O Polo Norte magnético da Terra se moveu mais de 2.250 km desde 1831 e hoje aponta para a Sibéria — uma mudança histórica que força aeroportos, sistemas de navegação, GPS e até mísseis militares a recalibrar suas referências.
A aceleração desse movimento nas últimas décadas preocupou tanto os cientistas que o modelo global de referência magnética precisou ser atualizado com urgência antes do prazo previsto.
Há uma diferença importante que a maioria das pessoas não sabe: o Polo Norte geográfico é fixo — é o ponto ao redor do qual a Terra gira. Já o Polo Norte magnético anda. E nos últimos 30 anos, ele começou a correr.
O que move o polo magnético
A resposta está no interior do planeta. O campo magnético da Terra é gerado pelo núcleo, composto por ferro e níquel em estado líquido.
A rotação e a convecção desse material metálico criam correntes elétricas — e essas correntes produzem o campo magnético.
O GPS do seu smartphone utiliza modelos magnéticos complexos para converter coordenadas com exatidão. Foto: Ilustração Gazeta/Banco de Imagens
Qualquer mudança no fluxo desse núcleo afeta diretamente a posição do polo. Esse processo é explicado pela chamada teoria do dínamo, usada por geofísicos para modelar o comportamento do campo magnético terrestre.
Segundo a BM&C News, o movimento atual é impulsionado por um cabo de guerra entre dois lobos de fluxo magnético negativo: um localizado sob o Canadá e outro sob a Sibéria.
Entre 1970 e 1999, a circulação do núcleo se alterou e o lobo canadense foi enfraquecido — cedendo vantagem ao siberiano. O polo foi junto.
Uma viagem de mais de 2.250 km em dois séculos
O Polo Norte magnético foi localizado pela primeira vez em 1831 pelo explorador britânico James Clark Ross, no Ártico canadense. Durante décadas, ele se deslocou lentamente, entre 0 e 15 km por ano.
A partir dos anos 1990, tudo mudou. A velocidade saltou para 50 a 60 km por ano — uma aceleração tão intensa que o polo magnético da Terra foi forçado a recalibrar sistemas de navegação em todo o mundo antes do prazo previsto.
A atualização emergencial aconteceu em 2019.
Em outubro de 2017, o polo cruzou a Linha Internacional de Data, passando a menos de 390 km do Polo Norte geográfico. Desde então, segue em direção à Rússia.
Segundo a CNN, em 2024 sua posição já estava registrada em aproximadamente 86° N, 142° L — bem dentro do hemisfério oriental.
O “cabo de guerra” entre lobos magnéticos sob o Canadá e a Rússia é o que está puxando o polo para o oriente. Foto: Ilustração Gazeta/Banco de Imagens
A desaceleração que intrigou os cientistas
Nos últimos cinco anos, os cientistas notaram algo inesperado: o polo diminuiu drasticamente o ritmo. A velocidade caiu de 60 km/ano para cerca de 35 km/ano.
Segundo estudo publicado na revista científica Nature, William Brown, do Serviço Geológico Britânico (BGS), afirmou que o comportamento atual “é algo que nunca observamos antes”.
Mesmo assim, o polo ainda corre mais rápido do que qualquer velocidade registrada antes de 1990. Nenhum modelo atual garante que a desaceleração vai se manter — ou que o polo não voltará a acelerar.
Para acompanhar essa imprevisibilidade, a NOAA (agência oceânica e atmosférica dos EUA) e o BGS lançaram o WMM2025 — o modelo de referência magnética mais preciso já publicado, com resolução dez vezes superior ao modelo padrão anterior.
Por que isso afeta o seu GPS — e muito mais
O campo magnético não é apenas uma curiosidade científica. Ele sustenta tecnologias que usamos no dia a dia — e algumas que moldam conflitos militares.
Após décadas de “corrida”, a velocidade do polo magnético caiu de 60 km/ano para 35 km/ano nos últimos cinco anos. Foto: Ilustração Gazeta/Banco de ImagensVeja os principais sistemas afetados pelo deslocamento do polo:
- Aviação civil e militar: as pistas de aeroportos são numeradas com base no norte magnético. Quando o polo se desloca além da margem de tolerância, as pistas precisam ser renumeradas — e os mapas aeronáuticos, atualizados
- Navegação marítima: navios e submarinos usam referenciais magnéticos em áreas sem cobertura de satélite — qualquer erro compromete a segurança da rota
- GPS e outros sistemas de navegação por satélite: o sistema GPS e outros sistemas de navegação por satélite dependem do WMM para converter coordenadas magnéticas em geográficas com precisão
- Sistemas de defesa: mísseis guiados e drones militares utilizam o campo magnético como referencial autônomo de orientação
Em resumo: cada vez que o polo se move além do limite de tolerância, toda essa cadeia de tecnologias precisa ser reconfigurada.
O WMM2025: o mapa mais preciso do campo magnético
O World Magnetic Model é o modelo global que orienta todos esses sistemas. Ele é revisado a cada cinco anos — mas a aceleração do polo nos anos 2010 forçou uma atualização emergencial em 2019, bem antes do prazo.
A versão mais recente, o WMM2025, válida até 2029, traz uma novidade inédita: um mapa suplementar de alta resolução com precisão de 300 km no equador, contra os cerca de 3.300 km do modelo padrão.
É dez vezes mais preciso do que qualquer versão anterior.
Com um polo que acelera, desacelera e muda de direção sem padrão claro, o monitoramento geomagnético tornou-se tarefa permanente.
O comportamento registrado nas últimas três décadas não tem paralelo na história do campo magnético terrestre, e os cientistas ainda não conseguem prever com certeza o que vem a seguir.







