Um mel escuro, de sabor marcante e que quase desafia o imaginário do consumidor brasileiro, ganha espaço no Sul do país por um motivo incomum: ele não nasce das flores.
O mel de melato da bracatinga surge a partir de uma associação rara entre árvore, inseto e abelhas, num processo que foge do padrão mais conhecido da apicultura.
Produzido no Planalto Sul Brasileiro, esse mel depende da presença da bracatinga, de cochonilhas que sugam a seiva da árvore e da ação das abelhas Apis mellifera, que recolhem o líquido adocicado deixado pelos insetos. Por isso, ele é visto como um produto singular, fortemente ligado ao território onde nasce.
À primeira vista, a história parece curiosa. No entanto, ela revela algo maior: certos alimentos só existem quando a natureza inteira trabalha em sintonia, no tempo certo e no lugar certo.
Por que esse mel foge do padrão
Diferentemente do mel floral, feito a partir do néctar, o mel de melato da bracatinga é elaborado com base nas excreções açucaradas de insetos sugadores que vivem associados à árvore. Esse detalhe muda tudo, da origem do produto ao perfil que chega à mesa do consumidor.
Além disso, ele costuma ter coloração mais escura, maior teor de minerais e um comportamento que chama atenção no mercado: não cristaliza como o mel floral. Essa característica ajuda a explicar por que o produto desperta interesse crescente dentro e fora do Brasil.
Mais escuro e fora do padrão conhecido pelo consumidor, o mel de melato da bracatinga carrega características que o diferenciam do mel floral comum (Foto: Freepik)O alinhamento que torna a produção rara
Esse mel não aparece de forma constante ao longo dos anos. A produção ocorre com mais força em ciclos bianuais, geralmente entre dezembro e junho, sobretudo no primeiro semestre dos anos pares, quando a relação entre bracatinga e cochonilha atinge seu ponto mais favorável.
Ao mesmo tempo, a incidência dessa associação é restrita a bracatingais nativos situados, principalmente, em áreas acima de 700 metros de altitude. Em outras palavras, não basta ter colmeia e floresta: é preciso reunir clima, relevo, vegetação, inseto e manejo apícola no mesmo cenário.
O que faz esse produto valer mais
Essa dependência do meio geográfico ajudou o mel de melato da bracatinga do Planalto Sul Brasileiro a conquistar a Denominação de Origem. O reconhecimento abrange 134 municípios de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul e reforça a ligação entre a qualidade do produto e sua origem.
Na prática, o selo transforma uma curiosidade da natureza em ativo econômico. O mel passa a ser visto não apenas como alimento, mas como expressão de um território específico, com identidade própria, saber-fazer local e potencial de valorização no mercado premium.



