Devoradores de Estrelas, novo filme protagonizado por Ryan Gosling, alcançou US$ 300 milhões de bilheteira, uma das maiores do ano. A trama do filme se centra nos astrofágicos, microrganismos que estão se alimentando do Sol. Porém, existem seres levemente semelhantes a eles na vida real: os fungos radiotróficos.
Esses estranhos seres são fruto de uma emergência radioativa: o ambiente remodelado pela explosão do Reator 4 de Chernobyl. Estudo publicado no PLoS One levanta a existência dessa categoria de fungos, que prospera nesse ambiente banhado por radiação ionizante, no qual a maioria dos seres vivos adoece e morre.
Devoradores de radiação
Na ficção, os astrofágicos se alimentam da radiação solar para se reproduzir. Na realidade, os fungos radiotróficos utilizam a melanina para processar radiação ionizante presente no ambiente de Chernobyl. Esse é o mesmo pigmento presente na pele humana, responsável por conter os raios UV e por gerar tons de pele escuros.
Também chamados de fungos melanizados, eles incluem algumas espécies, como Cryptococcus neoformans, Wangiella/Exophiala dermatitidis, Cladosporium sphaerospermum e Cladosporium cladosporioides.
Registros de espécime do gênero Cladosporium (Foto: Wikimedia Commons)Assim como a clorofila das plantas auxilia na absorção de radiação solar para o processo de fotossíntese, a melanina parece influenciar no processo de transdução de energia da radiação irradiada na antiga Chernobyl. Porém, os mecanismos bioquímicos dessa radiossíntese, pelos quais o pigmento atua, ainda são incertos, segundo o artigo.
O primeiro contato da humanidade com essas espécies ocorreu em uma missão de pesquisa liderada pela microbiologista Nelli Zhdanova, da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, cujo objetivo era encontrar vida ao redor do reator destruído no auge da zona de exclusão. O resultado foi o catálogo de quase 37 espécies de fungos.
Como funciona a radiossíntese na prática?
Na prática, a melanina na parede do fungo recebe o impacto da radiação ionizante e tem suas propriedades eletrônicas alteradas. Isso parece facilitar a circulação de elétrons, etapa básica para reações químicas ligadas ao metabolismo.
A melanina atua como um filtro, absorvendo os raios UV, impedindo danos e mutações no DNA, além de neutralizar radicais livres (Foto: Adam Amsterdam, Massachusetts Institute of Technology / Wikimedia Commons)Com essa “ajuda” extra, algumas espécies melanizadas crescem mais, formam mais biomassa e usam melhor nutrientes escassos em ambientes extremos, como áreas contaminadas. O fungo, porém, ainda precisa de matéria orgânica para viver.
A diferença para a fotossíntese é que esse mecanismo segue nebuloso. Os estudos mostram ganho metabólico e mudanças em genes e na divisão celular sob radiação, mas ainda não existe uma “receita” bioquímica fechada da radiossíntese.
Morte do sol
Apesar de os astrofágicos da vida real não serem alienígenas nem devorarem estrelas, o nosso Sol já tem um final traçado pela astrofísica: em cerca de 5 bilhões de anos, ele deixará a fase atual e começará a se transformar em uma gigante vermelha.
Uma previsão clássica de 1993, feita por Sackmann, Boothroyd & Kraemer, aponta que, por volta deste período, o “combustível” da estrela (hidrogênio) se esgotará e a estrela terá que fundir hélio, um elemento mais pesado, no lugar dele. Esse novo processo fará com que a estrela se torne uma gigante vermelha.
Segundo estimativas, SMSS J160540.18-144323.1 é a primeira gigante vermelha documentada, ou seja, a primeira estrela-irmã do Sol a começar seu processo de morte estelar já documentada, a cerca de 13,8 bilhões de anos (Foto: KKolaczynsk / Wikimedia Commons)Nesse processo, o Sol poderá engolir Mercúrio e Vênus, e talvez até a Terra. Depois, já em fase avançada, passará a fundir hélio e produzirá principalmente carbono e oxigênio, até perder suas camadas externas em grandes ejeções de gás e poeira.
Esse material expelido formará uma nebulosa planetária. No centro, restará apenas o núcleo extremamente denso da estrela: uma anã branca, remanescente do tamanho aproximado da Terra, mas com massa comparável à do Sol.
Essa será a última grande etapa da vida solar. Sem fusão nuclear ativa, a anã branca continuará brilhando apenas pelo calor residual e entrará num lento processo de resfriamento, que deve durar bilhões de anos.






