até três anos da descoberta.

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Jordan Belfort / O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2010)

Também de Martin Scorsese, a obra é uma biografia satírica da vida de Jordan Belfort. De forma muito semelhante a Daniel Vorcaro no Brasil, Belfort foi um player ativo do mercado financeiro, por onde cometeu diversos crimes, como lavagem de dinheiro, corrupção e fraudes milionárias.

De acordo com o Hollywood Reporter, comprou os direitos cinematográficos por US$ 1,045 milhão em 2011. Anos depois, o próprio Belfort processou a Red Granite dizendo que seus book/story rights tinham sido “contaminados” pelo escândalo do 1MDB, o que confirma que a cadeia contratual passava pelos direitos dele.

Belfort atualmente criou carreira como palestrante, usando seu passado como combustível em seus discursos (Foto: Ralph Zuranski / Wikimedia Commons)Belfort atualmente criou carreira como palestrante, usando seu passado como combustível em seus discursos (Foto: Ralph Zuranski / Wikimedia Commons)

John Wojtowicz / Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975)

Filme estrelado por Al Pacino nos anos 70 foi baseado em uma história real. Em 1972, John Wojtowicz tentou assaltar um banco no Brooklyn, Nova York. A tentativa fracassada acabou resultando em um longo sequestro com reféns.

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Wojtowicz sobreviveu à operação do FBI que deu fim ao sequestro e cumpriu pena em uma prisão na Pensilvânia. Ao fim de seu cárcere, ele vendeu os direitos autorais de sua história à Warner Bros. por US$ 7.500.