Famosa mundialmente por suas águas cristalinas e areias brancas, a Jamaica vive um contraste curioso: enquanto o turismo atinge recordes históricos, os próprios jamaicanos encontram cada vez mais dificuldades para acessar o seu próprio litoral.
Atualmente, apesar de possuir 1.022 km de costa, apenas 0,6% do litoral jamaicano é público e oferece livre acesso aos moradores locais.
O avanço da privatização e o custo do luxo
A transformação do cenário costeiro tem sido acelerada pela expansão de grandes empreendimentos e resorts all-inclusive. Trechos históricos de areia, como a baía de Mammee, onde antes crianças brincavam e pescadores atracavam seus barcos, foram vendidos para a construção de complexos residenciais e hotéis de luxo.
Essa mudança gera impactos diretos na vida das comunidades:
- Barreiras físicas: muros de cimento agora bloqueiam o caminho de moradores e pescadores que utilizavam as praias há gerações.
- Turismo predatório: apenas cerca de 40% da receita bilionária do turismo permanece de fato no país.
Em locais onde o acesso ainda é possível, como na própria baía de Mammee, moradores chegam a pagar cerca de US$ 7,60 (R$ 41) para entrar na praia por meio de estabelecimentos privados.
Uma herança da era colonial
A raiz do problema começa ainda em 1956, quando a Jamaica ainda era uma colônia britânica.
A Lei de Controle das Praias, vigente até hoje, determina que o Estado é o proprietário do litoral e que os cidadãos não possuem o direito público de acesso às praias sem licença. Essa legislação permite que o governo continue transferindo vastas áreas costeiras para a iniciativa privada.
Até 2030, a previsão é de que sejam construídos mais 10 mil novos quartos de hotel na ilha, o que deve restringir ainda mais o espaço para a população local.
Movimento de protesto
Em resposta a esse cenário, surgiu em 2021 o Movimento Ambiental pelo Direito por Nascimento às Praias da Jamaica (JaBBEM), que luta pela revogação da lei de 1956.
Atualmente, existem pelo menos cinco ações na Justiça para garantir o acesso a pontos icônicos, como a Lagoa Azul e a praia Bob Marley, um local historicamente ligado a comunidades rastafári.
Para os ativistas, não se trata apenas de lazer, mas de preservar a identidade cultural e o sustento de comunidades que dependem do mar para sobreviver.
Praias liberadas
Locais como a Seven Mile, em Negril, e a praia Winnifred ainda permitem a convivência entre turistas e residentes. É importante apoiar quiosques de comida típica (jerk chicken), artesãos locais e guias de turismo da região.
Embora o país ainda esteja se recuperando dos danos causados pelo furacão Melissa em 2025, o setor de turismo já reabriu e a recomendação dos moradores é clara: “Gaste seus dólares com inteligência e incentive os espaços locais”.





