O quarto onde hoje ficam expostos 14 drones começou como uma bagunça de fios, hélices soltas e peças espalhadas pelo chão. Ali, um adolescente sem curso técnico tentava, sozinho, entender por que o aparelho simplesmente não obedecia. Hoje, no primeiro ano de Engenharia Eletrónica na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Cleiton Michaque projeta um drone capaz de percorrer até 200 quilômetros para entregar medicamentos em regiões onde estradas degradadas e rios dificultam o transporte terrestre em Moçambique.
Houve uma noite em que a frustração venceu: o drone não decolava, os comandos não respondiam, e Cleiton chorou. Numa das madrugadas seguintes, as hélices finalmente giraram do jeito certo. O drone subiu. Foi esse primeiro voo, ainda instável e breve, que deu origem à coleção que hoje enche o quarto e, anos mais tarde, ao protótipo que pode levar remédios a 200 quilômetros de distância.
Como o projeto saiu do papel
A ideia nasceu de uma observação simples do dia a dia: motociclistas enfrentando dificuldades para levar remédios a localidades afastadas da província de Maputo. Em vez de depender da terra, Cleiton decidiu usar o céu.
A jornada, no entanto, começou de forma bem mais modesta. Em 2019, ainda adolescente, Cleiton usava o computador do pai para aprender sozinho a programar. O primeiro drone levou meses até decolar.
O pai, que a princípio via aquilo como um capricho passageiro, começou a mudar de ideia ao perceber a dedicação do filho e passou a ajudar a comprar os primeiros materiais.
Como funciona o drone que transporta remédios
O protótipo mais recente já realiza voos experimentais de cerca de dois quilómetros, partindo muitas vezes da própria casa do estudante, no bairro Tsalala.
Equipado com GPS e navegação autónoma, o drone segue uma rota programada, entrega a carga e retorna sozinho ao ponto de partida, sem necessidade de um piloto controlando cada movimento.
O equipamento suporta tecnicamente até três quilogramas, mas os testes atuais estão limitados a dois quilos por segurança, o suficiente para transportar medicamentos, alimentos, água e pequenas encomendas.
Quanto custa construir um drone caseiro?
Segundo Cleiton, fabricar um drone do zero exige muito mais do que juntar peças prontas. É preciso dominar programação, eletrónica, mecânica e impressão 3D, além de arcar com um investimento estimado em 200 mil meticais, cerca de 2,7 mil euros.
Praticamente todos os componentes, como motores, controladores e baterias, precisam ser importados, principalmente da África do Sul. As baterias atuais garantem entre 30 e 45 minutos de voo nos modelos maiores, enquanto os protótipos menores ficam entre oito e 12 minutos no ar.
Um projeto que já forma outros jovens
O impacto do trabalho de Cleiton foi além dos próprios drones. Ele criou o Centro de Criação e Controlo, espaço onde já formou 17 jovens em pilotagem, programação e montagem de drones, uma forma de abrir oportunidades para quem também não tem acesso a formação técnica tradicional.
O trabalho já rendeu convites para palestras em escolas, incluindo a Escola Portuguesa de Maputo, e uma participação em iniciativas internacionais de tecnologia no Japão. Agora, empresas públicas e privadas manifestaram interesse em usar os drones para filmagem, cartografia e monitorização, enquanto o estudante avalia parcerias para consolidar uma startup própria.
Cleiton também estuda a possibilidade de bolsas de estudo no Japão, em Portugal ou na Califórnia, com preferência por Portugal, pela proximidade do idioma. O plano de longo prazo é claro: criar uma empresa moçambicana especializada em drones e seguir aprofundando os estudos em engenharia, sempre com o objetivo de desenvolver soluções aplicáveis à realidade do próprio país.






