A cidade de Santos, no litoral paulista, concentra 319 edifícios com algum nível de inclinação construídos entre as décadas de 1950 e 1970 sobre antigos manguezais aterrados.
A Prefeitura e a Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI) buscam linha de crédito com o BNDES para realizar obras de alinhamento que podem custar entre R$ 7 milhões e R$ 22 milhões por edifício, com investimento de mais de R$ 200 mil por apartamento.
Santos ostenta uma característica peculiar e preocupante na paisagem urbana: a presença de 319 prédios com algum nível de inclinação.
O problema, que remonta a décadas, entrou em uma nova fase de discussões com foco em soluções financeiras para obras de alinhamento.
Solo de manguezal explica o problema estrutural
Os edifícios foram erguidos majoritariamente entre as décadas de 1950 e 1970 sobre antigos manguezais aterrados.
O solo argiloso e encharcado, combinado com fundações rasas, causou afundamento irregular das estruturas ao longo do tempo. Foto: Nair Bueno/DLO solo da região é composto por camadas argilosas, encharcadas e de baixa resistência.
Na época da construção, as fundações foram feitas de forma rasa, sem atingir as camadas firmes do subsolo.
Esse erro técnico causou o afundamento irregular das estruturas ao longo do tempo. Em alguns casos, a inclinação chega a um metro.
Santos lidera ranking mundial de prédios inclinados
A cidade paulista é a que possui a maior quantidade de prédios inclinados no mundo, segundo especialistas.
Apenas a Cidade do México tem um solo mais inseguro para a construção civil que a capital do litoral paulista.
Dos 319 edifícios com inclinação, 65 já atingiram o nível “acentuado” conforme parâmetros estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
A inclinação acentuada se dá quando o desaprumo da estrutura é igual ou superior a 0,5% da altura total da construção.
BNDES pode viabilizar obras de correção
Embora laudos da Prefeitura indiquem que não há risco iminente de desabamento, a correção é necessária para garantir a longevidade do patrimônio.
Os edifícios foram construídos majoritariamente entre as décadas de 1950 e 1970 sobre antigos manguezais aterrados. Foto: DivulgaçãoO principal entrave é o valor. Estima-se que as obras de recuperação estrutural custem entre R$ 7 milhões e R$ 22 milhões por edifício.
O custo varia dependendo do grau de inclinação e do tamanho da estrutura.
Para viabilizar o projeto, o plano em discussão envolve o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Prefeitura seria garantidora do empréstimo
A proposta é que o banco federal abra uma linha de crédito para os moradores, tendo a Prefeitura de Santos como garantidora do empréstimo.
Ou seja, caso um morador não pague, o município assumiria a dívida.
“Nós não temos a disponibilidade de fazer investimentos públicos num condomínio, num prédio privado”, explicou Fabio Ferraz, Secretário de Governo de Santos, ao Jornal da Band.
“No entanto, há o interesse público em ter esse tema superado”, completou o secretário.
Financiamento exige modelo inédito
Atualmente, o BNDES não possui um modelo de financiamento para áreas particulares com intermediação pública.
Isso exige novas rodadas de negociação entre o banco e o município.
A cidade aguarda definições técnicas e financeiras para dar início ao que pode ser um dos maiores projetos de engenharia civil corretiva do país.
Investimento alto com retorno em valorização
Para os proprietários, o investimento é alto, mas visto como necessário.
Em determinados prédios, cada apartamento teria que desembolsar mais de R$ 200 mil para custear a obra.
Izabel Rubira, advogada e moradora de um desses edifícios, conta que o nivelamento interno do seu apartamento já resolveu problemas de equilíbrio.
No entanto, o alinhamento total do prédio é o objetivo final para garantir a segurança estrutural.
Segurança e valorização compensam o custo
Segundo Eliana Mello, presidente da ACOPI, o alto custo é compensado pela segurança e pela valorização imobiliária.
“É um valor alto, mas vai garantir o patrimônio e também valorizar o imóvel”, afirma a presidente ao Jornal da Band.
A associação de condomínios foi criada especificamente para buscar linhas de crédito de longo prazo e com juros subsidiados.
Síndicos se organizam para viabilizar solução
Os síndicos dos edifícios afetados decidiram formar uma associação inédita para buscar alternativas financeiras.
A ideia é conseguir condições especiais de financiamento que permitam parcelar o investimento em prazos longos.
A organização coletiva facilita as negociações com instituições financeiras e órgãos públicos.
Para muitas famílias, a solução do problema representa não apenas segurança, mas também a recuperação do valor de mercado dos imóveis.




