Às 9h01 de 22 de fevereiro de 2007, John Jordan voltou ao banco das testemunhas no Tribunal Penal Internacional. Mais de uma década já o separava de Sarajevo, mas duas palavras de seu depoimento anterior reapareceram diante dele: “turistas atiradores”, expressão que hoje ressurge no debate sobre o chamado Safári de Sarajevo.
Jordan era um ex-fuzileiro naval americano que havia chegado à cidade de Sarajevo em 1992 para ajudar durante o cerco. Naquele cenário, disse ter notado homens que pareciam deslocados, usando um misto desengonçado de roupas civis e militares, armados de forma incomum e guiados por pessoas experientes no local.
Jordan os viu em Grbavica e perto de posições conhecidas de franco-atiradores sérvio-bósnios. Embora tenha afirmado de forma veemente que nunca viu essas pessoas dispararem, seu depoimento alimentou suspeitas sobre um capítulo ainda não esclarecido daquele cerco.
O que é o Safari de Sarajevo?
Homens fora do lugar
Foi dessa combinação que Jordan reconheceu o perfil que chamava de “turista atirador”. A expressão, contou ao tribunal, ele havia encontrado pela primeira vez em Beirute, onde observara comportamento semelhante ao redor da Linha Verde.
Para a Justiça, porém, sua percepção continuava sendo exatamente isso: um testemunho, não a prova de que estrangeiros pagavam para matar. Jordan disse que nunca viu aqueles homens dispararem, apenas sendo conduzidos por áreas conhecidas pela presença de franco-atiradores.
O horror ao redor, este sim, foi estabelecido judicialmente. O tribunal concluiu em diferentes processos que forças sérvio-bósnias mantiveram uma campanha de tiros e bombardeios contra civis de Sarajevo com o objetivo de espalhar terror.

Durante anos, a hipótese dos estrangeiros permaneceu muito mais nebulosa. Ela voltou ao centro das atenções com o documentário Sarajevo Safari, lançado em 2022, e depois com uma denúncia apresentada pelo escritor e jornalista italiano Ezio Gavazzeni à Promotoria de Milão.
Um rosto em 2026
Em fevereiro, a história que Jordan havia contado sem nomes ganhou um rosto na Itália. Giuseppe Vegnaduzzo, ex-caminhoneiro de 80 anos de San Vito al Tagliamento, tornou-se o primeiro suspeito interrogado pela investigação conduzida em Milão.
Investigadores chegaram até Vegnaduzzo a partir de relatos do antigo trabalho. Uma ex-colega afirmou ter ouvido outro funcionário contar, cerca de 15 anos antes, que ele se vangloriava de ter ido à Bósnia nos anos 1990 para participar de uma “caça ao homem”.

Segundo a apuração, promotores investigam se Vegnaduzzo esteve entre os chamados “franco-atiradores” de fim de semana. O ex-caminhoneiro é investigado por homicídio voluntário continuado, agravado por motivos considerados abjetos pelas autoridades italianas.
A dificuldade agora é transformar uma história transmitida entre antigos colegas em algo concreto e verificável. Investigadores passaram a buscar registros de viagens e passagens de fronteira capazes de confirmar se Vegnaduzzo esteve na região durante o cerco.
As próprias declarações atribuídas ao italiano também entraram no radar. Antes do interrogatório, ele havia sido citado dizendo que viajava à Bósnia por trabalho, como caminhoneiro, e não para caçar. Posteriormente, reportagens italianas registraram versões mais categóricas de sua negativa sobre ter estado no país durante a guerra.

O que ainda falta
A investigação avançou, mas ainda não fechou essa distância. Em junho de 2026, cinco pessoas estavam sob investigação na Itália. Uma fonte com conhecimento direto do caso afirmou que as evidências reunidas eram majoritariamente circunstanciais e ainda insuficientes para pedir que os suspeitos fossem julgados.
Outros países, entre eles Bósnia e Herzegovina, Bélgica e Áustria, também abriram apurações relacionadas às denúncias. Até julho, porém, análises do caso continuavam ressaltando que a existência, a escala e a organização desses supostos safáris ainda não haviam sido demonstradas judicialmente.
É nessa distância que Jordan continua importante. Em 2007, ele não ofereceu ao tribunal uma história pronta. Ofereceu uma imagem incompleta: homens de fora, armas estranhas, guias locais e posições de franco-atiradores. Quase 20 anos depois, investigadores tentam descobrir o que havia além daquela imagem.
Se os chamados “safáris humanos” forem comprovados, o depoimento do bombeiro poderá ser relido como um fragmento precoce de algo muito maior. Se não forem, permanecerá como o próprio Jordan delimitou: a lembrança perturbadora de homens que pareciam turistas em um lugar onde ninguém deveria estar de férias.












