Nem todo bebê que para de chorar está calmo. Em muitos casos, o silêncio pode esconder uma adaptação dolorosa: a criança aprende que ninguém virá quando ela precisa.
Em entrevista ao jornal La Vanguardia, o psicoterapeuta Rafa Guerrero explica como a negligência emocional na primeira infância deixa marcas profundas e duradouras.
Segundo o especialista, ignorar o choro pode ensinar mais do que os adultos imaginam, e o impacto acompanha a criança por toda a vida.
O que o choro realmente comunica
“Um bebê não chora para te irritar; ele chora porque precisa de algo”, afirma Guerrero. O choro é o principal mecanismo de sobrevivência nos primeiros meses de vida e sinaliza fome, medo, desconforto ou necessidade de afeto.
No entanto, quando essa comunicação não encontra resposta, o cérebro infantil se adapta. Em vez de insistir, a criança pode reduzir o choro. À primeira vista, parece tranquilidade, mas, na prática, pode ser desistência.
Guerrero resume de forma direta: “uma criança não para de chorar porque está bem; ela para de chorar porque aprendeu que ninguém virá”. O silêncio, portanto, pode indicar resignação, não autonomia.
O erro mais comum
Para explicar o desenvolvimento emocional, o psicoterapeuta usa uma metáfora simples. Ele diz que o cérebro funciona como uma casa. A base representa o vínculo, o apego e a segurança emocional.
Já o sótão simboliza o neocórtex, área ligada à razão, à memória e ao cumprimento de regras. “Nos concentramos no sótão e nos esquecemos da fundação”, resume Guerrero ao falar sobre a educação atual.
Quando pais e cuidadores priorizam apenas comportamento e desempenho, deixam de fortalecer os alicerces emocionais. Sem essa base sólida, exigências cognitivas e disciplina podem se tornar excessivas.
Comportamento é sintoma, não causa
Na prática clínica, Guerrero atende crianças consideradas “difíceis”. Porém, ele faz um alerta: “O comportamento não é o problema, é o sintoma”. Por trás de atitudes desafiadoras, há medo, tristeza ou insegurança.
Muitas vezes, adultos corrigem apenas o que é visível. “Sentimo-nos mais confortáveis corrigindo o que é visível do que abordando o que é invisível”, afirma. Entretanto, emoções ignoradas não desaparecem; elas se acumulam.
O especialista compara esse processo a um iceberg. A ponta aparece, mas a maior parte está submersa. Focar apenas na superfície prolonga conflitos e pode transformar dificuldades emocionais em traços permanentes.
O trauma que não se lembra, mas se sente
Durante muito tempo, acreditou-se que bebês não guardavam memórias dos primeiros anos. Hoje, a ciência aponta outro caminho. “Os bebês sentem, registram e se adaptam”, destaca Guerrero.
Isso significa que experiências repetidas de ausência ou desconexão deixam marcas, ainda que inconscientes. A criança aprende se o mundo é seguro ou imprevisível a partir dessas interações iniciais.
“O trauma nem sempre é lembrado; às vezes, manifesta-se como ansiedade, entorpecimento emocional ou um sentimento persistente de inadequação.” Assim, o que começa com um choro ignorado pode ecoar na vida adulta.
Ao final, Guerrero faz um alerta sobre métodos que defendem deixar o bebê chorar para que “aprenda”. Para ele, “autonomia tem sido confundida com desconexão”. Antes de exigir independência, é preciso garantir vínculo.





