Homem atravessou a América a pé, cruzou 14 países em 30 mil km, criou família e levou quase 7 anos para terminar sua jornada

George Meegan tinha 24 anos quando começou a caminhada; ao chegar ao oceano Ártico, já estava casado, tinha dois filhos e acumulava 2.426 dias de viagem

Britânico saiu do extremo sul da Argentina em 1977 sem patrocínio e completou uma travessia que quebrou um recorde mundial (Foto: George Meegan / Wikimedia Commons)

Britânico saiu do extremo sul da Argentina em 1977 sem patrocínio e completou uma travessia que quebrou um recorde mundial (Foto: George Meegan / Wikimedia Commons)

George Meegan havia passado quase sete anos caminhando quando restaram apenas nove milhas entre ele e o oceano Ártico. Yoshiko seguia ao lado do marido naquele trecho final no Alasca. Os dois filhos do casal aguardavam mais adiante.

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Era 18 de setembro de 1983. Quando finalmente alcançou a margem do mar de Beaufort, o britânico se ajoelhou e chorou. Aos 30 anos, terminava uma viagem iniciada quando tinha 24 e que havia consumido uma grande parte da sua vida.

Atrás dele estavam 30.608 quilômetros, 14 países e 2.426 dias desde a partida de Ushuaia, em 26 de janeiro de 1977. O Guinness World Records reconhece a jornada como a primeira travessia das Américas e do Hemisfério Ocidental realizada a pé.

O primeiro passo

Antes de se transformar em caminhante, Meegan trabalhava na Marinha Mercante britânica. Havia deixado a escola aos 16 anos para trabalhar no mar e, depois de anos viajando em navios, decidiu trocar os oceanos por uma rota aparentemente simples no mapa: seguir do extremo sul ao extremo norte das Américas.

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A partida aconteceu em Ushuaia. Dali, ele avançaria pela Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia antes de atravessar a América Central, México, Estados Unidos e Canadá. O destino final seria Prudhoe Bay, no norte do Alasca.

Parte daquela história, porém, começou antes mesmo do primeiro passo. Meegan havia conhecido Yoshiko Matsumoto durante seus anos como marinheiro, no Japão. Ela viajou para encontrá-lo e participou do começo da aventura. Em Mendoza, na Argentina, os dois se casaram.

Uma família na estrada

A viagem avançou, mas a vida pessoal de Meegan também caminhou com ele. Yoshiko retornou ao Japão durante alguns períodos e o casal teve dois filhos enquanto a caminhada ainda estava em andamento: Ayumi e Geoffrey Susumu.

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O caminho estava longe de ser apenas uma sequência de estradas. Relatos reunidos posteriormente em seu livro de memórias, The Longest Walk, descrevem passagens pelo altiplano boliviano, montanhas e desertos do Peru e pela selva do Darién, região entre Colômbia e Panamá onde até hoje não existe uma ligação rodoviária contínua entre as Américas.

Meegan também atravessou a Nicarágua em um período de guerra e enfrentou fome, doenças e episódios de violência durante a jornada. Grande parte da caminhada foi feita sem patrocínio, sustentada por ajuda encontrada pelo caminho.

Último obstáculo

Mesmo depois de atravessar dois continentes, Meegan quase foi impedido de completar os quilômetros finais. Parte do caminho até o oceano Ártico passava pelo campo petrolífero de Prudhoe Bay, operado em parte pela ARCO Alaska.

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A empresa inicialmente recusou a passagem, alegando riscos na tundra congelada e receio de criar um precedente para acesso público a uma área industrial restrita. Uma jornada inteira interrompida nos 45 do segundo tempo.

A salvação veio do próprio governo do Alasca, que autorizou a travessia. Com a permissão oficial, a ARCO recuou e acertou os detalhes para que o britânico cruzasse a área. Assim, após quase sete anos de caminhada, restava a Meegan apenas o último trecho até a costa do mar de Beaufort.

Linha de chegada

No último trecho, Yoshiko voltou a caminhar com ele. Ayumi, então com 5 anos, e Geoffrey, de 3, foram levados de avião para encontrar os pais. A caminhada iniciada por um jovem solteiro na Terra do Fogo terminava com uma família reunida diante do oceano Ártico.

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Reportagem publicada pela UPI no próprio dia da chegada calculou aproximadamente 31 milhões de passos durante os 2.426 dias. Materiais posteriores ligados ao livro de Meegan passaram a citar 41 milhões.

Diante do mar de Beaufort, Meegan definiu a jornada como “uma celebração da liberdade”. Depois de 30.608 quilômetros, a caminhada que começara em Ushuaia havia terminado no outro lado do continente.